O Hall das Vidas Passantes

Acho que foi no segundo ano. A gente voltava da escola junto todo santo dia. E se tinha isso de todo dia ser santo, era só por causa dela. A gente conversava sobre um monte de coisas e o legal da Marcela era não ser do tipo que só fala de coisas de garota, como garotos, roupas, sapatos, garotos. E tinha um par de pernas... E conversava sobre tudo, tudo. Quer dizer, menos sobre aquelas coisas, é claro. Mas até de futebol a gente falava. Juro.

Não sei o que ela fazia naquela escola. O pai dela nem trabalhava, o desgraçado. Tinha uma pá de táxis rodando pra ele. Dizem que ganhava uma baba. E devia ganhar mesmo. O prédio deles era o mais chique do bairro. Chique de subúrbio, saca? É engraçado isso: qualquer um que mora em prédio com porteiro no subúrbio acha que é bacana.

Mas o prédio dela era bacana mesmo. Eu a deixava lá todo santo dia e seguia uns 300 metros rua acima até entrar num corredorzinho de cimento rachado que dava numa espécie de vila. Eu morava no número 8. Era a única casa com um número de verdade, daqueles números de ferro, não sei,  imitando dourado, que meu pai fez questão de comprar pra não ter de fazer como os vizinhos, que rabiscavam o número da casa na parede com lápis de cera, assim, de qualquer jeito. Eu sentia que meu pai tinha orgulho disso, sabe, daquela coisa do número e tal.

Aí teve um dia que choveu pra burro. Uma daquelas pancada que caem assim, de repente. Ninguém tinha levado guarda-chuva pra escola e Marcela tinha feito o cabelo por causa do aniversário da prima. E, olha, ela ficou incrível! Os cabelos ficaram lisos e faziam umas voltinhas quando chegavam nas pontas. E o pior: o tal do cabelo novo ressaltou os lábios dela. Uau! Ela ficou com uma boca do tamanho do mundo e eu queria pular lá dentro e só sair pra morrer.

Só que ela estava pirando com a ideia de estragar o cabelo, então eu peguei meu livro de matemática e fiz uma cabaninha pra ela.

- Como é que tu vai estudar depois, seu doido?
- A gente vê um jeito de você me pagar. - e dei aquela piscada de malandro.

Ela estava morrendo de frio e os peitinhos começaram a ficar eriçados. Aquela boca enorme, as voltinhas no cabelo e as duas bolinhas apontando por debaixo da blusa me deixaram maluco. Bendito seja o cara que fez as blusas de colégio brancas!

Chegamos e ela me convidou pra entrar um pouco e esperar a chuva passar. Ficamos no hall. Era uma entradinha social, mas ela enchia a boca pra dizer “hall”. Meu livro de matemática estava em frangalhos, as páginas se desfaziam na minha mão. Mas o cabelo dela estava intacto. Perfeito, incrível e intacto.

O bom desse tipo de temporal é que faz todo mundo desaparecer de uma vez só. E parece que as ruas respiram aliviadas sem aquele bando de gente inútil perambulando pra lá e pra cá, cheio de pressa, buzinando, se esbarrando e se xingando. Tudo o que existe é o barulhinho da chuva batendo no chão, o cheio de terra e mais nada.

E foi aí que a gente se olhou. Daquele jeito, sabe? Tava na cara que a gente ia se beijar. Mas a gente se conhecia há um tempão, eu era louco por ela e achei que era meu dever dizer algo bacana naquele momento. Eu não era como os retardados do colégio que não sabiam dizer um troço bonito nem no velório da mãe.

Eu já sabia até o que ia dizer. Tava guardado na manga há um tempão, só esperando por aquele momento. Eu ia dizer assim: “Você já parou pra pensar em quanta gente passa pela nossa vida e depois desaparece pra sempre? É que a vida dá  meia-dúzia de chances pra gente segurar quem realmente vale a pena. E se a gente não segura bem forte uma pessoa, a vida leva ela embora achando que a gente não dá a mínima pra ela. E eu não quero que isso aconteça com você. Não quero que a vida leve você embora. Não quero que você passe. Quero que você fique. Pra sempre”.

Mas eu não falei nada disso. Fiquei lá, paradão, olhando pra ela com cara de imbecil. O discurso estava todinho na minha cabeça, mas as palavras giravam e giravam, como se estivessem num liquidificador. Eu tentava colocá-las em ordem, mas as desgraçadas fugiam, se escondiam e se embolavam cada vez mais. Aí, bem nessa hora, a chuva parou de propósito!

- Já dá pra você ir. – ela disparou, sem pena.
- Tá.... Tá...
- Vou pedir pro meu pai comprar outro livro pra você.
- Não... Não...
- Você disse pra eu pagar, pra dar um jeito.
- Não... não... – Merda! As palavras não saíam.

Então ela virou as costas e foi embora. Pude ver a blusa branca encharcada, as costas magras, as ondinhas do cabelo executando uma dança cruel de despedida e as meinhas soquetes perdidas dentro do enorme par de tênis esportivo.

E depois daquele dia, tudo mudou entre a gente. Não era mais aquela coisa, sabe? Eu olhava pra ela o tempo todo, tentando achar aquele olhar. Aquele, sabe? Mas era como se tivessem levantado um muro invisível entre a gente. Aí ela arrumou umas amigas novas, umas garotas normais, dessas que não falam sobre tudo, mas só de roupas, sapatos, garotos.

Aí, num belo dia, eu estava voltando da padaria de bermuda e chinelo, carregando um saco plástico com pão e mortadela, como fazia todas as tardes. Sempre que eu passava pelo prédio da Marcela, eu olhava pro “hall”, na esperança de pegá-la chegando ou saindo. Sempre que isso acontecia, a gente acabava batendo papo por horas e horas e era uma delícia. E dessa vez ela realmente estava no hall, só que atracada com um marmanjo que devia ter, sei lá, uns dez anos a mais que a gente.

Eu congelei. Eu, meu chinelo de dedo e meu pão com mortadela. Foi ridículo. A cara que eu fiz deve ter sido tão ridícula que acabou chamando a atenção dos dois, que pararam de se beijar e me olharam. Aí eu levantei a mão e acenei, todo abobalhado.

- Oi. Fala. – ela disse, com a paciência com que se atende um testemunha-de-jeová. Aquilo me pegou de surpresa. Tudo aquilo. Muito de surpresa.
- Eu queria saber - e aí eu gaguejei - se você - e aí eu gaguejei de novo - falou com seu pai sobre o livro de matemática. É que minha mãe reclamou pra burro... – Eu sei, eu sei. Era a última coisa que eu devia dizer. Mas foi a única coisa que apareceu na minha cabeça.
- Tá, vou falar com ele.

Ela nem esperou eu ir embora; tascou um beijão no marmanjo comigo ali, em pé, do outro lado da grade, de bermuda e chinelo.

Daí em diante a gente mal se viu. Ela passou a sentar do outro lado da sala, perto das novas amigas. Ela ficava invisível no recreio e sumia na saída. E nem adiantava procurar. Só voltei a esbarrar com ela algumas semanas depois, lá na rua. Eu estava voltando da padaria com pão e mortadela. Ela estava andando abraçada com o marmanjo. Na verdade, o cara era dez vezes mais alto e ela tava enfiada debaixo da asa dele, feito um pinto na asa da galinha. Fiquei meio sem saber o que fazer, mas resolvi que dessa vez daria uma de machão. Olhei bem fixo na cara deles e cumprimentei. Ela só levantou as sobrancelhas. Cara, aquilo me arrasou. Seria melhor se ela tivesse virado o rosto ou passado direto. Eu levanto a sobrancelha daquele jeito pra cumprimentar as amigas da minha mãe, que eu mal conheço. Levanto a sobrancelha pra fugir do “Tá grande!”, “Tá bonito!”, “Tá um homão!”. Era o fim. No fundo, eu sabia que tinha perdido a grande chance que a vida me deu pra não deixar a Marcela passar. Mas eu não agarrei. Deixei passar. Isso doeu um bocado.

Aí, alguns dias depois, eu ouvi a voz dela me gritando. Ela veio correndo com um embrulho na mão. Tá, nem tem graça eu fazer suspense. Claro que era o livro de matemática. Marcela estava super simpática e me abraçou e começou a me agradecer. Eu não entendi nada. Aí ela explicou que tinha esquecido que eu era o grande responsável por toda a felicidade dela. Eu e o livro de matemática. Afinal, foi graças a mim que ela chegou na festa da prima com o cabelo intacto e conheceu o marmanjo com asa de galinha.

Eu quis pegá-la pela nuca, tascar-lhe um baita beijo no meio da boca e dizer que aquele babaca jamais se importaria com ela tanto quanto eu. Mas fui simpático e frouxo. Desejei felicidades, agradeci pelo livro e parti. Cheguei em casa e fui direto para o banheiro, com livro, pão, mortadela e tudo. Levantei a tampa da privada, abri o embrulho e comecei a rasgar as páginas do livro e jogar dentro da privada. Fiquei olhando aquelas fórmulas, parábolas e conjuntos boiando na água do vaso até desaparecerem para sempre. Foi uma espécie de ritual, sabe? Eu precisava me livrar daquilo. Mas o vaso acabou entupindo e levei um baita esporro do meu pai e ele me fez pagar o conserto em suaves prestações, descontadas da minha mesada, que já era ridícula de pequena.

E depois desse dia, eu nunca mais vi Marcela. Deve ter se mudado, saído do subúrbio. Acho até que estou esquecendo de como é o rosto dela. Só consigo me lembrar de umas imagens assim, meio borradas. Mas aquele discurso todo sobre a vida, sobre segurar as pessoas, de não deixar elas passarem, coisa e tal, está bem decoradinho. Intensifiquei os treinamentos. Recito palavra por palavra na frente do espelho sem gaguejar nem nada. Ah, mas eu não dou outro mole desses. Não dou mesmo.

3 comentários:

fjunior disse...

o duro da vida de guri é que leva um tempo até a gente se dá conta de que, mulheres não se preocupam tanto assim com o que você tem pra dizer, mas sim, com o que você tem para lhe oferecer, é aquela velha máxima, mulher gosta de atitude e de fato é verdade... belo texto... =P

Kenny Santa Cruz disse...

Êta, Rafa... eu tb já conheci umas Marcelas, sabe? (Claro que sabe... hehehe... quem não as conheceu?!?)
Acho que em toda a minha vida só tive coragem de fazer esse discurso 2 vezes, mas perdi a conta de quantas oportunidades perdi.
Enfim, a gata qe ta me levando ao altar em algum tempinho não correu o risco de esperar que eu dissesse nada: foi ela quem me tascou o beijo!

Bendito atrevimento!!!

:D

Anônimo disse...

parece até que vc conheceu minha vida ahuahuhauh