Eu não via Marcelo há anos. Nossa! Como ele estava diferente. Mais magro, bem vestido, totalmente livre das espinhas e daquele aparelho horroroso nos dentes.
- Não acredito! – eu disse.
- Alice... – ele meio que sussurrou e abriu um baita sorriso. Um sorriso delicioso.
- O que você tá fazendo aqui?
- Eu estudo aqui.
- Há quanto tempo?!
- Uns quinze minutos.
Marcelo... Havíamos estudado juntos no segundo grau. Ele foi forçado pelos pais a cursar engenharia, enquanto eu fui estudar letras.
- E o que houve com a engenharia? – perguntei.
- Era ela ou minha sanidade.
- E no que você veio se matricular?
- Letras.
- Doido! E teu pai?
- Tá pirando, coitado. Disse que eu tô sendo infantil ao trocar uma carreira por um hobby.
- Não esperaria menos dele.
- Só não precisava me tomar o carro.
O pai do Marcelo era engenheiro. O avô do Marcelo era engenheiro. Não tenho certeza, mas o bisavô também devia ser.
- Vamos tomar um chope depois da aula?
- Tô cheia de trabalhos pra fazer.
- Ah, larga de ser Caxias! Um chope não tira pedaço.
- Hoje não. Outro dia, quem sabe.
Eu estava doida para pular no pescoço dele, mas resolvi segurar a onda. Éramos mais velhos, mais maduros e bem-resolvidos. Bastava deixar as coisas seguirem seu curso natural e a velha paixão adolescente reassumir seu posto.
Estávamos em turmas diferentes, eu no quinto período e ele no primeiro, mas todo intervalo entre as aulas a gente aproveitava pra conversar. O papo entre a gente simplesmente fluía, era automático. Sempre foi assim.
- Viu o filme que passou ontem? – ele perguntou.
- Detesto Antonioni.
- Sua herege!
- Vai me dizer que você entende?
- Não é pra entender, é pra sentir.
- Sua bicha!
Ele riu. Ele sempre ria.
- Hoje sai nosso chopinho? – perguntou Marcelo.
- Sabe que não tô nem bebendo mais? Dei uma parada boa mesmo.
- Entendi.
Acho que errei a mão.
Algum tempo depois ele me apresentou uma colega de turma chamada Roberta. Bonita, a desgraçada!
- Roberta, Alice. Alice, Roberta. – disse Marcelo.
- E aí, Roberta? Gostando do curso? – perguntei.
- Não imaginava que fosse tão pesado. Como sempre gostei de ler, pensei que seria mais fácil.
- E o que você costuma ler?
- Ah, de tudo! Barbara Delinsky, Norah Roberts, Danielle Steel...
Fiquei me segurando pra não rir. Não dava! Marcelo e eu passamos o segundo grau inteiro debruçados sobre Faulkner, Blake, Hemingway, Proust etc. Simplesmente detestávamos os top 10 de livraria. Marcelo percebeu minha dificuldade e tratou de chamar a atenção da garota.
- Você já leu aquele “Desvendando o Código da Vinci”?
- Ainda não. É bom? – disse Roberta.
- Ouvi dizer que é ótimo!
Aí não teve jeito. Caí na gargalhada. Roberta estava prontinha pra fechar o tempo, mas Marcelo abriu malandramente o zíper da calça enquanto eu ria. Quando ele olhou pra baixo e fechou o zíper fingindo estar sem graça, a menina achou que era dele que eu ria e estampou um sorrisinho sem graça.
Roberta começou a nos acompanhar nos intervalos das aulas. Tinha um rostinho arredondado, nariz fino, corpinho pequeno e tudo, tudo muito bem distribuído. Marcelo estava começando a ficar encantado. O jeito como ele sorria pra ela era o jeito que sorria pra mim há dois anos. Às vezes eu descia voando até o pátio para tentar pegá-los ainda por perto, mas eles já estavam caminhando, distantes, entretidos em altos papos. Não demorou pra ele me dar a notícia.
- Tô saindo com a Roberta. – ele disse.
- Legal.
- Tudo bem pra você?
- Porque não estaria?
- Só perguntando...
- Vai fundo. Ela é linda.
- Nunca tive uma mulher tão bonita.
- Muito gentil de sua parte.
- Não banque a imatura! Falo assim, abertamente, porque me sinto à vontade com você.
- Foi só uma piada.
Acho que fui promovida àquele tipo de amiga sapatão com quem um homem pode comentar à vontade sobre a gostosura das outras mulheres.
- Esse tipo de beleza mexe com o baixo ventre. – ele disse – Faz a gente lembrar que é carne.
- Será que ela topa um ménage à trois?
- Você bem que devia arrumar um gatão de academia.
- E ler O Código da Vinci ilustrado na caminha pra ele dormir?
- Você não presta!
- Nunca disse que prestava.
Flauta encantada uma ova! Com uma única bunda bem redondinha você arrasta todos os homens desse mundo até o inferno.
Um dos professores passou um trabalho sobre Faulkner na turma deles. Eu sabia mais sobre Faulkner que qualquer professor daquela faculdade e Marcelo sabia disso muito bem, tanto que me pediu ajuda.
- Quebra essa, vai? Leva Roberta pra tua casa e faz um apanhado da obra do cara.
- Vou precisar de uma lousa.
- Pára com isso. Ela é mais esperta do que você imagina.
- E você não vai por quê? Tá com medo de mim?
- Meu pai tá pegando no meu pé. Me obrigou a resolver uns problemas lá na empresa. Ele tá impossível.
As tardes lá em casa eram animadas. Roberta era realmente mais esperta do que imaginava. Entendia tudo de bate-pronto. E ainda era um bocado divertida, cheia de histórias sobre namorados, paqueras, pretendentes, ficantes e toda essa mitologia da qual eu sempre ouvi falar. Quanto a mim, só tive um namorado antes de Marcelo e nenhum depois.
- Sabe o Professor Gilberto? – ela perguntou.
- Nunca vi professor de literatura com tronco mais largo. Deve ter sido nadador.
- No final de toda aula ele vem e solta uma piadinha.
- De que tipo?
- Ontem ele perguntou se eu tinha lido um livro chamado “Descrédito”, “Desmérito”, não lembro.
- “Desonra”?
- Isso!
- Onde o professor tem um caso com a aluna e é expulso da faculdade...
- Ele disse que leu esse livro aí e ficou com medo de eu arruinar a carreira dele.
- E o que você respondeu?
- Que ele pode ficar tranqüilo, porque se depender de mim ele sempre vai ter a maldita carreira e esses livrinhos de sacanagem com alunas pra ler.
Tá aí. Gostei dela.
No fim das tardes a gente descia até o bar do Sr. Ferreira pra comprar umas cervejas. O bar parecia intocado pelo tempo, tinha um aspecto fétido, mas vendia a cerveja mais gelada das redondezas. Sr. Ferreira era um era sessentão asqueroso, sempre com um pano de prato imundo pendurado no ombro.
- Oi, Alice. – ele dizia.
- Oi, Sr. Ferreira. – eu respondia.
- Ooooooooooi, princesa. – ele dizia pra Roberta.
Velho descarado!
Na faculdade, Marcelo tomava conhecimento do avanço do trabalho sobre Faulkner e falava do retrocesso em seus problemas com o pai. Ele sempre dava um jeito de se livrar de Roberta e vinha desabafar comigo.
- O velho tá ficando doido. Todo dia, antes de eu vir pra faculdade, a gente quebra o pau.
- Essas tardes que você tá passando na empresa não estão resolvendo?
- Ele quer que eu me envolva mais, mais e mais. Nunca vai ser o bastante pra ele.
- Eu sei que é teu pai, mas dá vontade de mandar pra aquele lugar.
- Mandei ontem.
- E?
- Cortou minha mesada.
O pior ainda estava por vir.
- E o pior – ele disse – é que não tenho mais como curtir esse momento legal que tô vivendo com a Roberta.
- Como assim?
- Você sabe...
- Não.
- Essa coisa toda de... Ah, você sabe!
- Não.
- A gente quer se curtir, mas...
- Não entendo.
- Fiquei sem grana pro motel, caralho!
- Agora entendi.
- É importante pra mim. É o meu momento!
- Do baixo ventre?
- Esquece! Você não tem como entender.
- Porque não sou gostosa?
- Quem tá pra baixo aqui sou eu, Ok? Espera tua vez.
- Ok.
Silêncio. Talvez fosse minha vez.
- Tua mãe ainda chega do trabalho tarde da noite?
- Ah, não! Minha casa não é motel, Marcelo.
- Pra gente era.
- Pra gente era!
Definitivamente era minha vez. Virei as costas e fui embora.
À tarde, Roberta apareceu lá em casa como de costume. Pediu pra sentar no sofá da sala. Sentamos uma de frente pra outra. Ela tinha uma expressão compenetrada, digna, resignada. Parecia até aquelas cenas de novela onde acontecem as grandes revelações. Tenho certeza que ela viu muitas.
- Imagino como você está se sentindo. – ela disse.
- Nossa! Como me sinto melhor agora que você imagina.
- Marcelo contou-me a respeito do ocorrido nesta tarde e estou deveras decepcionada.
Sim, ela estava falando de um jeito empolado.
- Ótimo! – eu disse – Você veio perguntar o preço?
- Vocês são tão amigos. Não entendo onde ele estava com a cabeça.
- Acho que o quarto da mamãe vai cair como uma luva pra vocês!
- Alice!
- Queira acompanhar-me, senhorita. Vou lhe mostrar o aposento onde poderão foder à vontade!
Me levantei. Ela continuou sentada. Paralisada.
- Não faz assim, Alice. Por favor. – ela disse.
Suas feições delicadas de menina se contraíram, os olhos castanho-claros brilhavam tremulantes, as mãos pequenas apertando os joelhos dourados. Ela estava toda naquele momento, naquela posição, naquele olhar. Ela acreditava e era impossível não acreditar junto. Então entendi o maldito poder da beleza de nos sugar para ela.
- Você não tem culpa do que o idiota do Marcelo falou. – eu disse.
- Eu terminei com ele.
- Não! Isso não! É o momento dele! É o momento do... Do ventre!
Não sei o que me deu.
- Do que você tá falando?! – ela disse.
- Você não entende. Ele precisa!
- Calma, Alice!
- Cadê o telefone? Telefone! Telefone!
Fiquei meio descontrolada. Senti que Marcelo estava perdendo algo importante, algo que não era possível entender só com a mente. Liguei pra ele, estava na empresa do pai. Mandei que viesse imediatamente. Meia-hora depois ele estava lá, com a testa suada e olhos arregalados. Devia estar pensando que eu tinha picado Roberta e guardado os pedaços em potinhos tupperware.
- Você tem três horas – eu disse a Marcelo – pra baixar o facho dessa doida e curtir ao máximo... por nós.
Beijei seus lábios, saí e tranquei a porta.
Só depois me dei conta de que não tinha idéia de aonde ir. Fiquei parada em frente à porta ouvindo algumas frases da discussão que se desenrolava.
- Eu não vou transar com você aqui... nem em lugar nenhum! – ela gritava.
- (Marcelo disse algo que não consegui ouvir).
- Não quero saber! Não encosta a mão e mim!
A maçaneta da porta se mexeu. Ela estava tentando sair. Ouvi os passos de Marcelo se aproximando.
- Alice é uma irmã pra mim! – ele disse – Foi grosseiro da minha parte, eu admito, mas me sinto tão à vontade com ela que acabei sendo estúpido.
- Porque a porta está trancada?
- Alice trancou.
- Alice! Abra essa porta!
Bum! Bum! Bum! Ela batia. Eu já estava pondo a chave na fechadura.
- Ela volta daqui a três horas. – ele disse.
- Não acredito que você...
- Foi idéia dela! Você tava junto quando ela me ligou.
Daí em diante baixaram a voz. Depois começaram a sussurrar. Não consegui escutar mais nada. Minha boa ação estava feita. Sentei com as costas apoiadas na porta, braços sobre os joelhos, cabeça pendendo dos ombros.
Perdi a idéia de tempo. Me senti patética. Chorei. Me senti ridícula por chorar. Me senti auto-indulgente. Me pus no lugar de Marcelo. Me pus no lugar de Roberta. Meu ponto de vista não valia a pena. Imaginei os dois rolando no tapete da sala. Imaginei nós dois rolando ali. Lembrei de todos os livros que li. Inúteis, no fim das contas, se nada podem contra esse tal ventre.
Pela janela do corredor vi que anoitecia. Bati na porta, abri e entrei pé ante pé. Roberta saiu do banheiro com os cabelos molhados. Baixou os olhos.
- Nossa! Que vergonha. – ela disse.
- Duvido que você estivesse com essa vergonha toda há meia hora atrás.
Ela riu.
- Obrigada. – ela disse - Por tudo...
- Qualquer mulher do mundo faria exatamente o mesmo no meu lugar.
- É verdade...
Para ironias, pelo menos, ela era completamente virgem.
Roberta resolveu ir embora. Encontrei Marcelo no meu quarto, deitado na cama, sem camisa, parcialmente coberto pelo lençol e com uma baita cara de satisfeito.
- Barriguinha cheia, bebê? – perguntei, passando a mão em seus cabelos.
- Senta aqui do meu lado.
- Segundo tempo?
- Tenho mais idade pra isso não.
- Frouxo!
- Você não existe, sabia?
- Devo não existir mesmo. Só pode.
- Quer casar comigo?
- Não. Quero casar com a Roberta.
- Põe um filme aí pra gente.
- Tá, mas Antonioni não!
Ficamos lá, assistindo um filminho italiano, tomando cerveja e jogando conversa fora, como nos velhos tempos.
Acabou virando rotina. Roberta ia lá pra casa à tarde, eu a ajudava em algum trabalho da faculdade, descíamos, comprávamos cervejas, conversávamos, ríamos, Marcelo chegava, eu saía, eles transavam, Roberta ia embora, eu voltava, encontrava Marcelo deitado na cama com cara de satisfeito, conversávamos, ríamos e bebíamos cerveja até altas horas. Foi assim até eu me formar. Depois disso a rotina acabou. Vejo Marcelo muito raramente. Ele terminou o namoro com Roberta assim que paramos de nos ver. Me pergunto quem foi a outra nessa relação.
P. César
-
Odeio escrotice.
Quando comecei a sonhar é que te tirei da minha vida.
Tu não faz parte do sonho.
19 horas atrás
6 comentários:
fiquei pensando depois... acho que devia se chamar Ménage à trois...rs
a satisfação sexual com uma e a satisfação emocinal com a outra... há uma troca entre os três... no fim das contas as duas garotas gostam de estarem perto uma da outra...
Esse Marcelo era um cara de sorte, mas desperdiçou uma grande oportunidade de levar o ménage ao pé-da-letra. Ele poderia ter ficado "da carne a carne" e acabou optando pelo "do pó ao pó".
O.o
me pergunto que material inspirou essa historia
hsuahsuahs
=)****
escreve muito moço
Deus abençoe muito vc
e esse blog seja instrumento pra gloria dele
Vai tomar banho cara! Escreve bem demais heheheheh
O cara jogou o menagee-a-trois fora assim? Numa conversa jogada fora? heheehehe
É interessante que tem alguns relacionamentos que só duram realmente com base em outra pessoa... os papéis secundários na realidade são principais implicitamente...
jesus apaga a luz!
interessantíssimo.
ié!
mas, não ia deixar na minha cama, a não ser que me pagassem. aí sim são outros quinhentos...
Tou frustrada, eu queria que a Roberta ficasse com a alice. eheh
Muito bom
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