19 Agosto 2009

Entranhas

Sabia que era sonho, mas sentiu o desespero que só a lucidez é capaz de infligir. A filha se desfazendo em lágrimas: “Me abandonou, mãe. Ele me abandonou”. Abraçava a pobrezinha, acariciava seu barrigão de sete meses e dizia: “A mãe avisou. Não se deixa de ouvir a mãe”. Acordou com aquele aperto no peito obstruindo sua respiração. Encheu os pulmões e soltou uma rajada de ar pesada, grave. Saltou da cama debaixo dos roncos estrondosos do marido, pousou os pés nos chinelinhos de borracha que ficavam estrategicamente ao lado da cama e seguiu arrastando-os até a cozinha, onde serviu-se dum copo d’água fria. Mal terminou de beber. O aperto não dava trégua, seguia castigando suas têmporas, seu esôfago, suas pernas, que latejavam, tremiam.

Ajoelhou-se perante o sofá e enterrou o rosto no assento, braços circundando a cabeça, mãos crispadas, implorando aos céus que livrassem sua filha daquele homem canhestro e desprovido de apelos, que sabe lá por intermédio de quais mandingas roubou o coração da menina que ainda ontem pedalava seu velotrol cor de rosa pelo quintal. Precisava fazê-la entender que sair de casa para viver uma aventura com um homem, fosse quem fosse, ainda mais esse!, era um atentado dos mais cruéis contra o coração de uma mãe; e que desde a primeira vez que vira aquele rosto petulante previu - com o mesmo instinto com que mães salvam filhos desde tempos imemoriais - que ele não era confiável. Ninguém era, aliás. Para muitos, sabia, a filha não passava de uma moça de vozinha enjoada, exageradamente simpática, que carecia de dureza no trato para ganhar alguma solidez moral. Praquele homenzinho hediondo, sua menina era carne para consumo imediato – seios, pernas e nádegas compradas no açougue, onde não se pergunta pela história ou família do animal abatido.

“Deixa quebrar a cara”, era tudo que dizia o pai, sem desviar os olhos da tevê. As irmãs não economizavam: “Vagabunda. Sempre foi”. E a mãe corria do quarto pra sala, da sala pra cozinha, da cozinha pro quarto, procurando alguém que escutasse seus clamores, sem sucesso, já que era mãe e estava sozinha na gestação de suas profecias. Ninguém participava de sua dor, de seu calvário, muito menos a filha que fingia – e na certa fingia! – conviver pacificamente com aquele demônio, como se fosse possível.

- Alô. – disse a voz do outro lado da linha.

Um arrepio percorreu suas vértebras de alto a baixo. Aquela voz grotesca, apática, inconfundível, sabia que corria o risco de ouvi-la ligando assim, no meio da noite, mas imaginou que a filha fizesse sempre as vezes de empregada da casa. Desligou. Não aceitava trocar uma palavra que fosse com aquele homem. Pouco depois o telefone tocou de volta.

- Mãe, já falei pra não desligar na cara do meu marido!

Marido. E essa agora. Namorou por sete anos no sofá da sala sob olhos atentos de pais, tios, primos; seguiram-se dois anos de noivado oficial que tiveram como maior pecado os beijos que vez por outra se permitia receber no lóbulo da orelha; casou de branco, com todas as bênçãos celestes existentes e que ainda se hão de impetrar; padeceu durante décadas as aflições dum cotidiano monocromático que pouco a pouco tingiu de cinza o jovenzinho esbelto que lhe beijava as orelhas, transformando-o num buda de louça que berrava, brigava e roncava; tudo isso para ouvir uma pirralha apelidar o primeiro malandro que achou na esquina de “meu marido”.

- A mãe sonhou com você, filha.
- Boa coisa não foi... Fala logo.
- Esse aí te largava, com barrigão de sete meses. Me ouve.
- Ah, mãe. Não enche, vai!
- Deus está avisando, filha.

Sabia de antemão que não seria ouvida, mas de tempos em tempos achava-se presa num véu de esperança que tornava tudo tão simples, tão claro. “Hoje, vai saber, depois de uma briga mais séria, um bom conselho de mãe e ela acaba voltando pra casa”, pensava. Mas o tal hoje ficava sempre pra outro dia.

Algumas semanas depois, ao voltar do mercado, avistou um carro vermelho estacionado no portão. Nunca vira o tal carro, mas tinha certeza que a filha viera nele. Faro, talvez, mas ela sabia. Apertou o passo. Antes que alcançasse ao portão, este se abriu e dele saíram o pai e ela, a filha. Estavam abraçados e riam, mas fecharam o rosto quando viram a mãe.

- Mas já vai, minha filha?
- É, mãe. Foi coisa rápida.

E a filha abraçou-a forte, bem forte e tão forte que a mãe sentiu os olhos marejarem, saboreando aqueles bracinhos até ontem curtos, mas que agora lhe envolviam inteira, os dedos magros apertando suas costas por sobre a blusa de viscose, o perfume de flor, os cachinhos do cabelo que lhe tapavam a visão feito persianas, enterrada que estava naquele pescoço branco e cheio de pintas, cujas posições trazia decoradas como se fossem constelações, pois admirava aquelas pintas sempre que a filha desmaiava de sono em seu colo e vez por outra ligava alguns pontos com hidrocor formando um desenho só para vê-la acordar irritada – zanga de criança, dessas que logo passa, uma delícia –, e depois cair na gargalhada e começar ela própria a ligar os pontinhos naquelas pintas e descobrir mais e mais constelações que trazia no pescoço.

A filha entrou no carro, o “marido” esperava ao volante. E o carro arrancou, não demorando a desaparecer no fim da rua. A mãe ainda permaneceu alguns instantes fitando o horizonte que reassumia lentamente a paleta de cores habitual.

- Vamos, mãe. Entra. – disse outra filha.

A mãe encontrou os demais reunidos na sala. Estavam calados, solenes. Ali tinha coisa.

- Fala logo! O que foi que aconteceu!? – perguntou a mãe, sem pestanejar.
- Melhor dizer de uma vez. – disse uma das filhas.
- Devagar... Quer matar ela do coração? – retrucou o pai.
- Ai, meu Jesus. – exclamou a mãe, levando a mão ao peito.
- Ela está grávida. Pronto! Falei!

A mãe desabou no sofá e se não houvesse sofá atrás dela desabaria no chão e não sentiria diferença alguma pois o sofá lhe recebeu com a dureza duma lápide.

- E como você não aceita o rapaz, eles vão se mudar pra São Paulo e ter o bebê perto da família dele.

Permaneceu ali, caquinhos no sofá. Não ouvia mais nada. Provavelmente diziam coisas, mas ela não estava mais ali. Estava de novo no quintal, numa tarde morna de primavera, empurrando o velotrol cor de rosa, observando o balanço daquela cabecinha cacheada, as dobrinhas daquele pescoço cheio de pintas, o corpinho rechonchudo de bebê que lhe causava o impulso louco de beijar, de apertar, de morder, de empurrá-la de volta para o ventre e senti-la mais uma vez dentro de si, misturada às suas entranhas.

6 comentários:

Nice disse...

Essa inspiração veio do post do Bunyan sobre adolescentes gravidas?
hsuahsuas
:P
vc escreve bem, cara o/
Mas estou sentindo falta de algo que tinhas nos textos mais antigos...

MaxReinert disse...

Nossa.... muito bom o texto. Narrativa excelente que prende do início ao fim!

Raphael Rap disse...

Sete meses depois a mãe perdeu a razão...



Muito bom cara. Belo texto e como definiu o Max... prende do início ao fim.

suzana_rebeca disse...

Até o último ponto.

D. Negrone disse...

Devastador como sempre. Tá virando rotina... bom bragaralho! Acompanhando sempre, visitante cativo!

[ ]'s

Lekkerding. disse...

Ótimo texto. Incrível como sempre me surpreendo positivamente quando venho aqui ler.