10 Novembro 2007

O Hall das Vidas Passantes

A gente estudava na mesma turma do segundo ano. Ia e voltava da escola junto todo dia, no mesmo ônibus. A gente conversava sobre um monte de coisas e o legal da Marcela é que ela não é do tipo de garota que só fala de coisa de garota, tipo garotos, sandálias e garotos. E tinha umas pernas... E falava de tudo, tudo. Quer dizer, menos daqueles assuntos. Mas até de futebol a gente falava. Juro.

Não sei o que ela fazia naquela escola. O pai dela nem trabalhava, o desgraçado. Tinha uma pá de táxis rodando pra ele. Dizem que ganhava uma baba, e devia ganhar mesmo. O prédio deles era o mais chique do bairro. Chique de subúrbio, sabe? Isso é engraçado. Qualquer um que mora em prédio com porteiro no subúrbio acha que é bacana. Mas o prédio dela era bacana mesmo. Eu deixava ela lá todo dia e seguia mais uns 300 metros rua acima até entrar num corredorzinho de cimento rachado que dava numa espécie de vila. Eu morava no número 8. Era a única casa com número de verdade. Era um daqueles números de ferro dourados, que meu pai fez questão de comprar pra não ter que fazer como os vizinhos, que davam um jeito de rabiscar o número da casa na parede com lápis de cera. Eu sentia que meu pai tinha orgulho disso.

Teve um dia que choveu pra burro. Foi uma tromba d’água daquelas que caem assim de uma hora pra outra. Ninguém tinha levado guarda-chuva e a Marcela tinha feito o cabelo naquele dia, porque era aniversário de uma prima à noite. Como ela tava linda! Os cabelos faziam umas voltinhas na ponta, iam e voltavam, desenhando vários Cs. E o pior de tudo era que o cabelo novo tinha ressaltado os lábios dela. Nossa! Ela tava com dois lábios do tamanho do mundo e eu queria pular dentro deles, me perder ali pra sempre e só sair pra morrer. Mas ela tava desesperada com o troço do cabelo e aí eu peguei meu livro de matemática e fiz de cabaninha pro cabelo dela.

- Tá maluco, garoto!? Como é que você vai estudar depois? – ela perguntou.
- Como se eu fizesse isso, né? Depois você me paga com cola. – eu falei. Ela riu.

Ela tava morrendo de frio e os seios dela ficaram eriçados. Aquela boca enorme, as voltinhas no cabelo e as duas bolinhas apontando por debaixo da blusa me deixaram louco. Bendito o homem que fez as camisas de colégio brancas! Chegamos ao prédio e ela me convidou pra entrar um pouco e escapar da chuva. Ficamos no hall. Era uma entradinha social, mas ela enchia a boca pra dizer “hall”. Meu livro de matemática estava em frangalhos. As páginas se desfaziam na minha mão. Mas o cabelo dela estava intacto. Lindo e intacto.

O bom desse tipo de temporal é que faz o mundo todo sumir. Parece que a rua respira aliviada sem aquele monte de gente inútil perambulando pra lá e pra cá. Tudo que resta é o barulho da chuva, mais nada. Foi aí que a gente se olhou. Daquele jeito, sabe? Tava na cara que a gente ia se beijar. Mas a gente estudava junto há um tempão e eu achei que era meu dever dizer alguma coisa legal naquele momento. Eu não era igual aos retardados do colégio que não sabiam dizer um troço bonito nem no velório da mãe. Eu já sabia até o que ia dizer. Tava guardado na manga há um tempão pra caso uma situação dessas acontecesse. Eu ia dizer assim: “Você já parou pra pensar quanta gente passa pela nossa vida e depois a gente nunca mais vê? Isso é porque a vida dá algumas chances pra gente segurar quem a gente acha que vale à pena. Se a gente não segura uma pessoa, a vida leva embora achando que a gente não dá a mínima. E eu não quero que isso aconteça com você. Não quero que você passe. Quero que você fique”. Mas eu não disse nada. Fiquei travado olhando pra ela. As palavras ficaram girando na minha mente numa ordem aleatória e incompreensível. Eu tentava ordená-las, mas elas se embolavam cada vez mais. E a maldita da chuva parou. Desgraçada!

- Olha, a chuva diminuiu. Acho que já dá pra você ir. É melhor eu subir porque daqui a pouco minha mãe vai começar a ficar preocupada. – ela disparou, impiedosa, como uma sentença.
- Tá.... tá.... tá bom. – disse, me atropelando.
- Vou pedir pro meu pai pagar um livro novo pra você.
- Que livro?
- Esse! – e com sua mão, levantou a minha, que ainda carregava os destroços do que um dia foi um livro de matemática.
- Ah! Não... não... não... – Maldição! As palavras simplesmente não saíam.

Ela virou as costas e foi embora. Pude ver a camisa de malha encharcada colada em suas costas magras, as ondinhas de seu cabelo realizando uma cruel dança de despedida e as meinhas soquetes perdidas dentro do enorme e sofisticado par de tênis esportivo.

Depois daquele dia, tudo mudou entre a gente. Não era mais aquela coisa, sabe? Eu olhava pra ela o tempo todo, tentando achar aquele olhar, mas era como se alguma coisa estivesse impedindo, um véu de fumaça, que não me deixava chegar até ela de verdade. Depois ela arrumou umas companhias femininas, umas garotas normais, daquelas que não falam sobre tudo, mas só de sandálias e garotos. Era o fim. No fundo, eu sabia que tinha perdido a chance que a vida tinha me dado pra não deixar a Marcela passar. E isso doía um bocado. Mas a vida, a minha, tinha que seguir de algum jeito.

Num belo dia, eu estava voltando da padaria, de bermuda velha e chinelo de dedo, carregando um saco plástico com pão e mortadela, como fazia todas as tardes. Sempre que eu passava pelo prédio da Marcela, olhava lá pro “hall”, na esperança de pegar ela chegando ou saindo. Já aconteceu umas duas vezes. Em cinco anos. E ela tava lá... se atracando com um marmanjo. Eu parei. Na verdade, estatelei. Eu, meus chinelos e meu pão com mortadela. Foi ridículo. Minha figura tragicômica acabou atraindo a atenção dos dois, que pararam de se beijar e olharam pra mim. Eu levantei a mão, num aceno abobalhado.

- Oi, Anselmo. Você quer falar comigo? – perguntou Marcela, num misto de simpatia forçada e raiva contida.
- Eu queria saber se você falou com seu pai sobre o livro de matemática. É que minha mãe reclamou pra burro... – Ridículo! Mas foi a única coisa que me veio à cabeça.
- Tá, vou falar com ele. Amanhã a gente se vê na escola. – concluiu taxativa.

Nem esperou eu ir embora. Na verdade, parecia apressada em voltar a beijar o malandro para que eu visse. Não esbarrei com ela nos dias que se seguiram. Quer dizer, a vi durante a aula, mas só. Ela conseguia ficar invisível nos intervalos e na saída. Não adiantava procurar.

Voltei a encontrar com ela numa tarde, lá na rua. Eu estava voltando pra casa levando pão com mortadela. Ela estava andando abraçada com o malandro lá. Na verdade, o cara era muito mais alto que nós dois e ela tava enfiada debaixo da asa dele, igual um pinto debaixo da galinha. Fiquei meio sem saber o que fazer, mas dessa vez resolvi dar uma de durão. Olhei bem fixo pra eles. Ela me cumprimentou com um ligeiro levantar de sobrancelhas. Cara, aquilo me arrasou. Seria melhor se ela tivesse virado o rosto e passado direto. Eu levanto a sobrancelha daquele jeito pra cumprimentar as amigas da minha mãe, que eu só reconheço acidentalmente depois de ser fitado por elas durante vários segundos. Levanto a sobrancelha pra escapar dos “Tá grande!”, “Tá bonito!”, “Tá um homão!”. Marcela tinha passado. Ou melhor, Anselmo tinha passado para Marcela.

Alguns dias depois, ouvi a voz dela gritando meu nome na rua. Ela tava com um embrulho na mão. Tava na cara que era o livro de matemática. Estava surpreendentemente simpática e me agradeceu dizendo que tinha esquecido que eu era o responsável pela felicidade dela. Afinal, graças a mim ela chegou na festa daquele dia com o cabelo intacto e conheceu o malandrão com asa de galinha. Eu devia pegá-la pela nuca, tascar-lhe um beijo na boca e dizer que aquele babaca nunca ia ligar pra ela tanto quanto eu. Mas fui simático como todo bom frouxo. Desejei felicidades, agradeci o livro e parti. Cheguei em casa e fui direto para o banheiro, com livro, pão, mortadela e tudo. Levantei a tampa da privada, abri o embrulho e comecei a rasgar página por página do livro dentro da privada. Fiquei olhando aquelas fórmulas boiando sobre a água do vaso até serem consumidas por ela e desaparecerem para sempre. Era um ritual de exorcismo. O vaso acabou entupindo com tanto papel e levei um baita esporro do meu pai. Ele me fez pagar o conserto em suaves prestações que ele descontava da minha mesada, que já era ridícula de pequena.

Depois desse dia, nunca mais vi Marcela. Talvez até tenha visto, mas não percebido. Acho que estou até esquecendo o rosto dela. Mas agora aquele discurso sobre a vida, de não deixar passar as pessoas e tal, tá bem decoradinho. Intensifiquei os treinamentos. Consigo recitar palavra por palavra sem gaguejar diante do espelho. Não dou outro mole desses nem morto.

3 comentários:

F. S. Júnior disse...

o duro da vida de guri é que leva um tempo até a gente se dá conta de que, mulheres não se preocupam tanto assim com o que você tem pra dizer, mas sim, com o que você tem para lhe oferecer, é aquela velha máxima, mulher gosta de atitude e de fato é verdade... belo texto... =P

Kenny Santa Cruz disse...

Êta, Rafa... eu tb já conheci umas Marcelas, sabe? (Claro que sabe... hehehe... quem não as conheceu?!?)
Acho que em toda a minha vida só tive coragem de fazer esse discurso 2 vezes, mas perdi a conta de quantas oportunidades perdi.
Enfim, a gata qe ta me levando ao altar em algum tempinho não correu o risco de esperar que eu dissesse nada: foi ela quem me tascou o beijo!

Bendito atrevimento!!!

:D

moreiraum disse...

parece até que vc conheceu minha vida ahuahuhauh