Blim-Blom! Joana e o marido escritor chegaram. O cara era magro, frágil e pálido como um bule de porcelana. Tinha olhos verdes, azuis, não sei, eram de uma cor tão fraca. Aliás, tudo nele parecia sem cor. Sobre o quê aquela merda de homem escrevia? Talvez o problema nem fosse ele e sim o fato de estar ao lado de Joana, a fabulosa, a mitológica, a devoradora, a avalanche de madeixas negras encaracoladas, o arsenal de dentes perolados, os grandes olhos cor da noite, os peitos que amamentariam metade da África faminta. Era bonita de dar medo.
Mal sentamos à mesa para jantar e o escritor começou a tossir feito tuberculoso e uma série de placas avermelhadas emergiram em seu rosto cor de vela. Marcela, minha mulher, havia comprado dezenas de livros pelos sebos da cidade para preencher os espaços vazios da estante. Não queria parecer inculta diante da visita célebre. Mas o nobre escritor devia estar acostumado aos grandes gabinetes reais de leitura e não sabia da existência dos livros de segunda, terceira, vigésima mão. Para ele, os livros iam direto pro céu depois de lidos, enquanto minha sala havia se tornado um medonho cemitério de digitais de leitores. O suor, a gordura e as células epiteliais de cada um deles estavam ali, testemunhas eternas de seu (des)interesse pela literatura.
Fomos para a copa. A mesa era bem menor e não couberam as baixelas e travessas novas. Ficaram só os pratos novos. Tudo comprado para impressioná-los. O escritor se recuperava aos poucos de seu fricote, enquanto Marcela não parava de importunar Joana com perguntas sobre a viagem dos dois para Barcelona, Lion, Berlim, Praga. Mas o que eu mais temia ainda estava por vir.
- Puxa, - começou Marcela - achei muito interessante a forma como você reescreve os clássicos num sistema pós-moderno de signos da contemporaneidade.
Ela tinha lido isso no Google. O escritor, que até então havia se mantido calado na maior parte do tempo, conteve a muito custo um sorriso de satisfação, sentindo-se no dever de iniciar um extenso monólogo sobre este monstro disforme e infronteiriço chamado literatura. Sua voz era baixa, monótona e constante. Parecia mais um zunido. Falou à respeito dos círculos acadêmicos, da crítica, do mercado editorial, das feiras literárias, do Pulitzer, do Nobel, do Saramago, do Dan Brown. Será que os livros que ele escrevia eram esse pé-no-saco? E se não eram, porque não desembestava a falar sobre algum puta assunto, um tema realmente do cacete, digno de alguém pagar quarenta pilas num calhamaço de papel e passar o tempo livre debruçado sobre ele na tentativa de enxergar alguma merda de sentido nesse mundo? Escritores não passam de fraudes de si mesmos.
Os olhinhos de Marcela cintilavam em transe. Nem ouvia, apenas admirava aquela figura de um mundo que julgava inacessível. Ela ansiava por questionamentos colossais e verdades elevadas. Ela queria uma VIDA, mas eu não tinha uma pra dar. Já o escritor era um Prometeu trazendo fogo sagrado aos homens, um profeta anunciando a mensagem que ela não podia compreender e que, portanto, lhe parecia sublimada, inaudita, sagrada.
Levantei dizendo que ia ao banheiro. Fiquei um tempo lá jogando água na cara, tentando juntar fôlego para engolir mais uma dose indigesta daquele charlatanismo. Joana apareceu na porta do banheiro.
- Quando o Tales começa a falar de literatura não pára mais. - disse ela.
- Tem quem goste.
- Tua mulher está tão fascinada que nem me viu sair de lá.
- Quer usar o banheiro?
- Quero usar você.
Levantei-a pela bunda e a pus sentada na pia de mármore. Ela estava de vestido e só foi preciso tirar-lhe a calcinha. Penetrei-a com vigor. Minhas mãos se transformaram em garras e onde quer que pousassem apertavam forte e deixavam roxos e vermelhões e arrancavam gemidos baixinhos de Joana, que puxava os pelos da minha barba e apertava minha nuca tentando se equilibrar na pia.
- Forte! Forte! - ela dizia entre os dentes.
E a violência me possuiu e meti com força e fodi a literatura, fodi as verdades, os sentidos, os círculos acadêmicos, o Saramago, o Google e a cara chupada daquele toco de cera filhadaputa! Gozamos.
- O que você tá fazendo com esse merda? - perguntei, extenuado.
- O mesmo que você com essa imbecil. - respondeu, esfregando a cabeça no meu peito que nem gata.
Nos refizemos sem pressa. Ainda podíamos ouvir o zunido monótono da voz de Tales vindo da copa. Ele podia falar sobre aquilo até um cometa rasgar a Terra ao meio se ninguém o interrompesse. Voltamos para a copa juntos, sem nenhuma tentativa de disfarce. Por lá, ninguém nos deu bola.
- Vamos, amor. Tá tarde. - disse Joana.
- Como o tempo passou rápido. - respondeu Tales.
- Nem fala. - comentei.
Foram embora. Marcela estava esfuziante, fascinada, em pleno êxtase. Sentia-se finalmente participante de algo não-trivial.
- Amor, - ela disse. - precisamos viajar, ler, expandir nossos horizontes!
- Claro, amor. Vamos sim. - respondi, com embargo na voz.
Despertei durante a madrugada e não vi Marcela na cama. Eram quase quatro da manhã e a luz da sala estava acesa. Fui até lá e encontrei Marcela esparramada no sofá, roncando com um exemplar encardido de Os Irmãos Karamazov aberto sobre o peito. Guardei o livro na estante - estava na terceira página -, peguei-a no colo e levei-a de volta pra cama.
P. César
-
Odeio escrotice.
Quando comecei a sonhar é que te tirei da minha vida.
Tu não faz parte do sonho.
19 horas atrás
8 comentários:
Irônico e cru. Gostei do texto.
caraca!
o cara n perdeu tempo! haha
Opa!
Vim te seguido desde o Overmundo!
Muito bom esse lugar aqui!
Tá linkao já!
abraço!@
Heheheh... e o Google continua formando "pensadores inteligentes"!! Adorei a sua linha narrativa. Tinha que ser mesmo geminiano!! Boa semana, Rafael.
ALBERGUE MENTAL
http://caioalbergue.blogspot.com
mas booooooooh
muito foda!
forte! forte!
devagarinho tbm é bom ... varia-se.
ai. tive um orgasmo lendo isso.
...
meus faróis nao estavam acessos, tava de sutiã !
hahha
acesos.
e aí. nunca mais posta nessa vida?????????
sr. rafael!
e eu pensando que meu blog estava desatualizado... =p
olha, lendo contos assim (que não deixam de expressar certa [ou total, quem sabe]) realidade é que eu penso o quanto é diversa (e pode ser bizarra) a idéia de prazer. o livro do dostoievski, embora largado na terceira página, deve ter tido o mesmo efeito para marcela que o encontro dos dois no banheiro. rs. te falando a verdade: não gostei muito da descrição desse encontro, hum, meio animalesco (rs) dos dois. me fez lembrar alguns livros do sidney sheldon, nem sei se vc já leu algo dele, mas tinha umas coisas assim que depois de uns três livros lidos eu me cansei, me fez não gostar. de qualquer modo, não deixa de ser uma boa descrição. aliás, é uma virada total no texto, haha. tava lendo aqui, com sono, literatura, diálogo, pow, legal... e eis que tudo muda radicalmente, rs. gostei do conto. mesmo. aliás, não se ache não, mas seus contos são muito bons.
adeus.
bjim.
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