O Hall das Vidas Passantes

Acho que foi no segundo ano. A gente voltava da escola junto todo santo dia. E se tinha isso de todo dia ser santo, era só por causa dela. A gente conversava sobre um monte de coisas e o legal da Marcela era não ser do tipo que só fala de coisas de garota, como garotos, roupas, sapatos, garotos. E tinha um par de pernas... E conversava sobre tudo, tudo. Quer dizer, menos sobre aquelas coisas, é claro. Mas até de futebol a gente falava. Juro.

Não sei o que ela fazia naquela escola. O pai dela nem trabalhava, o desgraçado. Tinha uma pá de táxis rodando pra ele. Dizem que ganhava uma baba. E devia ganhar mesmo. O prédio deles era o mais chique do bairro. Chique de subúrbio, saca? É engraçado isso: qualquer um que mora em prédio com porteiro no subúrbio acha que é bacana.

Mas o prédio dela era bacana mesmo. Eu a deixava lá todo santo dia e seguia uns 300 metros rua acima até entrar num corredorzinho de cimento rachado que dava numa espécie de vila. Eu morava no número 8. Era a única casa com um número de verdade, daqueles números de ferro, não sei,  imitando dourado, que meu pai fez questão de comprar pra não ter de fazer como os vizinhos, que rabiscavam o número da casa na parede com lápis de cera, assim, de qualquer jeito. Eu sentia que meu pai tinha orgulho disso, sabe, daquela coisa do número e tal.

Aí teve um dia que choveu pra burro. Uma daquelas pancada que caem assim, de repente. Ninguém tinha levado guarda-chuva pra escola e Marcela tinha feito o cabelo por causa do aniversário da prima. E, olha, ela ficou incrível! Os cabelos ficaram lisos e faziam umas voltinhas quando chegavam nas pontas. E o pior: o tal do cabelo novo ressaltou os lábios dela. Uau! Ela ficou com uma boca do tamanho do mundo e eu queria pular lá dentro e só sair pra morrer.

Só que ela estava pirando com a ideia de estragar o cabelo, então eu peguei meu livro de matemática e fiz uma cabaninha pra ela.

- Como é que tu vai estudar depois, seu doido?
- A gente vê um jeito de você me pagar. - e dei aquela piscada de malandro.

Ela estava morrendo de frio e os peitinhos começaram a ficar eriçados. Aquela boca enorme, as voltinhas no cabelo e as duas bolinhas apontando por debaixo da blusa me deixaram maluco. Bendito seja o cara que fez as blusas de colégio brancas!

Chegamos e ela me convidou pra entrar um pouco e esperar a chuva passar. Ficamos no hall. Era uma entradinha social, mas ela enchia a boca pra dizer “hall”. Meu livro de matemática estava em frangalhos, as páginas se desfaziam na minha mão. Mas o cabelo dela estava intacto. Perfeito, incrível e intacto.

O bom desse tipo de temporal é que faz todo mundo desaparecer de uma vez só. E parece que as ruas respiram aliviadas sem aquele bando de gente inútil perambulando pra lá e pra cá, cheio de pressa, buzinando, se esbarrando e se xingando. Tudo o que existe é o barulhinho da chuva batendo no chão, o cheio de terra e mais nada.

E foi aí que a gente se olhou. Daquele jeito, sabe? Tava na cara que a gente ia se beijar. Mas a gente se conhecia há um tempão, eu era louco por ela e achei que era meu dever dizer algo bacana naquele momento. Eu não era como os retardados do colégio que não sabiam dizer um troço bonito nem no velório da mãe.

Eu já sabia até o que ia dizer. Tava guardado na manga há um tempão, só esperando por aquele momento. Eu ia dizer assim: “Você já parou pra pensar em quanta gente passa pela nossa vida e depois desaparece pra sempre? É que a vida dá  meia-dúzia de chances pra gente segurar quem realmente vale a pena. E se a gente não segura bem forte uma pessoa, a vida leva ela embora achando que a gente não dá a mínima pra ela. E eu não quero que isso aconteça com você. Não quero que a vida leve você embora. Não quero que você passe. Quero que você fique. Pra sempre”.

Mas eu não falei nada disso. Fiquei lá, paradão, olhando pra ela com cara de imbecil. O discurso estava todinho na minha cabeça, mas as palavras giravam e giravam, como se estivessem num liquidificador. Eu tentava colocá-las em ordem, mas as desgraçadas fugiam, se escondiam e se embolavam cada vez mais. Aí, bem nessa hora, a chuva parou de propósito!

- Já dá pra você ir. – ela disparou, sem pena.
- Tá.... Tá...
- Vou pedir pro meu pai comprar outro livro pra você.
- Não... Não...
- Você disse pra eu pagar, pra dar um jeito.
- Não... não... – Merda! As palavras não saíam.

Então ela virou as costas e foi embora. Pude ver a blusa branca encharcada, as costas magras, as ondinhas do cabelo executando uma dança cruel de despedida e as meinhas soquetes perdidas dentro do enorme par de tênis esportivo.

E depois daquele dia, tudo mudou entre a gente. Não era mais aquela coisa, sabe? Eu olhava pra ela o tempo todo, tentando achar aquele olhar. Aquele, sabe? Mas era como se tivessem levantado um muro invisível entre a gente. Aí ela arrumou umas amigas novas, umas garotas normais, dessas que não falam sobre tudo, mas só de roupas, sapatos, garotos.

Aí, num belo dia, eu estava voltando da padaria de bermuda e chinelo, carregando um saco plástico com pão e mortadela, como fazia todas as tardes. Sempre que eu passava pelo prédio da Marcela, eu olhava pro “hall”, na esperança de pegá-la chegando ou saindo. Sempre que isso acontecia, a gente acabava batendo papo por horas e horas e era uma delícia. E dessa vez ela realmente estava no hall, só que atracada com um marmanjo que devia ter, sei lá, uns dez anos a mais que a gente.

Eu congelei. Eu, meu chinelo de dedo e meu pão com mortadela. Foi ridículo. A cara que eu fiz deve ter sido tão ridícula que acabou chamando a atenção dos dois, que pararam de se beijar e me olharam. Aí eu levantei a mão e acenei, todo abobalhado.

- Oi. Fala. – ela disse, com a paciência com que se atende um testemunha-de-jeová. Aquilo me pegou de surpresa. Tudo aquilo. Muito de surpresa.
- Eu queria saber - e aí eu gaguejei - se você - e aí eu gaguejei de novo - falou com seu pai sobre o livro de matemática. É que minha mãe reclamou pra burro... – Eu sei, eu sei. Era a última coisa que eu devia dizer. Mas foi a única coisa que apareceu na minha cabeça.
- Tá, vou falar com ele.

Ela nem esperou eu ir embora; tascou um beijão no marmanjo comigo ali, em pé, do outro lado da grade, de bermuda e chinelo.

Daí em diante a gente mal se viu. Ela passou a sentar do outro lado da sala, perto das novas amigas. Ela ficava invisível no recreio e sumia na saída. E nem adiantava procurar. Só voltei a esbarrar com ela algumas semanas depois, lá na rua. Eu estava voltando da padaria com pão e mortadela. Ela estava andando abraçada com o marmanjo. Na verdade, o cara era dez vezes mais alto e ela tava enfiada debaixo da asa dele, feito um pinto na asa da galinha. Fiquei meio sem saber o que fazer, mas resolvi que dessa vez daria uma de machão. Olhei bem fixo na cara deles e cumprimentei. Ela só levantou as sobrancelhas. Cara, aquilo me arrasou. Seria melhor se ela tivesse virado o rosto ou passado direto. Eu levanto a sobrancelha daquele jeito pra cumprimentar as amigas da minha mãe, que eu mal conheço. Levanto a sobrancelha pra fugir do “Tá grande!”, “Tá bonito!”, “Tá um homão!”. Era o fim. No fundo, eu sabia que tinha perdido a grande chance que a vida me deu pra não deixar a Marcela passar. Mas eu não agarrei. Deixei passar. Isso doeu um bocado.

Aí, alguns dias depois, eu ouvi a voz dela me gritando. Ela veio correndo com um embrulho na mão. Tá, nem tem graça eu fazer suspense. Claro que era o livro de matemática. Marcela estava super simpática e me abraçou e começou a me agradecer. Eu não entendi nada. Aí ela explicou que tinha esquecido que eu era o grande responsável por toda a felicidade dela. Eu e o livro de matemática. Afinal, foi graças a mim que ela chegou na festa da prima com o cabelo intacto e conheceu o marmanjo com asa de galinha.

Eu quis pegá-la pela nuca, tascar-lhe um baita beijo no meio da boca e dizer que aquele babaca jamais se importaria com ela tanto quanto eu. Mas fui simpático e frouxo. Desejei felicidades, agradeci pelo livro e parti. Cheguei em casa e fui direto para o banheiro, com livro, pão, mortadela e tudo. Levantei a tampa da privada, abri o embrulho e comecei a rasgar as páginas do livro e jogar dentro da privada. Fiquei olhando aquelas fórmulas, parábolas e conjuntos boiando na água do vaso até desaparecerem para sempre. Foi uma espécie de ritual, sabe? Eu precisava me livrar daquilo. Mas o vaso acabou entupindo e levei um baita esporro do meu pai e ele me fez pagar o conserto em suaves prestações, descontadas da minha mesada, que já era ridícula de pequena.

E depois desse dia, eu nunca mais vi Marcela. Deve ter se mudado, saído do subúrbio. Acho até que estou esquecendo de como é o rosto dela. Só consigo me lembrar de umas imagens assim, meio borradas. Mas aquele discurso todo sobre a vida, sobre segurar as pessoas, de não deixar elas passarem, coisa e tal, está bem decoradinho. Intensifiquei os treinamentos. Recito palavra por palavra na frente do espelho sem gaguejar nem nada. Ah, mas eu não dou outro mole desses. Não dou mesmo.

O Homem de Terno

Já estava acostumada às correntes daquele mar de rostos flutuantes ao seu redor e esfregava mecanicamente um panfleto no outro antes de estendê-lo a um transeunte, sem conseguir enxergar, entretanto, nenhuma lógica naquele procedimento. Em seus primeiros dias naquele trabalho, sentiu-se terrivelmente deprimida ao constatar que se tornava invisível, inexistente ao plantar-se na esquina da Rio Branco com Assembléia munida de seu bloquinho de panfletos onde lia-se "Dinheiro Rápido". Mas a depressão foi rapidamente substituída pelo ódio. Concluiu que os passantes que sequer miravam seu rosto para negar-lhe o recebimento de um panfleto gentilmente estendido só podiam fazê-lo por algum prazer sórdido. Transformou-se então numa máquina de panfletagem, estendendo os braços em movimentos curtos e precisos. Tudo que via era a imensa massa turva de feições que brotavam aleatoriamente diante dela. Vez por outra sentia náuseas.

Então viu um homem de terno caminhando em sua direção. Já devia ter passado por ali centenas de vezes, mas só agora ela o reparava. Seus olhos eram duas grandes bolas pretas de bilhar. Profundos e enigmáticos, como enormes buracos negros sugando tudo ao redor. Ficou fascinada por aqueles olhos. Esticou o braço o mais que pôde para entregar-lhe um panfleto, mas o homem não a percebeu. Não conseguiu mais tirar da cabeça a imagem daqueles olhos. Finalmente algo intrinsecamente vivo havia cruzado seu caminho.

No dia seguinte, por volta do mesmo horário, o homem de terno passou por ali novamente. Ela, porém, aguardava-o em grande estilo. O rosto maquiado, o decote generoso valorizando seu busto e o salto agulha que castigava suas pernas desde que os calçara eram os responsáveis pelo relativo sucesso que fazia na esquina. Seu colega de posto na panfletagem, um gaiato uns quinze anos mais velho, passara toda a manhã lhe dirigindo gracejos inconvenientes. Até mesmo alguns transeuntes substituíram seu habitual olhar indiferente por outro mais "humano". Porém, o homem de terno conversava entretido com um amigo e não virou o rosto em sua direção. Sua decepção foi tão palpável que seu colega de posto disparou de imediato:
- Então é por causa desse maluquinho de terno que tu veio embonecada desse jeito?
- Vem cá, tu é meu marido agora, é?! – respondeu, agressiva.
- Devia ser, mas tu é doida. Fica sonhando com o que não nunca vai ter.
- E tu lá tem idéia do que eu quero? – perguntou em tom imperioso, encerrando assim a discussão.

E a imagem daqueles dois lagos de negritude não lhe abandonava. Precisava, de uma forma ou de outra, estar sob a mira deles. Decidiu então tomar medidas extremas. No dia seguinte, quando o homem de terno passasse novamente, simularia um desmaio diante dele. Um olhar bastaria para devolver-lhe à vida e salvá-la do mecanicismo daquele mundo gélido. E lá vinha ele, vestindo um elegante terno cinza escuro, caminhando sozinho entre a multidão. Ao vê-lo cada vez mais perto, sentiu crescer dentro de si uma angústia incontrolável. Já não sabia mais se teria coragem de levar seu plano adiante. E o homem vinha em sua direção numa linha reta milagrosamente desobstruída. Sua pulsação disparou, um calor tórrido subiu-lhe ao rosto, sua visão escureceu e suas pernas bambearam. Contra a vontade, desabou no chão. Talvez o corpo tenha feito o que a alma não teve coragem. O homem de terno imediatamente correu em seu auxílio, pôs a mão por baixo de sua nuca e levantou-a do chão. O outro panfletista, por sua vez, empurrou grosseiramente o homem, como se ele cometesse uma grande indelicadeza ajudando a moça.
- Circulando, grã-fino! Circulando!
- Se precisar de alguma ajuda, me procura – respondeu o homem inabalado, entregando-lhe um elegante cartão de visitas.
- E desde quando eu preciso de ajuda pra cuidar de mulher minha?! – vociferou o panfletista.

Depois de recobrar a consciência, foi arrastando-se vagarosamente, apoiando-se no ombro do colega, até o supervisor dos panfletistas, que ficava na esquina da Presidente Vargas com Uruguaiana. Era lá que eles pegavam seus bloquinhos de panfleto pela manhã. Antes que ela tivesse tempo de responder ao supervisor, que indagava o motivo de sua expressão pálida, seu colega tomou-lhe a frente:
- Chefe, essa garota não pode ficar na Rio Branco não. Ali faz muito sol e a menina quase empacotou na minha frente.
- Mas que menina frouxa, hein?! Larga ela aí. Amanhã vejo outro posto pra ela. – respondeu o supervisor, indiferente.
- Não foi sol coisa nenhuma! Eu passei mal porque... – disse ela, tentando esboçar uma reação.
- Ssssh! Não me crie caso. Por muito menos já mandei garota frouxa pra rua. – cortou o supervisor.
Se tivesse forças, agrediria seu agora ex-colega de posto ali mesmo, sem cerimônias, mesmo sabendo que perderia o único trabalho que conseguira em meses de árdua procura. Seria merecido e acima de tudo prazeroso, mas sentiu a vista escurecer novamente e procurou se acalmar.

No outro dia, não conseguindo conter-se ao ver o relógio marcar o horário em que o homem de terno costumava passar, abandonou seu novo posto e seguiu em desabalada carreira para a Rio Branco, sabendo que não podia cruzar com o supervisor em sua costumeira ronda pelos postos, pois seria caso de demissão imediata. Mas imediato era seu desespero e por isso corria, suava e gemia. Avistou entre a multidão a nuca de uma cabeça careca que ela conhecia muito bem, era seu supervisor em seu habitual passo de cágado. Não podia ultrapassá-lo, mas também não podia acompanhar seu passo lento. De impulso, entrou numa galeria comercial que cortava um dos prédios. Saiu do outro lado, correndo feito uma louca. Quando chegou, o homem de terno estava dobrando a esquina. Correu até ele, puxou-lhe pelo braço e pousou um panfleto em sua mão. O homem reconheceu-a, fez menção de dizer algo mas não teve tempo, pois ela voltara a correr alucinadamente para voltar a seu posto. O homem observou o panfleto e viu algo no verso escrito a lápis, numa caligrafia insegura, infantil. Era um nome, apenas um nome, o nome dela, e só.

Metamorfoseado

Acordou se sentindo um merda. Não tinha motivo aparente, mas sentia até o gosto de merda na boca. Esfregou a testa suada com as costas da mão e levantou cambaleante. Segundo Kafka, o momento mais perigoso do dia é o acordar. Pois Antônio acordou metamorfoseado numa grande montanha de fezes secas, desbotadas e de cheiro enjoativo e nauseante. Mas ele lembrou que não tinha tempo para curtir sua deprêzinha matinal. Tinha que enfiar-se numa calça de microfibra barata e ir para o trabalho. Minutos depois, devidamente vestido como um trabalhador, rumou para o ponto do ônibus relembrando todas as pessoas que conseguiram viver sem ele. Colegas de escola, de faculdade, de outros empregos, ex-namoradas, ex-vizinhos, ex-melhores-amigos... Desfilavam diante dele suas esposas, maridos, filhos, novos-melhores-amigos, cachorros, gatos, amantes...

Mas não era assim com todo mundo? A vida não era um gigantesco acelerador de partículas chocando pessoas umas contra as outras e espalhando-as por toda sua extensão monstruosa? Era evidente que sim. Mas o que incomodava Antônio era não deixar nenhuma marca. Sentia-se um espectro passeando por um mundo ao qual não pertencia. Vez por outra imaginava a própria morte. Seu corpo descendo terra abaixo num caixão, os rostos condoídos daqueles que solidariamente compareceriam àquela celebração da comunhão de todos os homens na morte. E dois dias depois, o que lhes aconteceria? No máximo, uma sensação estranha, desconfortável, de um não-sei-o-quê que ficou pra trás. Talvez uma conta que esqueceu-se de pagar, uma lâmpada deixada ligada, uma boca do fogão esquecida acesa. Então se lembrariam que alguém morreu, mas por efeito do terror ritualístico de um corpo entregue aos vermes diante dos vivos. Nada mais que isso.

Pegou o ônibus. Sentou-se observando aqueles rostos lobotomizados. Viu-se neles. Será que depressão era aquilo? Não, não era. Depressão era para consciências profundas que se deparavam com a transitoriedade da vida. Antônio só se sentia um merda e qualquer coisa além disso soava para ele como pura pretensão. Chegou ao trabalho e uma vez lá conversou, riu e brincou como todos ali. Mas uma reminiscência amarga repousava em sua boca. Sabia que um dia seria demitido ou se demitiria e aqueles que hoje agiam como participantes permanentes de sua vida sequer se lembrariam da cor do carpete onde pisavam se perguntados. Não tinha nada a dizer-lhes que pudesse afixá-los a si. Não tinha conselhos profundos para dar, reflexões edificantes para compartilhar ou sentimentos calorosos que lhes fossem dedicados. Nada.

À noite, voltou pra casa. Abriu a geladeira, pegou alface, tomate, pepino e fez uma salada. Requentou a carne assada do dia anterior e jantou assistindo Jornal Nacional. Chorou. Olhava para o apresentador e não conseguia conter as lágrimas quentes que desciam. Chorava, não por si próprio, mas pelo apresentador. Não era pena, nem compaixão, nem um choro misericordioso, como se lhe fosse superior, mas era algum tipo de comunhão, como se tivesse certeza que o apresentador também chorava. Cansou de chorar e desligou a TV. Deitou na cama, fitou o teto e refletiu. Chegou à conclusão de que toda aquela veadagem não ia chegar a lugar nenhum. Resolveu dormir, pra ver se acordava metamorfoseado em algo melhor no dia seguinte.

A Criatura

João Marcos viu a coisa. Era a segunda vez que ela aparecia, no mesmo horário. Era do tamanho de um boi, tinha uma cabeça de leão, mas flamejante, e o corpo de um avestruz, pingando de molhado. João Marcos ficou paralisado olhando pra ela. Da primeira vez foi pior. Ele se perguntava se estava no inferno ou se aquilo era Deus. Mas porque a coisa não lhe matara antes e mataria agora? Então relaxou. Bem, nem tanto. A figura era pra lá bizarra e o fitava nos olhos com interesse. Mas com o tempo, João Marcos passou a ignorar a criatura e deitar-se para o outro lado. Às vezes ele esquecia e, durante a madrugada, virava para o lado da porta e lá estava ela, parada, com seu olhar interrogativo. Mas pernoitar noite após noite é que não dava. E o bicho ficava lá, quietinho, quietinho. Que mal tinha, né?

Um belo dia, João Marcos foi para o trabalho, como sempre. Estava no ponto esperando o ônibus quando de repente apareceu a coisa do outro lado da rua, com sua cabeça flamejante e seu torso pingante. Nosso amigo arregalou os olhos, quase se rendendo ao desespero, mas ao notar que ninguém ao seu redor via a criatura, se recompôs, ajeitou a gola da camisa e fez que não era com ele. Pelo contrário, empinou a cabeça e passou a fitar a criatura com um ar desdenhoso, cheio de empáfia. Então a criatura mostrou os dentes. Eram tantos, tão grandes, afiados e alvos que causavam quase tanta admiração quanto pavor. João Marcos ficou aterrorizado. Se contorcendo de pavor, abordou um rapaz que estava ao seu lado:

- Que... Que... Que horas são, por favor?

O rapaz estava com fones nos ouvidos, mas João Marcos não percebeu. E, com os braços estendidos para o alto e as mãos crispadas, soltou um berro que a rua inteira ouviu:

- Será que alguém pode me dizer as horas, pelo amor de Deus!?

Todos imediatamente viraram as cabeças em sua direçao. O rapaz arregalou dois olhos do tamanho de frigideiras e respondeu atordoado:

- São... São... São quinze pras sete.

Mas quando João Marcos voltou a olhar para o outro lado da rua, a criatura não estava mais lá. O ônibus chegou e ele embarcou debaixo dos comentários injuriosos dos que também aguardavam o coletivo. Diziam, entre outras coisas, que os viciados hoje em dia usam terno e gravata e se drogam às sete da manhã.

Chegou ao trabalho branco como um toco de vela virgem e sentou em sua estação de trabalho sem cumprimentar ninguém. Todos estranharam aquela atitude do sempre falante João Marcos. Percebeu então que precisava disfarçar seu estado de espírito, pois do contrário seria obrigado a explicar todo o acontecido. E quem, em sã consciência, não lhe consideraria - como posso eufemizar – um desprovido de discernimento cognitivo? Enfim, sorriu, cumprimentou, entrou no papo, contou piada, falou do Big Brother, do jogo do Vasco, da corrupção, do crime hediondo da semana e sentiu-se bem novamente. Mas depois de alguns minutos aquela “imgem da besta” retomou seus pensamentos. Pensou em desabafar com alguém, mas quem? Bom, alguém que a princípio acreditaria em seu relato. Não podia ser o Leonardo, que jurava de pé junto que o homem não foi à lua, que a bomba atômica não existiu, que Paul Mccartney é um sósia e que a Terra não gira em torno do Sol. Mas acreditar só também não bastava. O David, que era evangélico, iria dizer que se tratava de um demônio que precisava ser exorcizado. Já a Paulinha, kardecista, diria que se tratava de um mestre espiritual vindo de outro plano. O Marcão, auto-denominado “macumbeiro”, ia dizer que se tratava de um exú pedindo uns trabalhos. Ah, e ainda tinha a Zildete, metida a psicóloga, que com certeza interpretaria a criatura como algum desejo sexual reprimido que João Marcos sentia pela mãe. Pra ela, no frigir dos ovos, todo mundo queria comer a mãe. Então, resolveu deixar como estava.

A criatura continuou aparecendo pra ele, mas o relacionamento dos dois voltou a ser amistoso. Ele não empinava a cabeça, ela não mostrava o arsenal dentário. Passaram-se uma, duas, três semanas nessa paz. Até que João Marcos recebeu no trabalho um telefonema da vizinha, informando que Débora, sua esposa, havia sofrido uma crise nervosa e estava internada. “Crise nervosa?”, pensou, “Débora nunca teve essas frescuras”. No hospital, a enfermeira lhe disse que sua esposa estava bem. João Marcos encontrou a mulher tão sedada, que seus olhos giravam lentamente como uma roda gigante. Seu lábio inferior pendia da boca que exibia um leve sorriso abobado, dando-lhe um aspecto demente. Mas até que ela parecia estar se divertindo. “Se o pessoal do ônibus a visse agora, ia dizer que a gente forma um casal perfeito”, imaginou. O doutor chegou e contou-lhe que Débora deu entrada no hospital com um quadro crônico de alucinação. Ela repetia aos gritos: “Tá pegando fogo mas tá pingano! Tá pingando mas tá pegando fogo!”. João Marcos precisou de uma cadeira.

Em casa, depois de passado o efeito do sedativo, Débora chorava no ombro do marido.

- Fica assim não. Ela não é tão má. – iniciou João Marcos, tentando acalmar a esposa.
- Ela?!
- É, a criatura.
- Você... também.... – disse Débora, balbuciando.
- Aham. Aparece pra mim há tempos.
- Escuta aqui, João Marcos Silvério dos Reis! Eu não estou com humor para brincadeiras, tá me escutando? – explodiu a mulher. João Marcos respondeu com uma calma professoral:
- É do tamanho de um boi, tem cabeça de leão pegando fogo e corpo de avestruz pingando de molhado.

Débora ficou atônita com a descrição exata do marido.

- Porquê?! Porquê!? – disse ela caindo aos prantos. João Marcos abraçou-a forte.
- Não tem porquê meu amor.
- Se essa coisa tá aparecendo pra gente, existe um motivo!
- Mas deixa ela quieta. Comigo nunca se engraçou. Quer dizer, mostrou os dentes uma vez, mas gritei tão alto que ela “puf”, sumiu.
- Você afugentou aquela coisa?
- Foi uma vez só. Mas eu não recomendo que você tente fazer isso, meu bem. Eu sou homem, sabe como é.
- A gente vai dar um nome pra ela?
- Eu gosto de “a coisa”.
- Ai, que falta de respeito! Se é pra ser assim, impessoal, eu prefiro “a criatura”. É mais digno.

E assim, conseguiu tranquilizar a patroa. Ele acreditava que agora, finalmente, os três viveriam em paz. Deitou e dormiu como uma pedra. Não tinha criatura flamejante e pingante que o despertasse do sono. Mas ele tinha uma esposa. Acordou em plena madrugada com os solavancos que a mulher lhe dava para que acordasse.

- Ela falou comigo! – disse Débora, excitada.
- Falou? Falou o quê?
- Quer dizer, fui eu quem falei.
- Mas tinha que arrumar idéia!
- Perguntei por que ela aparece aqui.
- Nem conta que eu não quero saber. – e tapou os ouvidos com a ponta dos indicadores. Débora retirou-os e disse:
- Ela falou que responde qualquer coisa, desde que seja você quem pergunte.
- Ah, eu mereço essa agora! Tu que arrumou idéia, agora vai morrer seca de curiosidade!
- Mas tu não vai perguntar, não?
- E eu quero saber, pra perguntar?
- Mas é um bicho do outro mundo, que pega fogo e pinga água ao mesmo tempo! Sabe lá. Pode contar pra gente todos os segredos desse mundão.
- Se é segredo, não deve ser á toa. – disse João Marcos, virando-se para o lado.
- Mas tu não é homem, não?

João Marcos sentou-se na cama e olhou a mulher nos olhos, furioso.

- E o que tu quer que eu faça?
- Pergunta pro bicho por que ele aparece pra gente. Só isso.
- Deixa comigo. – disse João, deitando-se de costas para a esposa, encerrando a conversa.

Tentou voltar a dormir, mas não conseguiu. Só ficava pensando no que a criatura lhe diria. Não podia sequer especular sobre o que aconteceria depois que fizesse a pergunta. Não que temesse ser dilacerado pela dentição trituradora da fera. Temia era a resposta. O que o bicho iria dizer? Que ele continuasse sendo quem é, vivendo a vida que vive, do jeito que vive, sem tirar nem pôr? Ele não teria se dado o trabalho de ficar de pé na porta daquele quarto noite após noite por nada. Trazia com certeza alguma revelação transformadora, uma missão urgente ou questões inquietantes. "Mas que vá pro inferno você e sua mensagem do outro mundo! Quero a minha vida do jeito que sempre foi!", falou consigo. Abriu os olhos. Lá estava ela: a criatura. Com labaredas dançando sobre a cabeça como se fossem cabelos ao vento. O torso encharcado como se tivesse acabado de sair do mar. João Marcos levantou-se. A criatura o acompanhava com o olhar fixo e interrogativo. Pé ante pé, caminhou até o armário, de onde tirou um guarda-chuva. Aproximou-se da fera com o utensílio empunhado como se fosse uma espada. Ela permanecia imóvel e com o mesmo olhar. João Marcos começou a dar-lhe pancadas na cabeça. Mais e mais pancadas, cada vez com mais força. Erguia e descia o cabo do guarda-chuva com toda força que possúia. Dava-lhe também estocadas para ver se furava-lhe o crânio. O sangue começou a espirrar para todos os lados. O monstro não esboçava reação. João Marcos batia, gritava e chorava. Débora continuava dormindo, como se nada acontecesse. O bicho bambeou, inclinou o corpo bizarro para um lado e tombou pro outro, morto. João desabou sobre os joelhos e derramou-se em prantos sobre a poça de sangue.

Desta madrugada em diante, não soubemos mais o paradeiro de nosso divertido amigo João Marcos. Desapareceu, por completo. A polícia chegou a investigar a esposa, mas arquivou o caso ao ver o estado mental em que a mulher ficou. Até hoje ela pode ser vista naquele mesmo ponto de ônibus, com uma grande placa pendurada nos ombros, no peculiar estilo utilizado por nove entre dez propagadores do fim. Ela grita: “Perguntem à criatura! Perguntar é a saída! Perguntem à criatura!”.

Sem Remetente

Carolina abaixou-se para pegar um papel que repousava no chão junto à porta. Era um aviso de chegada de correspondência endereçado a João, seu marido. Ele devia comparecer à unidade postal do bairro para receber a carta, encomenda ou o que fosse aquilo. Carolina varreu o aviso com os olhos minuciosamente, de ambos os lados, à busca do remetente da misteriosa correspondência. Nada! Apenas o carimbo do correio, a data limite para retirada e o endereço da unidade postal. Telefonou para o trabalho do marido:
- João, meu amor, tudo bem?
- Tudo bem. Aconteceu alguma coisa? – perguntou João.
- Não. É que chegou um aviso do correio dizendo que tem uma carta pra você, mas você tem que ir lá buscar.
- Mas porquê?
- Não sei. O aviso só diz isso.
- Quem foi que mandou a carta?
- Também não sei.
- Como assim tem uma coisa lá, que não sabemos o que é nem quem enviou?!
- Mas é exatamente isso, meu amor. Não é estranho?
- Sim, sim. Mas não se preocupe. Mais tarde, quando eu chegar do trabalho, nós resolveremos isso.

À noite, ao chegar em casa, sentado à mesa, lia e relia João aquele enigmático pedaço de papel. Vasculhava a mente em busca de uma possível origem daquela encomenda repentina. Lembrou-se até de um irmão de sua mãe, desaparecido há mais de trinta anos, tido por todos como morto. “Pode ser ele. Quem sabe? Vai que ele está rico em alguma ilha paradisíaca e agora envia-me um presente para mostrar sua boa vontade.”, elucubrava João. Cogitou também o perigo de uma carta anônima ao recordar um caso que tivera há anos atrás na empresa onde trabalhava. Fora seu único relacionamento extra-conjugal, terminado há tempos. Mas porque uma mulher, igualmente casada, com quem não se envolvia há anos, enviaria uma carta revelando tudo? Hipótese descartada. “Talvez seja Carolina que esteja me traindo. Vai saber”, pensou.

Carolina estava no fogão, finalizando os preparativos para o jantar, não deixando contudo de observar a inquietação de João às voltas com o papel. Ela também estava muito inquieta com todo aquele mistério. “Custava colocar o nome do remetente no aviso? Bastava uma linha para evitar este suplício”, revoltava-se. Temia por umas fotos um tanto ousadas que um ex-namorado excêntrico batera dela na flor da juventude, pouco antes de conhecer João, que nunca soubera disso. Alguém poderia tê-las achado e resolvido fazer uma brincadeira de mal gosto. “Eu não saberei onde enfiar a cara se isto acontecesse!”, desesperava-se.

- Mas como eu vou fazer para buscar essa carta? – perguntou João.
- Acho que terei de ir eu, já que o correio só funciona no horário em que você está trabalhando. – propôs Carolina, tentando disfarçar a ansiedade de ver logo sua proposta aceita. Caso fossem mesmo as fotos comprometedoras, poderia se livrar delas sem maiores problemas.
- Eu não acho que você possa receber por mim. Veja, o aviso está no meu nome. – respondeu ressabiado João, desconfiando de algum ardil da esposa.
- Então como você vai fazer?
- Eu não sei... Bom, o jeito é você ir lá e tentar. – entregou-se João, dando-se por vencido, para felicidade da esposa.

No dia seguinte, João contou o estranho caso a Marcelo, companheiro de trabalho há anos, que afirmou não conhecer esta modalidade de entrega do correio, que não informava ao destinatário do que se tratava a encomenda tampouco quem a enviou. Achou tudo isso muito estranho e perguntou-lhe se não tinha idéia de onde poderia ter vindo aquela carta. Ouvindo a negativa de João, sobressaltou-se Marcelo, por haver diversas vezes cortejado Carolina, sem que esta houvesse dado trela a suas iniciativas. Como era o fato de conhecimento de todos no setor, visto que a fofoca se espalha mais no vento que a poeira, temeu que uma carta anônima pudesse pôr fim àquela amizade de muitos anos, que nem sua cobiça desenfreada conseguira destruir.

Marcelo passou então a persuadir João a não ir buscar tal carta, dizendo que nunca ouvira falar de uma boa notícia que chegasse daquela forma, mas que somente as grandes desgraças exigem rufo de tambor e som de trombeta para se fazerem conhecidas. “Às vezes é melhor nem saber de certas coisas para se continuar a vida com paz e tranquilidade.”, dizia Marcelo. Vendo aquela mudança súbita de comportamente no amigo, ficou João desconfiado. Resolveu então fingir aceitar o conselho recebido e, para dar verossimilhança à sua encenação, pegou o telefone, fingiu discar para casa e ordenar a Carolina que não fosse ao correio buscar a tal carta. Marcelo sentiu-se muito aliviado e disse que o amigo havia tomado a melhor das decisões.

Tendo João se ausentado por alguns instantes, aproveitou o colega traidor para telefonar à esposa deste, para avisá-la do grande risco de que os havia livrado. Como João voltou rapidamente, Marcelo foi obrigado a desligar sem dar maiores explicações, deixando em grande interrogação os pensamentos da moça, que resolveu ligar para o marido, perguntando inocentemente porque não devia ela buscar a correspondência. João ligou os fatos e concluiu que havia uma misteriosa ligação entre Marcelo e sua esposa. Irado, ordenou que ela viesse até a empresa imediatamente. Quando esta chegou, ordenou, quase fora de si, que Marcelo os acompanhasse.

Estando os três no carro a caminho do correio, exigiu João, aos berros, que fosse despida a verdade sem demoras nem rodeios, antes de ser aberta a carta fatal, quando seria tarde demais.
- Anda, mulher! – gritava João – Fala logo!
- Eu não tenho motivos para ser acusada de nada, – retrucou Carolina – mas sim esse teu amigo da onça, que andou me cortejando, o que já é de conhecimento de todo o teu setor. Se não te contei, foi para poupar-te da dor da traição desse Judas!
- Isso é verdade, metecapto? – perguntou João, voltando-se para o ex-amigo.
- É verdade. – respondeu Marcelo - Senti-me capturado pela beleza da tua esposa e tentei conquistá-la, mas saiba que tua mulher é a mulher mais honrada que já conheci.
- Então conta-me – disse João - porque não durmiste durante toda a noite passada, mulher! Pensas que não vi quantas vezes levantaste durante a madrugada? Estavas muito aflita.
- Muito me envergonha o que te contarei, marido, ainda mais na presença deste verme que nos ouve. – esbravejou Carolina – Mas contarei a verdade por não suportar mais tanto medo de que seja ela descoberta. Sim, estava aflita e desesperada de que descobrisses que fui fotografada como vim ao mundo por um namorado excêntrico que tive antes de conhecer-te. Temo que esta carta sejam as malditas fotos.
- Mulher vadia! Fazia-te de santa comigo e até as lentes das câmeras conheciam tua nudez!
- Porque acusas tua mulher de desonesta – interrompeu Marcelo – se ela não traiu tua confiança em momento algum, já que nem te conhecia? Mas tu sim, traíste-lhe com a Sílvia, lembro-me muito bem. Agora queres posar de justo, seu grande hipócrita!
- É verdade. – reconheceu João, baixando a voz – não posso negar tal fato. E foi por achar que a carta se refiria a este caso que insone pude observar que Carolina também não dormia.
- Seu infeliz, – gritou Carolina às lagrimas – Como ousas me acusar sendo ainda mais culpado?

Chegaram ao correio com as faces afogueadas, como que carregando uma negra nuvem de tensão sobre as cabeças. João entregou o papel ao atendente, que entrou para buscar a correspondência. Neste ínterim, entreolhavam-se João, Carolina e Marcelo, num misto de ódio, culpa e remorso. Quem os observasse não distinguiria culpado de inocente. Voltou o atendente com um envelope branco na mão. Nenhum deles dava mais atenção ao conteúdo da carta, quando João a leu. Ela dizia:

“Caro eleitor,
em virtude das acusações de campanhas milionárias que receberam diversos candidatos, nosso partido decidiu que as correspondências que enviamos serão pagas por aqueles que as recebem. Sendo assim, viemos por meio desta pedir seu voto para o candidato J..., número X, que promete lutar pela educação, saúde e emprego para todos.

Atenciosamente,
Partido....”

A Janela

Anselmo subiu ao ônibus com seus habituais ombros protraídos e coluna arqueada, que tanto davam-lhe ares de vencido. Com aborrecido esforço projetou seu pesado corpo para dentro do carro. Seu semblante caído, fruto do cedo despertar, corroborava com esta negativa impressão. “Bom dia”, disse ao cobrador, entregando-lhe o dinheiro. O homem estendeu a mão mecanicamente pegando as cédulas, sem fazer caso do cumprimento recebido. O mundo apresentava-se hostil a Anselmo, que assim o sentia diariamente. Girou a roleta e caminhou coletivo adentro, que não estava lotado como de costume, tendo inclusive alguns lugares vagos às janelas, o que alegrou-lhe sobremaneira. Percebeu então num destes bancos um conhecido seu, Paulo, morador do mesmo bairro, com quem nunca tivera contato próximo, havendo trocado apenas rápidos cumprimentos.

Aquela visão causou-lhe grande desconforto, por sentir-se moralmente obrigado a trocar sua confortável posição na janela para sentar-se ao lado do conhecido, cumprindo assim sua função social. O homem percebeu-lhe a presença e fitou os olhos nos seus. Sorriu-lhe este com uma simpatia forçada, retomando imediatamente o agravo com que olhava pela janela, fazendo Anselmo sentir-se livre para sentar-se onde bem quisesse. Deu um passo vigoroso, já procurando com os olhos qual seria o melhor lugar para a viagem, quando notou a cabeça de Paulo voltar-se para ele, como que convidando-o a fazer-lhe companhia. Este movimento não passou de uma impressão, já que não estava Anselmo com olhos voltados para o homem. “É agora ou nunca”, pensou. Caso optasse por sentar-se ali, junto a Paulo, estaria fadado a ouvir-lhe potencias lamúrias, piadas sem graça ou desalinhos de interesse. Não que soubesse serem assim as conversas de Paulo, posto que nunca haviam travado diálogo, mas o risco existia, e isso era um fato.

Num ônibus como aquele, sempre abarrotado de pessoas além de sua capacidade, divide-se a sociedade em três castas bem distintas, a saber: os que sentam-se à janela, tendo todo o horizonte diante do nariz, os que sentam-se ao corredor, tendo o refrigério do assento, mas suportando também o incômodo dos passageiros de pé que, espremidos, roçam-lhes nos ombros, sendo estes, portanto, a derradeira e mais desprezível categoria. Acostumado a viajar na última, vislumbrava Anselmo a rara oportunidade de ingressar na primeira. Sentado à janela pode-se dormir repousando a cabeça no vidro, e não no ombro do passageiro ao lado, como fazem os da segunda casta; pode-se pigarrear chamando a atenção do vizinho para que este dê mais espaço; pode-se observar com a devida distância o aglomerado de indivíduos que se acotovelam em pé no corredor do veículo. Enfim, todas as regalias que uma casta superior pode obter da inferior. Anselmo era conhecedor deste apartheid velado que regia o transporte das massas suburbanas para os centros de produção e comércio.

Decidiu ignorar sumariamente a presença do conhecido e seguir a passos largos para o meio do veículo, onde sentou-se num confortável banco diante de uma grande e vistosa janela. Abriu o livro que trazia debaixo do braço e pôs-se a lê-lo. Intitulava-se “Aprenda Não-sei-o-quê em 24 horas”. Lia-o na tentativa de obter reconhecimento no trabalho e, quem sabe, uma promoção. “Onde já se viu!? Deixar de estudar pra ficar batendo papo. Quanto mais rápido eu terminar este livro, melhor.”, justificava-se a não sei quem. Seguiu-se a viagem e esqueceu Anselmo do ocorrido, entretendo-se com seu livro e posteriormente dormindo a bom dormir, de boca escancarada e soltando roncos altos e esporádicos, que mais pareciam rosnados.

Acordou sobressaltado por um burburinho que percorria todo o coletivo. Alguém parecia discursar com ímpeto, como o fazem os evangelistas nos trens. Estranhou, já que nunca vira coisa semelhante naquele ônibus. Os passageiros cochichavam entre si sobre o que dizia o homem, alguns lhe ameaçavam para que fizesse silêncio. Anselmo apurou os ouvidos para entender o que dizia o discursador. Milagrosamente, a platéia fez silêncio, como que enternecida por suas palavras. Dizia ele em alta voz:
- ... e eis que este mundo me cansou! Como pode a existência ser apenas isso? Não foi o que me prometeu a vida ao me convidar a nascer. Desde jovem, ansiava por algo que nunca encontrei, e agora decido morrer por ter perdido a fé de que o homem é capaz de partilhar um grão de areia que seja com seu próximo. Tudo perdi. Cumpriu-se o texto que diz: “Até o que não tem, ser-lhe-á tirado”. Nada mais me resta, muito menos fé na vida.

Reconheceu Anselmo a voz do orador, era Paulo, mas não conseguia vê-lo por causa do grande número de pessoas que os separava. De imediato, sentiu-se bem-aventurado por não haver sentado junto daquele homem transtornado, o que obrigaria-lhe a ouvir seus recém revelados desatinos. Mas escutando aquelas pesarosas palavras, começou a sentir uma queimação que subia-lhe do ventre. Um suor frio começou a escorrer de sua testa, acompanhado de arrepios aflitivos, frutos impertinentes da vergonha que sentia de si mesmo. Entendia que não era sobre ele que falava o orador, mas sentia-se enquadrado em suas acusações generalizadas.

De súbito, ouvi-se um estampido, seguido de agudos gritos femininos e brados de homens desesperados. Uma onda de terror eletrizou a todos, muitos romperam em prantos. A multidão impedia Anselmo de ver as roupas de vários passageiros banhadas no intenso rubro do sangue que jorrava e da massa encefálica espalhada em todas as direções, inclusive no teto. Paulo puxara uma arma da cintura e dera um tiro na própria têmpora direita, num gesto tão veloz e inesperado que muitos sequer entenderam o que havia acontecido.

O ônibus encostou. Anselmo abriu caminho entre a multidão para chegar ao corpo, mas desistiu no meio do caminho, vendo a poça de sangue que se expandia lentamente pelo chão do veículo. Sentiu sua pusilanimidade pesar-lhe as pernas como uma bola de ferro. Conseguiu ver a arma jogada entre os pés dos passageiros. Pensou em dar cabo da própria vida como fizera Paulo, mas não teve coragem. Perguntou-se no meio da aglomeração se alguém conhecia o morto. Anselmo ignorou o apelo, desceu do ônibus e seguiu em direção ao trabalho.

Do amor e outras coisas que se podem trocar - Epílogo

O sábado estava ensolarado, mas a temperatura era amena. Mário e Sandra combinaram de se encontrar bem cedo no mesmo ponto de ônibus em que tomavam o coletivo todos os dias. O destino era o Jardim Botânico, na Zona Sul da cidade. O convite soou exótico aos ouvidos de Sandra, que desde muito nova tinha como único lazer as praias e as boates e, talvez por isso, não conseguia imaginar nada de interessante para se fazer num lugar como aquele. Sem contar a distância que os separava do programa: dois coletivos, algo em torno de duas horas de viagem. Mas desenvolvera uma confiança na inventividade de Mário e sabia em seu íntimo que o passeio seria de alguma forma proveitoso. Ele, por sua vez, escolhera o lugar por dois motivos: queria um ambiente onde pudessem conversar por um longo tempo sem muitas pessoas ao redor para lhes tirar a privacidade; acreditava que todas as mulheres do mundo gostavam de flores. Mas não Sandra, que não tinha nenhuma lembrança terna para associar a elas e, além disso, era um tanto insensível à beleza em suas mais diversas formas. Não se encantava com crianças pequenas, cachorros brincalhões, pássaros graciosos e muito menos com as flores em sua beleza estática.

Após alguns minutos de caminhada pelas alamedas do jardim, Sandra já dava sinais de fastio, o que foi imediatamente percebido por Mário, atento às mínimas nuances no semblante de sua companheira. Vendo que nem o orquidário, com sua coleção de plantas raras e bem cuidadas, produzira efeito na fisionomia da moça, achou Mário por bem dar início aos diálogos que havia planejado de antemão. Avistou um banco de madeira debaixo de uma grande árvore que pareceu-lhe o lugar ideal. “Coitado! O pobrezinho está se esforçando. Mas isso lá é lugar para trazer uma mulher que se está querendo conquistar? Na certa achou que eu fosse uma dessas que derrete-se diante de um ramalhete de rosas murchas”, pensava Sandra, “Bom, pelo menos ele tem potencial”.

- Cá estamos. Que lugar bonito nós conseguimos. – disse Mário num suspiro – Sabe, é nesses momentos que eu tenho certeza que Deus existe. Olha só pra isso, que céu!

Sandra fitou-o de soslaio, franzindo o cenho, como se ouvisse algo completamente fora de ocasião.

- Conte-me algo sobre você – continuou Mário. – Sua infância por exemplo, como foi?

Sandra contou-lhe sobre sua infância aquilo que o leitor já conhece. Começou sua narrativa num tom amargo, seco, como alguém que preenche por obrigação as trinta linhas de uma redação escolar. Porém, pouco a pouco, enquanto vasculhava a memória à procura de detalhes e ia deparando-se com as doces lembranças da vida de criança, sua voz enterneceu-se. Os olhos brilhantes de Mário, que acompanhavam tudo com muito interesse, transmitiram tanto afeto que Sandra sentiu um calor aquecer-lhe o peito. Tinha medo daquele novo sentimento que despontava. “Nada apavora mais o homem do que aquilo que muda seus hábitos”, já dizia Dostoiévski.

- Agora eu já falei de mim. É a sua vez de ser investigado pela lente da verdade – disse Sandra com um franco sorriso de lado a lado do rosto.
- Bom, o que eu tenho a dizer? Joguei bola a infância inteira, matava aula, ouvia as broncas do meu pai...
- E sua mãe?
- Não me recordo muito bem dela, já que faleceu quando eu era bem pequeno.
- Puxa, deve ter sido uma infância difícil.
- Na verdade não. Foi mais fácil pra mim, que não tive contato com ela, do que pro meu pai, que sofre até hoje.
- Nossa! Como meu pai me fez falta. Acho que eu não teria sofrido metade do que sofri se ele estivesse vivo.

E Sandra se pôs a contar suas desilusões amorosas do princípio da adolescência, os rapazes que a ludibriaram, o encrudecimento de sua visão do amor e o desprezo que desde então nutrira pelos homens.

- Eu me pergunto como podem existir pessoas assim! – exclamou Mário indignado. – Veja só o que esses homens desperdiçam. Eles têm momentos com o corpo e jogam toda a imensidão da alma fora. É como comprar uma garrafa de refrigerante, divertir-se com a tampinha e jogar todo o restante na lixeira. Nenhum deles pôde experimentar um momento de descoberta como esse que estamos vivendo. É a total degradação do gênero humano!

Sandra, assustada, fitava Mário em seu transporte de fúria. Não compreendia a razão de tamanho arroubo. “Será que ele é gay?”, pensava, “Não, não. Ele não tem jeito de gay. Mas será que é tão difícil assimilar que os homens devem levar as mulheres para a cama?”. Mário entendia que sua grande missão com Sandra era transmitir-lhe a idéia de que cada pessoa é universalmente única e salvá-la deste ciclo humano de autodestruição.

- Mas conta-me sobre tua adolescência. – disse Sandra, tentando mudar de assunto.
- Passei-a toda nos campos de futebol. Diziam que eu tinha talento. Joguei no juvenil do Flamengo e cheguei a fazer peneira para os profissionais.
- E porque você não passou?
- Eu sei muito bem porquê. O roupeiro do clube era um velho conhecido do meu pai e apreciava muito meu futebol. Ele contou-me posteriormente que a peneira já estava combinada com alguns empresários para selecionar certos garotos. Coisa de peixe grande. Aí já viu...
- Por que você não tentou outras peneiras?! São tantos os jogadores dispensados várias vezes mas que viram profissionais depois.
- Eu sei disso, e todos me incentivaram a tentar novamente. Mas eu achei, e ainda acho, que não era pra eu ser jogador de futebol. Sabe lá em quem eu me transformaria vivendo naquele mundo de badalação e vaidade? Talvez nos anos quarenta, a era do futebol romântico, eu tivesse um grande nome. – disse Mário, suspirando. - Mas não me sinto nem um pouco ressentido. Ainda dou meus lençóis e canetas nas peladas de domingo e me sinto satisfeito.
- Se eu estivesse no seu lugar, teria dado a vida para ser um jogador. Só de não ter que pegar aquele ônibus lotado todas as manhãs já valeria a pena.
- Eu não trocaria este momento que estamos vivendo pelas maiores glórias do futebol. Ter uma alma sensível às belezas do mundo é um bem mais valioso que a fama e a fortuna. Você acha que eles dão o mesmo valor que você a um carro de luxo? Eles o dirigem com a mesma sensação de coisa comum com a qual você paga sua passagem no ônibus.

Sandra não só discordava, como também achava absurdas as idéias de Mário. Aceitava que uma pessoa rica discursasse sobre a inutilidade do dinheiro, da fama e da fortuna. Mas não admitia isso vindo dum porteiro suburbano órfão de mãe. “Deus colocou-o no mundo, jogou seu endereço fora, mas, ainda sim, aí está ele falando sobre alma, beleza e amor”, pensava Sandra. Apesar de não possuir nenhuma atração por suas idéias, sentia por ele uma admiração crescente. Este era o primeiro homem com quem se relacionava que possuía idéias e se orgulhava delas. Os demais, ou não as tinham, ou não se dignavam a compartilhá-las com ela, mero bibelô de suas fantasias. A ocorrência deste pensamento afligiu-a. Sentiu-se humilhada.

Mário, notando os novos contornos entristecidos na face de Sandra, decidiu animar a atmosfera com uma nova caminhada, mas dessa vez ao som do tocador de músicas, pivô inconsciente de tantos engendros do destino. Cada um ficou com um fone e Mário pôs a nona sinfonia de Dvorák para tocar. A proximidade física imposta pelo comprimento limitado dos fones de ouvido obrigou-os a caminhar ombro a ombro.

- Se importa? – perguntou Mário, enquanto pousava levemente sua mão no ombro de Sandra.
- Não. – respondeu Sandra, pensativa.

Sandra fitou Mário, enquanto este olhava para o céu suspirando, como que contemplando uma beleza invisível aos olhos dela. “Que sujeito simples, e doce”, ela pensou. Sentiu-se imensamente tranqüila, e começou a contemplar a sua volta. O céu explodia num azul fulgurante, contrastando com o verde vigoroso das copas das árvores. Observou um casal de pequenos pássaros que voavam entre seus galhos, numa brincadeira sem fim. O sol perfurava a folhagem das árvores, desenhando no ar uma chuva dourada, composta por inúmeros raios amarelos resplandecentes. Aquela música colossal, por ela tão adorada, parecia ter sido composta como trilha sonora para o passeio despretensioso daquelas alvas nuvens que desfilavam diante de seu olhar contemplativo. Tudo a sua volta parecia majestoso e envolto numa áurea gloriosa. Na pele de seu ombro, a mão larga de Mário repousada, transmitia carinho e proteção. O sentimento de humilhação deu lugar ao êxtase, seu coração pulsou com ardor e uma grande alegria apossou-se de sua alma. Uma lágrima cristalina escorreu do canto de seu olho esquerdo. Ela apressou-se em secá-la e sorrir abertamente para Mário, que interrogara-lhe com o olhar. “É o sorriso mais lindo que já vi”, pensou ele. E tratava-se deveras de um sorriso novo, que refletia um sentimento igualmente novo. O sorriso arteiro, insolente, deu lugar ao júbilo sincero de um ser inteiramente renovado pela constatação da existência da beleza e do amor.

Quando sentaram-se novamente no banco de madeira, Sandra, radiante, com um largo sorriso nos lábios e um brilho intenso no olhar, disparou:
- Acho que não vai ser difícil, custoso e nem um pouco demorado te amar. Esse aparelho está no papo! – e abraçou-lhe carinhosamente.

Mário não esperava essa manifestação de carinho repentina vinda de Sandra, que até momentos antes daquele mágico sorriso passara o dia com a expressão fechada e manifestando opiniões contrárias às suas, se não com palavras, com a contração reprovadora de sua sobrancelha esquerda. Agora, aquela mulher estonteante lançava-se vivamente em seus braços, como uma criança procurando colo. Diferente do êxito que lograra com outras mulheres, Mário não via em Sandra os sinais de fraqueza da rendição, mas uma espécie de êxtase oriundo de um acontecimento interior, como se ela houvesse descoberto algo por si mesma, independente das táticas por ele aplicadas. “Ela é original até na hora de se apaixonar”, pensou.

Sentaram-se novamente num banco e permaneceram abraçados. Sandra, que tinha a cabeça pousado no peito de Mário, levantou o rosto de forma lenta porém resoluta, olhou-o nos olhos com um brilho intenso e aproximou lentamente os lábios dos dele.

- Ei! Não esqueça que eu prometi não encostar um dedo em você – disse Mário, sem afastar-se um milímetro da adorável cútis dourada da moça.
- Para todos os efeitos, sou eu quem está quebrando o trato. – respondeu Sandra, beijando-o em seguida.

Sandra sentia seu coração palpitar como no primeiro beijo. Um forte tremor percorria todo seu corpo. Tentava, mas não conseguia compreender tamanho arroubo, uma vez que seu raciocínio estava entrecortado por irrompimentos de emoção incontroláveis que assemelhavam-se a explosões de fogos de artifício. Tão intenso era seu arrebatamento, que sequer pensava em Mário. Nem mesmo pensava, apenas deixava-se conduzir. Entrementes, Mário era arrastado pelos atributos de Sandra, sem condições de ensaiar resistência. A pele quente, os lábios macios e carnosos, acompanhados do doce som da respiração gemente da moça ateavam fogo a sua volúpia, que atingia níveis até então desconhecidos dele próprio. Não era um primeiro beijo clássico, romântico, gentil. Era carregado de uma espécie de violência velada, a explosão de um desejo reprimido somada ao êxtase inconsequente de uma alma há pouco realizada. Esqueceram-se de que estavam num parque público e ultrapassaram os limites da compostura com seus beijos acalorados. Algum tempo depois, seguiram para um motel, onde se entregaram completamente um ao outro.

Vários dias e encontros passaram-se, era sábado novamente e Sandra estava radiante. Havia feito uma descoberta surpreendente: estava amando Mário. Contava os segundos para contar-lhe a notícia. “O trato deu certo. Quem podia imaginar uma coisa dessas?”, admirava-se. Assim que Mário chegou ao local marcado para o encontro, Sandra correu até ele e enlaçou-o pelo pescoço.
- Tenho uma nova para te contar! – disse ela efusivamente.
- Nossa! Que animação toda é essa? – perguntou Mário, sorrindo junto com ela.
- Eu descobri que... finalmente... estou amando! – e abraçou-o e beijou-o repetidas vezes.
- Que coisa maravilhosa, minha querida!

Eles continuaram caminhando lado a lado, de mãos dadas, alegres como namorados colegiais. Mário sentia a inebriante paz do dever cumprido. Seu orgulho tentava convencer-lhe de que suas manobras engenhosas eram as responsáveis por aquela visível metamorfose emocional, mas bastava-lhe uma breve reflexão para lembrar do que concluíra dias antes no jardim: Sandra havia deliberadamente despojado os conceitos que levara uma vida para cunhar em nome de outros nos quais nem mesmo cria. “Foi como uma conversão”, ele pensou. Sandra, vendo efervescer em si sentimentos enterrados desde a adolescência, sentia-se segura. Era como se nada mais lhe faltasse no mundo. Agora que finalmente amava, não via razão para envergonhar-se diante das velhas senhoras de sua rua que condenavam-lhe o comportamento. O amor era sua redenção. Entretanto, lembrou-se de que uma coisa ainda lhe faltava: o prêmio da aposta. A gritante necessidade de outrora, que levou-lhe às atitudes mais desprezíveis, desaparecera por completo. Mas se isso era um direito seu, e era assim que ela compreendia, devia reivindicá-lo.

- Mário, meu amor, acho que agora mereço meu prêmio... – disse Sandra alegremente.

Mário deu um salto, como se ouvisse a última coisa do mundo que esperava sair dos lábios de Sandra.
- Como assim?! Então tudo não passou de uma simples aposta!? Quando lhe propus o trato estava certo de que, uma vez me amando de verdade, você esqueceria completamente a recompensa. Afinal de contas, a recompensa sou eu e o amor que sentimos! – disse ele indignado.
- Mas nós fizemos um trato, meu querido. Agora que eu te amo, é meu direito ter o tocador de músicas. – respondeu Sandra num tom conciliador.
- Mas como terei certeza desse amor? A única evidência que eu posso ter para validar seu sentimento é a abdicação do prêmio que lhe era tão importante em nome desse sentimento maior.
- Mário, ouça-me: eu te amo – disse ela pausadamente - . E justamente por isso, o aparelho agora me pertence. Foi o que combinamos. Não existe nada nesse mundo que possa provar a existência do meu amor por você. Amor não se prova.

Sandra fazia questão do aparelho por causa de sua natureza reivindicadora. Era do tipo de pessoa que faz questão do último centavo no troco de um sorvete. Mário sentia-se abalado com aquilo que julgava uma demonstração de mesquinharia. Desconfiava que o profundo sentimento demonstrado por Sandra não passava de um ardil para conseguir o aparelho. Tal desconfiança causava-lhe pontadas de intensa dor no peito, uma vez que já havia se afeiçoado imensamente à moça. Atribuir-lhe tal pequeneza d´alma era ver desaparecer para sempre a imagem de mulher única e original que via nela.

- Nada neste mundo existe sem evidências, - argumentava Mário professoralmente - nem mesmo as coisas invisíveis! Vemos o ar levantando as folhas que ficam pelo chão. Não podemos enxergar a energia elétrica, mas sentimos a força de seu choque ao tocar algo pelo qual ela percorre. Tudo que existe, ainda que intocável, precisa ser evidenciado por alguma manifestação externa. O amor não é diferente!
- Mas claro que é diferente! – retrucou Sandra vivamente - O amor é um sentimento, ele existe por si próprio e ainda que ninguém creia em sua existência ele continua lá da mesma forma e com a mesma força. Eu poderia abrir mão do seu aparelho por pura polidez e ainda assim não lhe amar. Será que não enxerga isso? Se o sentimento que você carrega no peito exige uma evidência, uma prova, é qualquer coisa menos amor.
- Sandra, eu sinto muito, mas não posso acreditar que me ame somente por suas palavras. Existem pessoas que tiram a própria vida por amor. Seria este sacrifício vão, uma vez que o amor não pode ser provado? Nesse momento, sou vítima de uma dúvida mortal, que não pode ser elucidada sem uma prova concreta de seu sentimento. Mas vou dar-lhe a grande chance de provar seu amor por mim. Escolha o tocador de músicas, ele será seu, mas nunca mais me verá. Escolha-me e eu te amarei para sempre, mas venderei o tocador de músicas para o primeiro que aparecer.

Sandra estava atônita. Não compreendia como as coisas haviam chegado a esse ponto. Olhava fixamente nos olhos de Mário para ver se estes explodiam numa gargalhada, revelando apenas uma brincadeira de mal gosto. Mas a face de Mário permanecia estática. Sandra estendeu a mão com a palma aberta. Mário hesitou por alguns instantes, mas vendo a atitude resoluta da moça, tirou o aparelho do bolso e depositou-o sobre sua mão. Ela virou-se e foi embora. Houve um silêncio sepulcral. Mário ficou imóvel assistindo aquela encantadora silhueta distanciar-se. Os pequenos detalhes de suas roupas foram desaparecendo pouco a pouco até que ela se tornou apenas uma pequena mancha escura no horizonte. Enfim, ela desapareceu. Depois disso, nunca mais voltou a vê-la.

Mário pergunta-se até hoje se Sandra realmente o amou; se tudo aquilo não passou de um ardil para alcançar um objetivo; se ele foi um tolo ao dar-lhe o aparelho. Questiona-se também quanto a sua própria atitude: Porque havia quebrado sua palavra, cedendo a seus instintos mais vorazes como nunca antes havia feito, ao levar a moça para a cama aproveitando-se de seu estado emocional fragilizado? Não teria então agido como os demais homens de alma rasa, alvos de suas críticas mais ácidas? Quem então havia quebrado o trato, quem havia dito a verdade?

Sandra nada se pergunta.

Do amor e outras coisas que se podem trocar - Parte 3

Sandra refletiu durante todo o trajeto do apartamento de Fernanda até a loja, mas nenhuma solução apresentava-se satisfatória. Concluiu que somente apelando para seu dom da sedução, do qual possuía absoluta consciência, conseguiria safar-se. Em qualquer outro cenário teria cogitado tal possibilidade como primeira alternativa, mas a vítima em questão não se tratava de um rapazinho bem criado da Zona Sul, carregando as vontades sobre a fronte como se fossem uma coroa. Era um suburbano batalhador como seu pai e, mais do que isso, o único homem de quem tinha lembrança de tê-la tratado com respeito. “Mas que mundo estranho! Passo a vida enganando os homens e por eles sendo enganada, e justamente quando encontro um que merece um pouco mais do que isso, sou obrigada a enganá-lo da mesma forma”, se desesperava. Sentia-se como que presa a este fatídico destino.

No dia seguinte, deu início aos engendros de sua estratégia. Acordou cedo e vestiu-se fitando atentamente o relógio para não se atrasar nem adiantar em relação ao horário do ônibus em que encontrara Mário da última vez. Escolheu a dedo a roupa que vestiria. Substituiu a saia curta e o decote agressivo por um vestido branco singelo, estampado com flores, que atribuía-lhe um ar meigo, mas ao mesmo tempo revelava suas formas curvilíneas. O tecido alvo ressaltava ainda mais o tom forte e reluzente da pele de Sandra, revelada principalmente em suas espáduas nuas e seu busto semi-descoberto. Soltou os cabelos, perfumou-se mais que o de costume e saiu.

Chegando ao ponto de ônibus, pouco esperou. O coletivo chegara exatamente de acordo com o previsto. Embarcou no veículo, entregou o dinheiro ao cobrador e de pescoço esticado procurava atentamente o rosto quadrado e viril de Mário. Lá estava ele, sentado num dos bancos e, com a cabeça reclinada sobre o encosto e com a testa encostada no vidro, olhava perdidamente através da janela. Sandra cumprimentou-o com um vivo sorriso que foi prontamente correspondido. Eis o que havia se passado com ele. Após despedir-se de Sandra há dois dias atrás, Mário ficou incomodado com a confiança gratuita e desmedida que sentiu naquela moça. Sequer a havia visto antes e já lhe confiava o aparelho mais caro que possuía. A propabilidade lógica de que ela desaparecesse por completo era muito grande. O valor do prejuízo financeiro não lhe importava, mas sim a atitude exageradamente ingênua que tomara. O que responderia ao Sr. Sílvio, homem prático e materialista, se este lhe perguntasse pelo aparelho? “Ora, Sr. Sílvio, emprestei-o para uma mulher que conheci no ônibus dia desses e ela surpreendentemente desapareceu. O senhor não acha estranho que ela tenha sumido com meu aparelho? Grande garoto! Muito espero!”, ridicularizava-se. O dia seguinte fora a confirmação de suas previsões mais pessimistas. Ela não estava lá como havia prometido. No momento em que Sandra cumprimentou-o, pensava ele justamente no grande tolo que havia sido, mas aquela aparição repentina, com ares de epifania, foi refrescante como uma ducha fria num cálido dia de verão carioca. Olhou para aquele belo corpo inclinando-se para sentar ao seu lado, a boca de lábios arteiros que sorria-lhe, as mãos delicadas que traziam seu caro aparelho intacto e pensou: “Uau! Eu sou mesmo um grande sortudo”.
- Pensou que eu fosse sumir, né? Desculpe pelo susto que eu lhe dei ontem. Acontece que passei muito mal e não fui trabalhar. – disse Sandra com um traquejo carregado de feminilidade e olhar fugidio, simulando timidez.
- O importante é que você está aqui. – respondeu Mário, que foi instantâneamente arrastado pelos próprios sentidos, todos cativos dos atributos de Sandra. Os olhos deliciavam-se com o decote comportado, porém insinuante; os ouvidos apreciavam a voz suave e melodiosa; as narinas dilatavam-se para captar mais daquele perfume que parecia encher o mundo; a pele do braço rejubilava-se com as frequentes encostadinhas no de Sandra, derivadas dos solavancos do coletivo, que revelavam uma cútis suave e macia; o paladar, este sim, o único dos sentidos a não fazer parte da festa, sedento, pressionava e coagia o resto do corpo para que o convidassem a participar, mergulhando-o no sabor desconhecido daquela boca húmida e quente.

Mário estava efetivamente interessado em Sandra, mas era um rapaz diferente do convencional. Enquanto a maioria rendia-se ao deleite dos sentidos, buscando a satisfação imediata de suas vontades, Mário acreditava no amor perfeito, ideal e utópico que conhecera nos livros de Goethé. Era o misto de romantismo alemão e lascívia brasileira, resultando num emblemático amálgama de elevadas expectativas morais e grandes cargas de desejo sexual. Este último, herança congênita da santíssima trindade carioca – samba, futebol e mulatas – na qual jazia alegremente. A alternância de duas influências tão dicotômicas processava-se naturalmente na mente de Mário e era para ele a forma correta de viver e se relacionar. Quando saía para as festas, pagodes e noitadadas acompanhando os amigos, enquanto estes se agarravam com várias moças na mesma noite numa disputa bestial por quem era o mais sedutor, Mário, por sua vez, costumava escolher tranquilamente entre todas as presentes aquela que seria alvo de sua inteira atenção. Às vezes tratava-se da mais atraente da festa, aquela a quem todos julgavam inatingível. Noutras ocasições, porém, escolhia a que fora preterida pelos demais homens, por enxergar beleza oculta nalgum detalhe que os outros não percebiam, como a meiguice de um olhar tímido ou o fulgor de um sorriso espontâneo. Fosse quem fosse, uma vez escolhida, tal moça seria cercada de delicadeza e reverência como nunca antes experimentara. Conversava sem pressa, olhando nos olhos, ouvindo atentamente, como quem gostaria de estender aquele papear noite adentro. E deveras gostaria. Mário encarava, a seu próprio modo, cada pessoa como uma única e original combinação das nuances da natureza humana, como um quadro que teve suas cores escolhidas individualmente por seu pintor e, assim como a unicidade absoluta da impressão digital, sabia ser impossível encontrar duas pessoas com características idênticas e, por isso, dedicava-se integralmente a alguém que acabava de conhecer, principalmente tratando-se de uma bela mulher. Deliciava-se ao descortinar o universo particular alheio e descobrir os detalhes imprevisíveis de uma personalidade desconhecida. Apesar de dar vazão à sua volúpia quando encontrava contrapartida em sua acompanhante, Mário abdicava do prazer ao deparar-se com uma moça fragilizada, recém-saída de um relacionamento fracassado ou sofrendo uma crise de auto-estima, ao contrário de seus amigos, que consideravam tal brecha uma oportunidade de ouro para seus intentos.

O papo no ônibus prosseguiu animadamente entre os dois, que demonstravam uma empatia mútua tão grande que por diversas vezes esqueceu o rapaz de seu desejo e a moça de seus ardis. Simplesmente conversavam, riam e se descobriam. Sandra achava-se inteiramente à vontade na companhia de Mário; sentia-se cobiçada, mas não por conta de seus trejeitos planejados e sim - coisa estranha! - por alguma aura inebriante que os cercava, tornando as palavras e movimentos de ambos aprazíveis. “Será isso o tal do amor?”, pensava maravilhada. Entrementes, Mário não cessava de pensar no quão sortudo era. Já havia conhecido mulheres tão ou mais belas que Sandra, mas nenhuma delas tão segura de si quanto esta, que gargalhava tão logo achasse graça, inclusive de seus próprios gracejos, e não impedia o rubor de lhe subir à face ao falar do pai. A alma de Sandra parecia revelar-se deliberadamente diante dele, sem que fosse necessário nenhum esforço de sua parte. Até dos mínimos movimentos de Sandra emanavam energia e resolução. “Aí está uma moça admirável. Bela e dona de si.”, pensava Mário. Sentiam-se mais do que atraídos, pareciam titubear entre querer o outro como amigo ou amante. Mas indepentende do que viria a acontecer, sentiam no íntimo que o destino havia entrelaçado suas vidas.

Sandra, ao ver que o ponto de desembarque aproximava-se, caiu em si, como quem desperta de um doce sonho, e sentiu virem à tona, de uma só vez, todas as angústias que lhe corroíam até o momento em que encontrou Mário. Recordou-se de suas dolorosas conclusões: nenhuma mentira seria convincente o bastante para explicar o desaparecimento do tocador de músicas; suas colegas de trabalho a reputariam como uma moça frívola que pede bens alheios emprestados para se promover; dona Fernanda a consideraria uma aproveitadora ardilosa, que não possui nenhum senso moral em sua busca desenfreada por ascenção. A tragéria estava armada. As feições de Sandra transformaram-se e Mário notou imediatamente:
- Está tudo bem? Você está com uma cara estranha.
- Não se preocupe. Nós estávamos aqui conversando e eu esqueci dos meus problemas. Mas eles fizeram questão de me lembrar que existem. Mas está tudo bem. – disse Sandra. O ar lhe faltava, sentia o peito comprimido e algo lhe travava a garganta.
- Então me conte que problema é esse. Talvez eu possa lhe ajudar em alguma coisa. A solução às vezes vem de onde menos se espera. – respondeu Mário. Sandra ouviu aquelas palavras como uma resposta divina. Era como se um poderoso raio de luz penetrasse as densas trevas de seu desespero. Fitou os olhos de Mário, sorriu e, já dona de si, disse:
- Você está certo. Já está na hora de eu descer e se você puder me acompanhar como fez naquele dia eu lhe conto tudo.
- Mas é claro. – concordou prontamente Mário. Ambos levantaram e após driblarem a massa de pessoas que lotava o coletivo, desembarcaram. - Pois então. Me conte o seu problema. – continuou.

Sandra contou pormenorizadamente o caso e expôs sinceramente seu desespero. Fez isso sem nenhuma deturpação dos fatos ou vitimização de sua pessoa, tamanha era a confiança que depositava em Mário, que ouvia tudo atentamente, franzindo a testa e olhando para o chão, como se fizesse complicados cálculos matemáticos para elucidar a questão.
- Uau! Em que furada você se meteu. Veja bem, eu lhe daria o aparelho sem pensar duas vezes, independente dele ser caro, moderno, chique ou seja lá o que for, mas ele foi motivo de discórdia entre o síndico e os moradores onde eu trabalho, quando eu o ganhei na festa do condomínio. Eles diziam que um simples porteiro não saberia usar um aparelho sofisticado como esse. Se alguém perceber que eu não o tenho mais comigo, pode dar uma grande confusão, e o próprio Sr. Sílvio me conzinharia vivo. – disse ele gesticulando.

Apesar de visualizar claramente todos estes conflitos, Mário estava prestes a encará-los para solucionar o drama de Sandra, não por simples altruísmo, mas por achar que aquela situação não se apresentava por coincidência, mas por algum desígnio, dada a sinergia que havia entre eles. Mas não teve tempo de aprofundar seus pensamentos.

Sandra ouviu tudo com olhos arregalados, compreendeu os motivos de Mário e concluiu que suas alternativas haviam se esgotado. Um vento de torpor invadiu sua alma, semelhante à indiferença que um condenado à morte sente pelos detalhes triviais que permeiam a vida daqueles que continuarão a possuí-la. Olhou-o com frieza e disparou:
- Você gostou de mim?
- Eu adorei você. Mas... – Mário foi interrompido.
- Você me quer?
- Como assim? O que você está... – novamente foi cortado pelo tom seco de Sandra.
- Podemos fazer um acordo. Eu durmo com você quantas vezes quiser e, em troca, o aparelho é meu.

Mário congelou. Simplesmente não acreditava no que ouvia. Aquela incrível mulher que há poucos instantes parecia-lhe a incrível combinação de tudo que ele mais admirava, rebaixava-se agora à faceta mais vil dos relacionamentos humanos, a prostituição. Estatelado, fitava o resto gélido de Sandra, tentando em vão encontrar o sorriso represado de uma brincadeira de mal gosto. Em vão, tentou argumentar:
- Sandra, o que é isso? Eu não acredito que você esteja falando sério.
- Ora, sem essa! Eu sei muito bem o que você quer. Todos os homens são iguais e, caso não saiba, as mulheres também. Tudo nessa vida gira em torno disso: interesses. Você quer meu corpo, eu quero seu tocador de músicas. O que tem de novo nisso?! É assim desde que o mundo é mundo. Só que temos o polido costume de mascarar as duras verdades com belas palavras. Amor, paixão, amizade... Tudo não passa de hipocrisia! Somos as velhas bestas-feras de sempre, com a mesma sede de sangue, rasgando a dentadas aqueles que baixam a guarda para nós. Mas parece que a chacina não é tão prazerosa se não vestirmos a pele de doce ovelhinha, o olhar supreso da vítima ao ser abocanhada faz parte do deleite. Do contrário, qual o motivo de minha proposta ter sido recebida com tamanho espanto? Eu sei! Você se pergunta: “Como uma simples mulher desbaratou a estratégia que nós homens utilizamos há séculos!”. Eu entendi como tudo funciona e só quero facilitar as coisas.

Sandra estava ofegante. Seus busto ondulava ao intenso movimento dos pulmões. Os olhos cintilavam semicerrados num misto de ódio e carência. Mário, num relance, fez um apanhado geral dos fatos e, recuperando-se do abalo inicial, recobrou o domínio sobre si.
- Tudo bem. O acordo está feito, desde que você concorde com o meu único ponto.
- Como assim? – disse Sandra estupefata, que não esperava uma reação tão rápida e segura da parte dele.
- Não quero que você durma comigo, quero que me ame. Se me amar de verdade, o aparelho será seu.
- Hein?! Como você vai saber que eu te amo de verdade, seu louco.
- Nós saberemos. É impossível não saber quando se ama alguém. Você quer ou não o aparelho?
- Tudo bem. – disse Sandra num saboroso sorriso de criança que topa uma travessura – Como vamos fazer?
- Nos encontraremos sempre que possível depois do trabalho, a começar por hoje, e nos fins de semana sairemos juntos por aí. Conversaremos bastante, nos conheceremos e, que fique bem claro, não lhe encostarei um dedo. Você abrirá seu coração e se esforçará para me amar de verdade e, quando isso acontecer, o aparelho será seu.
- Feito. Começa hoje então?
- Sim, eu passo aqui na loja para lhe buscar.
- Não! – redarguiu Sandra num estalo, com vergonha do porteiro vir buscar-lhe à porta da elegante loja onde trabalhava. – A patroa proíbe namorados, maridos, noivos e essas coisas no ambiente da loja. Sabe como é, alguns são muito ciumentos...
- Tudo bem. Eu espero você depois do horário. Conheço um barzinho muito animado perto daquele nosso ponto de ônibus.

Sandra, radiante, entrou na loja com o aparelho pendurado na cintura, aliviada como se toneladas fossem retiradas de suas costas. Estava empolgada com o que aquele rapaz imprevisível poderia aprontar dali para frente. De tudo quanto se lembrava ter feito para conseguir alguma coisa, amar era a única que não constava em sua lista.

Mário estava convencido de que poderia fazer Sandra amar do jeito que aprendera nos livros de Goethé. Tinha dentro de si o material combustível necessário para fazer este novo sentimento arder no peito de Sandra, mas tudo dependeria, acreditava ele, do quão aberta ela estaria para amá-lo.

Do amor e outras coisas que se podem trocar - Parte 2

Sandra bateu à porta da sala de dona Fernanda timidamente, pois nunca fizera tal coisa desde que fora contratada como vendedora da loja. Fez-se ouvir a voz gentil e polida da jovem senhora: - Pode entrar. Sandra abriu a porta, cumprimentou-a e tomou assento, sentindo o mesmo tremor de meses antes, quando sentara naquela cadeira para a entrevista de emprego. Agora, cara-a-cara com aquela figura que lhe inspirava temor e adoração, Sandra deu-se conta do quanto gostaria de ser como ela. Os cabelos lisos e hidratados, os dentes brancos, a pele rósea e brilhante, o rosto suavemente maquiado, o perfume inebriante que enchia o ambiente, as roupas estalando de novas, tudo naquela mulher parecia perfeito. Sandra, que numa eleição popular tinha grandes chances de ser eleita mais atraente que Fernanda, sentia-se encolhida sobre aquela cadeira como um religioso diante de seu deus.
- Mas deixa-me ver este tocador de música. – pediu animadamente Fernanda, recebendo da moça o aparelho nas mãos. – Uau! Que chique. Como é que usa esse negócio?
- É assim, olha... – E Sandra manuseou o aparelho mostrando-lhe como selecionar as músicas.
- Puxa, mas que legal. E eu andando com esse discman horroroso por aí. Coisa antiquada, minha nossa! Mas é que eu não sou muito antenada em tecnologia. Estou sempre a um passo atrás e preciso que alguém chegue, me dê um safanão e diga: Ei, sua atrasada, ninguém mais usa isso! – E riu, como se contasse uma anedota muito engraçada. Sandra acompanhou-a na gargalhada e realmente achou graça, não pelo que foi dito, mas por ver aquela adorada boca abrir-se revelando um mar de dentes brancos perfeitamente alinhados. Sandra pouco falava. Apesar de austera com relação aos horários, Fernanda resolveu relaxar do estafante dia de trabalho que vinha tendo e estendeu o papo em outra direção.
- Ai, como estou cansada. Tem dias que são um inferno! Parece que os fornecedores, cobradores e clientes combinam entre si para me atazanarem todos de uma vez. Quer saber? Estamos quase no fim do expediente, você tem algum compromisso? – Sandra fez que não com a cabeça. A pergunta soou-lhe aos ouvidos como tendo sido feita em polonês. Era simplesmente impossível cogitar que dona Fernanda, a própria, faria-lhe um convite. - Nós poderíamos ir a uma loja de eletrônicos aqui perto que vende esses tocadores de música. Eu vou comprar um como o seu. É isso! Eu mereço me presentear de vez em quando, ora bolas. E eu prefiro ir acompanhada de alguém que entenda do assunto. Depois nós tomamos um chope pra relaxar. Vai ser por minha conta, é o pagamento pela sua consultoria. – E deu boas risadas novamente, como se tivesse contado uma excelente piada.

Sandra sentia-se no céu. Estava saindo da loja antes do horário, na companhia da patroa, com o caro tocador de músicas a tiracolo e desfilando sob o olhar invejoso de todas as colegas. No caminho, Fernanda vasculhava as músicas disponíveis no aparelho.
- Dvorák?! Puxa, que gosto refinado, mocinha. É difícil encontrar jovens que gostem de música clássica hoje em dia.
- Meu falecido pai sempre ouvia Dvorák ao chegar do trabalho. Ele colocava o vinil na vitrola, sentava no sofá, me deitava em seu colo e assim ficávamos até a hora em que mamãe aprontava o jantar. Sempre que ouço, me lembro dele. – Sandra sentiu um pequeno sinal de embargo na voz e procurou se recompor para não pôr tudo a perder com um dramalhão inconveniente. Sacudiu o semblante e recomeçou: – Mas eu não gosto só de música clássica. Acho muito chata essa gente que torce o nariz para as músicas mais animadas. Eu ouço Dvorák com muito gosto, mas também adoro um bom pagode, um forró ou um funk. Se fizer a gente dançar, suar e extravasar, pouco me importa se é um ritmo “sofisticado” ou não. – Sandra surpreendeu-se com a própria franqueza. Ficou hesitante aguardando a reação de Fernanda. Aquele milésimo de segundo pareceu-lhe que teimava em passar. Será que havia ido longe demais? Afinal, pessoas refinadas como ela têm por hábito o acintoso rechaço aos ritmos populares.
- É isso mesmo! Eu também sou assim. Nas minhas festas sempre toca muita música animada. Tem gente que fica no canto fazendo bico, mas eu nem ligo. Eu pulo, danço e brinco muito. Eles querem que eu dance o que, a mazurca? Quando estou em casa lendo um livro, aí sim, coloco um clássico pra relaxar. Ler ao som do samba-enredo da Portela também não dá. – E riu com gosto uma gargalhada convidativa que foi prontamente seguida por Sandra.

Após Fernanda ter comprado seu tocador de músicas, foram elas a um elegante e bem frequentado bar com mesas espalhadas na calçada, cada uma protegida por um grande guarda-sol, de frente para a praia que ficava do outro lado da avenida. O sol exalava um calor aconchegante, o horizonte exibia a tonalidade avermelhada do início do crepúsculo e o vento passeava tranqüilamente pela orla, compondo assim um perfeito fim de tarde. A beleza de Sandra, explodindo saúde e jovialidade, somada à beleza madura e serena de Fernanda formavam uma combinação arrebatadora para os olhares masculinos ao redor. Até os homens que passeavam pela calçada de mãos dadas a suas mulheres não conseguiam evitar que seus olhos pousassem naquelas beldades e suas distintas perfeições. Fernanda, que já não se enxergava tão jovem e atraente como outrora, sentiu renovado seu coquetismo feminino e creditou intimiamente o sucesso a sua deslumbrante companheira de mesa.

Dois homens altos, elegantes e aparentando seus trinta e poucos anos apresentaram-se pedindo, com muita polidez e simpatia, permissão para tomarem assento, a qual foi-lhes concedida não sem um falso ar de fastio por parte delas. Ambos pareciam ter saído a pouco do trabalho. Trajavam ternos, estavam desvencilhados de seus paletós e com as gravatas afrouxadas. Deu-se início ao típico diálogo do cortejo, carregado de curiosidade e excitação. Sandra agora estava em terreno sólido. Sabia fazer-se desejada, atiçar o desejo masculino fazendo-se cheia de pudores. Fernanda, por sua vez, parecia ter voltado à adolescência. Sorria gratuitamente e fitava com fixação os olhos de seu par. Sentia-se extasiada, viva. “Nossa! Há quanto tempo não me sinto assim.”, pensava.

Dali seguiram para o espaçoso apartamento de Fernanda, que morava sozinha – divorciada e com a única filha estudando em Londres -, onde fizeram sexo por horas a fio. Findo o ato, após um banho e um breve momento de descanso, os homens despediram-se e foram embora. A habitual promessa da ligação no dia seguinte foi feita, mas recebida com indiferença por elas, que davam-se por satisfeitas e concluíram: “Acabamos de obter o melhor do que um homem pode dar. Quanto ao restante, já o conhecemos muito bem. Agora vocês podem sumir que pouco nos importa”. Este sentimento, que ainda não havia ganho a forma racional de uma idéia, tomou-as concomitantemente por razões bem distintas. Fernanda havia experimentado as frustrações do casamento com um homem indiferente e utilitarista. Sandra sofrera as desilusões da juventude nas mãos de rapazes voluptuosos. Mas longe de sentirem-se vítimas inocentes da guerra dos sexos, julgavam ter dado a volta por cima, eram as vitoriosas.

Deitaram-se na mesma cama, a despeito dos outros dois quartos mobiliados do apartamento, com a intimidade de duas irmãs que há muito partilham o mesmo espaço. Dormiram instantaneamente. Eram duas da manhã. Às oito, Sandra abriu os olhos e despertou maquinalmente preocupada com o horário do trabalho. As emoções do dia anterior pareciam-lhe um sonho distante, uma vaga, porém doce, ilusão noturna à deriva entre seus aturdidos pensamentos matutinos. Levantou-se e caminhou trôpega até a sala de estar, onde percebeu estar em trajes íntimos ao ver suas roupas jogadas pelo chão. A visão lhe trouxe um sorriso arteiro ao canto da boca, fazendo-lhe recordar as estripulias vividas na noite anterior.Vestiu-se, voltou para o quarto e sacudiu Fernanda, que relutante como uma criança forçada pela mãe a levantar-se para a escola gemia e recusava abrir os olhos. Após alguma insistência finalmente despertou, deu de cara com Sandra, perguntou-se porque uma funcionária de sua loja estava acordando-lhe em sua cama e levou alguns segundos até recapitular tudo que acontecera na noite anterior.
- Menina, que horas são?! – perguntou Fernanda, despertando completamente da sonolência num salto.
- São oito da manhã. Você precisa abrir a loja.
- É verdade. – Disse, sentando-se na beirada da cama e passando a mão pelos cabelos desgrenhados. – Mas veja o estado da sua roupa, está completamente amarrotada. Vá tomar um banho enquanto eu separo alguma coisa pra você vestir.

Meia hora depois deixaram o apartamento. Sandra trajava orgulhosamente uma calça jeans cujo valor ultrapassava o preço somado de todas as que já havia comprado. Enquanto caminhava em direção ao carro de Fernanda, pensava na sorte que havia tido ao encontrar aquele rapaz, cujo tocador de música fora responsável por, quem sabe, definir seu futuro. Já imaginava os inúmeros benefícios que aquela proximidade com Fernanda lhe traria. Quem sabe tornar-se a gerente da loja e ganhar um salário que sobrevivesse à avalanche de contas e prestações? Imaginava-se nas melhores boates da cidade na companhia de executivos, empresários, socialaites, artistas... “Eu posso até encontrar um homem rico que se apaixone por mim!”, devaneava com um respirar a plenos pulmões. Mas imediatamente um agudo sentimento de angústia dominou-lhe a alma ao lembrar de que devia devolver o tocador de músicas ao dono. Sentiu sua dignidade ferida ao recobrar que não havia cumprido sua promessa de devolvê-lo no dia seguinte e, coisa muito pior, ter cogitado a possibilidade de não mais entregá-lo ao dono. Esquecera-se até mesmo de que havia um dono. Mário parecia-lhe uma lembrança distante, como se o tivesse conhecido há muitos anos. Pouco lhe importava que as velhas senhoras de sua rua considerassem-na uma vadia, mas ficar com algo que não lhe pertencia era um crime que nunca tivera sobre os ombros. E sua fama, que já não era nada boa, tinha tudo para piorar ainda mais, já que ambos tinham amigos em comum e o abuso da boa-fé do rapaz se espalharia pelo bairro como fogo em palha seca. “Tudo bem. Devolvo o aparelho e digo para as meninas que era emprestado. Mas como, se eu passei o dia todo afirmando que ele era meu? Já sei! Posso dizer que fui roubada no ônibus, na volta pra casa. Sim, é isso. Ninguém vai desconfiar. Ah, mas aquela futriqueira da Carolina com certeza dirá pelas minhas costas que o aparelho não era meu. Sim, ela vai desconfiar dessa estória. Apareci com ele num dia e logo no outro digo que foi roubado. Ela certamente desconfiará. Mas pouco me importa o que aquelas víboras vão pensar a meu respeito, o que me preocupa mesmo é ela. Dona Fernanda pode achar que eu peguei isso emprestado com algum amigo visando aparecer para as outras meninas. Ela é uma pessoa instruída, que lê ouvindo música clássica. Vai me achar uma garotinha fútil. Ai, que horror!”, pensava ela, sentada no banco de couro do luxuoso carro de Fernanda, que cortava a avenida ladeada pela praia em alta velocidade, fazendo os cabelos de Sandra espalharem-se no ar pela força do vento. Quem visse aquela bela mulher, tão bem vestida e naquele carro importado, não imaginaria o quanto de desespero lhe dilacerava a alma. Não era capaz de imaginar como sairia de tudo aquilo sem passar por uma grande humilhação. Era sua via-crúcis.

Do amor e outras coisas que se podem trocar - Parte 1

A história que vou contar começou num ônibus que todas as manhãs sai lotado de trabalhadores sonolentos do subúrbio em direção à zona sul da cidade. A pontualidade e a constância dos encontros no veículo costumam fazer dos passageiros grandes amigos. É inevitável tecer comentários com o desconhecido ao lado sobre o calor que fez ontem, o resultado do último jogo da Seleção, a barbaridade do último crime dos traficantes etc. Depois de um tempo o ônibus se torna uma família. Os transeuntes que avistam o ônibus todo enfeitado com bolas fazendo seu itinerário habitual já sabem que se trata do aniversário do motorista. E não faltam refrigerante, salgadinho e bolo. É uma festa completa. As pessoas mais pobres têm essa marcante característica de relacionarem-se com extrema facilidade. Afinal, não existe o medo de que o outro esteja apenas interessado em suas posses ou de querer usufruir do seu prestígio social para galgar posições. Elas se relacionam pelo simples instinto gregário de sociedade. E é nesse cenário que nossa estória se desenrola. Mas primeiro vou apresentar-lhes nossos personagens: Sandra e Mário.

Sandra morava com a mãe num apartamento modesto. Teve a sorte de nascer atraente, característica sem a qual ela não poderia viver, como verão a seguir. Quando criança, com seus oito ou nove anos, enquanto sua beleza não havia desaflorado, sempre fora preterida pelos colegas de escola, que davam primazia às meninas de rosto mais delicado e pele clara. Todos tinham seus namoradinhos – aqueles namoricos nominais da infância –, menos ela. Sandra tinha uma cor mais escura, forte, numa tonalidade dourada. Meninos dessa idade não sabem detectar a beleza em todas as suas formas. Esta é uma habilidade que os homens demoram para adquirir. Mas Sandra cresceu e com a idade vieram juntos os seios rotundos e volumosos, o quadril corpulento e a cintura delgada, agora aliados da exuberante cor antes desprezada. Aos treze, era cobiçada por adolescentes, adultos e velhos por onde passava, mas a imagem que fazia de si ainda não computava os novos dotes e demorou algum tempo para se acostumar ao sucesso. Exatamente neste período surgiu um rapaz, que não merece ter seu nome citado nesta narrativa, que aproximou-se dela de forma romanticamente cruel. Quando um homem é sequestrado pelo desejo, afloram seus mais bestiais impulsos biológicos e em sua ótica banhada de volúpia tudo é válido. Com seus vinte e tantos anos, prometeu a ela, que ainda possuía o jeito meigo e doce de uma menina, o céu, o amor e a eternidade. Com lisonjas, fê-la construir um castelo de sonhos, que só os adolescentes, e mais propriamente as moças, têm coragem de se abrigar debaixo. O rapaz alcançou rapidamente seu objetivo, graças à ingenuidade da criança e à curiosidade da adolescente. Em diversas tardes, nas quais a menina saíra e voltara para casa no horário normal da aula trajando uniforme, iam eles a um motel barato praticar o ato natural pelo qual os homens morrem, matam e vendem suas almas, o sexo.

Após um mês de relações intensas, que dissiparam rápida e completamente a pudicícia da moça, o rapaz comunicou-lhe que o relacionamento não podia continuar. Para tal, usou de uma desculpa qualquer, cujo conteúdo é indiferente, já que neste exato momento vários homens espalhados pelo mundo estão empregando alguma mentira, tão vazia quanto as lisonjas conquistadoras, para se desfazerem do que já não é mais necessário. Tais homens são como pragas de gafanhotos, que arrasam plantações e seguem em frente a procura do próximo campo. Sandra, assim como os campos de arroz e os trigais, sentiu-se devastada. Chorando copiosamente, indagava: “Porque ele me abandonou? Eu o amava tanto! Será que ele tem idéia do quanto me faz sofrer? Ontem mesmo, com a cabeça deitada sobre meu peito, dizia que me amava, e agora simplesmente me expulsa de sua vida”.

A adulação masculina continuou, mas a experiência traumática lhe fez rejeitar um, dois, três bajuladores, mas no quarto sentiu suas esperanças reacesas. Os então quinze anos ainda lhe faziam acreditar que após o revés viria a sorte. Não veio. A história se repetiu: elogios, carinho, romantismo, sexo, desculpas, chôro, solidão. Houve trauma, mas dessa vez menor que antes. O ciclo se repetiu outras vezes, cada vez com menos chôro, até que aos dezenove já havia perdido a conta de quantos homens possuíra na cama. Passou a encarar as relações humanas como uma balança de interesses, uma forma de extrair o máximo possível do outro com o mínimo custo pessoal. Foi então que Sandra, sem intenção, inverteu o jogo. Relacionava-se de forma tão desprendida que deixava muitos homens interessados num compromisso duradouro. Homens são criaturas risíveis. Ofereça-lhes a prisão e lutarão pela liberdade, dê-lhes liberdade e implorarão pelo cárcere. Ao olhar para trás e ver seus devoradores tombados de paixão, resolveu aproveitar-se deles, como antes haviam feito com ela própria. Passou a escolher os parceiros de acordo com as posses - coisa comum em nossa sociedade, mas que nunca havia passado pela mente até então idealista de Sandra –, fazer tipo de moça ingênua e retardar o sexo até o momento em que seus objetivos fossem atingidos e, às vezes, nem assim. Ela se tornou cruel para com os homens, uma prostituta casual que usava o sexo como a peça mais importante de seu tabuleiro. Mas oculta em algum recanto de sua alma, jazia a menina doce e sonhadora que fora soterrada aos treze, ainda esperando por um salvador. Sandra tratava de sufocá-la.

Mário, por sua vez, era um rapaz notável, aquele tipo no qual as vizinhas mandam seus filhos pequenos se inspirarem. Centrado, simpático, trabalhador, responsável e ajuizado, mas não desse tipo de carola distribuidor de sermões. Era o exímio meia-armador do time do bairro. Sua habilidade fazia com que fosse respeitado por todos. Ficara de fora do futebol profissional por um desses infortúnios do destino, muito comum no Brasil, que deixa milhares de craques ao léu. Mas ele não era frustrado, pelo contrário, vivia num estado de graça por cada momento de alegria que recebia dos céus, fosse no pagode de sábado, na pelada de domingo ou no churrasco de fim de ano dos amigos.

Era porteiro de um prédio em Copacabana, cargo normalmente ocupado por imigrantes nordestinos de meia idade. Alguns moradores franziram a sombrancelha ao ver o garoto de vinte e três anos responsável por sua segurança. Mas num curto espaço de tempo todos confiavam em sua perspicácia e vitalidade. Tratava respeitosamente os mais velhos, fazia-se de desentendido aos gracejos das senhoras assanhadas e era imensamente querido pelos jovens. Não era ambicioso, estava feliz com o que havia conseguido e não sentiria um pingo de tristeza se envelhecesse recebendo aqueles quinhetos reais mensais. O que importava era distribuir canetas e lençóis na pelada dominical e, durante a semana, ler seus livros de Schiller e Goethé, que ganhara de um morador. É interessante comentar que, apesar de suburbano, pobre e iletrado, Mário era fascinado pelo Sturm und Drang, movimento literário alemão liderado pelos autores supracitados. Lera O Sofrimento do Jovem Werther quatro vezes e asseverava temerariamente: “É o maior livro já escrito!”.

Como já devem imaginar, o destino dos dois se cruzou no ônibus. Sandra trabalhava há um mês numa loja de roupas em Copacabana como vendedora - cargo que sua beleza se encarregou de conquistar – e, como ambos moravam no mesmo bairro, tomavam o mesmo ônibus. Isto já acontecia há duas semana sem que tivessem se visto, mas as leis da probabilidade tomaram seu lugar e puseram ambos sentados lado a lado. Mário ouvia seu tocador de MP3, ganho na festa de fim de ano do condomínio num sorteio entre os moradores e funcionários. O rapaz nem sabia que se tratava de um dispositivo eletrônico capaz de armazenar quinze mil músicas de uma só vez, e fora receber o objeto de desejo de todos os jovens presentes com naturalidade, como se fosse um uma lembrancinha de aniversário. Alguns moradores chegaram a argumentar que o sorteio deveria ser refeito, pois o porteiro não saberia usar um equipamento sofisticado como aquele, mas o arguto Sr. Sílvio, engenheiro aposentado e síndico do prédio, redarguiu que todos havim tido iguais chances de serem sorteados, e já que aprouvera à sorte sorrir para Mário, que assim deveria ser. O próprio Sr. Sílvio encarregou-se, na manhã seguinte, de instruir pacientemente o rapaz a manusear o aparelho e encheu a memória do tocador com milhares de músicas que possuía em seu micro. Canções de variados estilos, de gosto um tanto sofisticado para o porteiro, apreciador de ritmos populares. De qualquer forma, apesar das músicas disponíveis não desfrutarem de seu inteiro prestígio, tornara-se agradável passar a desgastante viagem de ida e volta do trabalho ouvindo Nancy Wilson, BB King, Yes, The Smiths e os clássicos Beethoven, Tchaikovsky e Dvorak, este último tocando no momento em que nos situamos na narrativa.

Talvez estejam se perguntando porque detalhei tanto a história do tocador de músicas de Mário. O fato é que eles eram uma febre entre os mais abastados. Os analistas de tecnologia se perguntavam porque o aparelho vendia tanto, apesar do alto preço. O equipamento, febre tamém nos Estados Unidos, era o queridinho dos jovens de classe média e alta no Brasil. Sandra, convivendo no ambiente pretensamente aristocrático da Zona Sul, estava ciente disso, e ao reparar o aparelho nas mãos de Mário teve sua atenção atraída. Imaginou como seria bom desfilar com um daqueles perante as demais vendedoras da loja, sentir-se igual aos clientes que entravam e saíam dali com seus aparelhos e desfrutar também do sabor da posse. Fitou Mário, feições simples, rosto aquadradado por um queixo anguloso, pele parda, olhos grandes e vivos, cabelo batido. Sandra achou-lhe viril, atraente. Seu jeito desprendido de balançar a cabeça ao som do fone de ouvido denotava descontração e segurança. Os sutis soquinhos ritmados no banco da frente enunciavam suingue e habilidade, a mesma demostrada nos campos de futebol. Seu olhar perdido no trânsito cinzento com piscadas espaçadas era típicos de sonhadores. Sandra, sentada a seu lado, observava tudo isso como uma estrategista militar. Desinibida, disparou:
- Com licença, esse é o que armazena quinze mil músicas? – indagou apontando para o aparelho.
- É sim. – respondeu educadamente Mário, tirando o fone do ouvido direito.
- É muito legal. Eu estou pensando em comprar um. Posso dar uma olhada? – E o rapaz passou o aparelho para as mãos da moça.
- Uau. Ele é lindo! O que você está ouvindo?
- Dvorak. – Pronunciou em bom português, ignorando a pronúncia correta do nome do compositor tcheco.
- Sério?! Não é possível. – Supreendeu-se Sandra assumindo um ar passional. - Eu amo Dvorak. Pensei que ninguém mais no mundo ouvisse isso.
- Para ser sincero, eu nem gosto muito de música clássica. Prefiro um bom pagode. Mas estou começando a ouvir um pouco disso e até que estou gostando.
- Eu também não gosto de qualquer música clássica, só de Dvorak. Me lembra muito meu falecido pai.

Mário assumiu um ar solene e ofereceu os fones de ouvido para que Sandra os ouvisse. Ela aceitou-os. Para deixá-la mais a vontade com suas lembranças, virou-se para a janela observando as faixas da pista que sucediam-se lentamente umas as outras e o trânsito engarrafado da hora do rush. Após alguns minutos, fitou-a de soslaio e notou uma lágrima cristalina que escorria das pálpebras fechadas e rolava pela tez dourada da moça, refletindo os raios de sol da manhã. Não ousou interromper aquele momento sagrado. Apesar do ar quase religioso que adotara, não pôde conter seus olhos, que passearam por alguns instantes pelo corpo de Sandra observando sua beleza, coisa que até então não havia percebido em sua totalidade. Interrompeu-se com ímpeto, quase beliscando o próprio braço, considerando-se monstruoso por desejá-la num momento puro como aquele. Alguns minutos mais se passaram e Sandra enxugou discretamente os olhos com a mão, tirou os fones de ouvido e devolveu-os a Mário, que perguntou:
- Você está bem?
- Oh, sim. Não se preocupe. São apenas boas lembranças. Mas me diga seu nome.
- Mário e o seu?
- Sandra. Você trabalha com o que?
- No ramo de segurança privada e você?
- Consultoria de moda.

O colóquio prosseguiu animadamente, com a habitual curiosidade e excitação de pessoas que se descobrem a cada frase. Por morarem no mesmo bairro, tinham amigos em comum, haviam estudado na mesma escola e se lembravam de eventos locais, como os carnavais na praça do bairro. Concluíram que ainda não se conheciam por caprichos do acaso. O ponto de desembarque de Sandra se aproximou. Como este ficava apenas um ponto antes do prédio onde Mário trabalhava, este ofereceu-se para descer e acompanhá-la até a entrada da loja, o que Sandra prontamente aceitou, apesar de tentar se mostrar reticente. Eles caminharam lentamente para que o pequeno trajeto se estendesse o máximo possível. Sandra estava admirava de como Mário conversava naturalmente, como se ela fosse uma amiga, e sem aqueles olhos semi-cerrados de maníaco fitando seu decote, como faziam todos os outros. Ele a tratava como uma pessoa, e não como um simples meio de se obter prazer em que as idéias são um luxo dispensável. Mário, por sua vez, notara no ônibus as duas fascinantes esferas douradas de grande volume que saltavam da blusa de Sandra, mas procurava a todo custo fitar os olhos da moça, para não causar-lhe desconforto. Ao chegar nas imediações da loja, Mário começou a se despedir dizendo:
- Eu gostei de você, sabia? Foi uma ótima companhia.
- Ah, que isso? Você é que foi super legal. Nem me conhecia e me deixou ouvir seu tocador de música.
- Eu nem sei usar isso aqui direito. Sabe de uma coisa? – Mário pôs a mão paralela à boca, como quem conta um segredo. - Eu sou apenas porteiro de um prédio. Ganhei isso aqui na festa do condomínio. Dvorak? Nunca nem tinha ouvido falar e pra ser sincero nem gosto muito, mas o patrão encheu o bicho dessas músicas.
- Já que você confessou, eu também preciso desfazer uma mentirinha. Não sou consultora de moda coisa nenhuma. Sou apenas uma vendedora nessa loja. Mas de Dvorak eu gosto mesmo. Me traz uma sensação maravilhosa. É como se eu sentisse meu pai aqui do meu lado. Até me arrepio, olha...
- Uummm. Já que é assim, quer ficar com o aparelho até amanhã? A gente deve pegar o ônibus de novo no mesmo horário e você me devolve. Assim você fica com bastante tempo pra curtir as músicas. Que tal?
- Sério!? Que fofo você é. Eu iria adorar. E pode confiar que amanhã eu te devolvo, tá? Posso ter todos os defeitos do mundo, mas sempre devolvi tudo que peguei emprestado. Isso pra mim é questão de honra.
- Então toma ele. Aqui está o fone de ouvido e a capinha pra prender ele na cintura. Agora deixa eu ir que já estou atrasado. Amanhã a gente se vê.
- Eu também preciso ir.

Beijaram-se no rosto e cada um seguiu para seu lado. Sandra estava radiante. Nunca tinha visto um daqueles tão de perto. Parecia uma criança que toca pela primeira vez num caríssimo brinquedo que só viu na vitrine. Como já estava quase na frente da loja, não teve muito tempo para apreciar o belo aparelho, que tinha na parte de trás uma superfície metálica espelhada e na frente um grande visor de cristal líquido colorido. Pendurou-o na cintura, pôs os fones nos ouvidos e entrou triunfante na loja. As demais vendedoras, que estavam acertando os últimos preparativos costumeiros antes da abertura da loja ao público, ao verem o tocador pendurado na cintura de Sandra, formaram uma roda a sua volta.
- Nossa! Que chique! – Disse Marta com sua voz alta e estridente.
- Olha só! Poderosa! Tá cheia da nota, hein? – Disse Carolina, gesticulando como sempre.
- Menina, isso é muito caro. Como você conseguiu? Só quem eu vejo usando isso são as patricinhas que compram aqui. Acho que nem a dona Fernanda tem um desses, quer ver? Dona Fernanda, dá um pulinho aqui por favor...
Após alguns instante apareceu a proprietária da loja, dona Fernanda. Uma bela e jovial mulher na casa dos trinta e poucos, que de “dona” não tinha nada, pois ainda arrancava alguns assobios quando passeava pelas ruas de Copacabana. As moças a puseram a par do assunto. Ela pegou o aparelho entre as mãos, analisou e disse:
- Meus parabéns. Até eu queria um desses e achei muito caro. Depois vai ali na minha sala e me mostra como funciona pra eu ver se vale à pena comprar, tá bom?
- Claro, dona Fernanda. – Disse Sandra desajeitadamente, já que nunca havia trocado uma palavra com dona Fernanda além de ordens recebidas.

Sandra não teve tempo de dizer que o aparelho não era seu e, no fundo, nem queria. Ser o centro das atenções, sentir-se invejada e receber um convite para ir à sala de dona Fernanda eram emoções novas, das quais não se consegue abrir mão num lapso de segundo. Durante aquele momento, nem chegou a se perguntar o que faria no dia seguinte, que explicação daria, quando chegasse sem o aparelho.