24 Março 2009

Sangue no chão de taco

Ela entrou e as paredes tremeram. Seu olhar vidrado anunciava meu fim. A visita era rápida, estratégica. Tinha pressa. Viera me eliminar. Puxou um pequeno revólver da bolsa e me acertou bem na cabeça. Paf! Senti um impacto forte e depois um desmaio súbito, mas em poucos instantes me recobrei fitando as pás do ventilador de teto, que giravam, giravam, giravam. Ela sentou-se no chão, bem junto ao meu corpo, acariciou minha cabeça, beijou o buraco da bala.

- Ah, como te amo! - ela disse, percorrendo carinhosamente o diâmetro do ferimento com a ponta do dedo. - Mas não tive escolha. A vida me chamou, benzinho. Quero o risco, quero o dano, quero colecionar dores diferentes das que você me causa.

Meu sangue se espalhava lentamente pelo chão de taco, penetrava nas gretas, ganhava o mundo.

- Nos amamos mais que qualquer casal já se amou. Nos amaríamos daqui a cem, duzentos anos! Por isso te matei. Preciso errar, vacilar, me perder na multidão do comum. Tem um cara aí fora me esperando. Ele é raso, não me acrescenta, não me desafia, mas ainda assim preciso me perder nos braços dele, entende?

Não conseguia me mexer, nem falar, nem pensar. Só me era permitido ouvir. Nem dor sentia. Ouvia e só.

- Precisava escolher entre minha vida e a tua. Se ignorasse essa coisa que berra aqui dentro estaria matando a mim mesma. O jeito de me salvar foi te sacrificando, viver por intermédio do teu sangue. Você, meu cordeirinho pascal.

Ela levantou e saiu do quarto. Ouvi barulho de armários, gavetas. Voltou com fósforos e fluído de isqueiro.

- Você será minha lembrança eternamente doce, meu idílio juvenil, a esperança do amor que não fracassou, que morreu eterno, vigoroso. Por isso te matei, cordeirinho, porque te amo, porque te quero infinito, a trilha sonora da minha perdição, da minha dor.

Banhou meu corpo com o fluído, riscou o fósforo e ateou fogo. Me assistiu queimar por alguns instantes, num silêncio cerimonioso. Ouvi suas últimas palavras com alguma dificuldade, devido ao crepitar intenso da minha pele.

- Serei eternamente grata a você, benzinho, por tudo, tudo, tudo. Não pense que sou ingrata. Ah, que besteira a minha! Você sempre me entendeu.

E foi embora, não sem antes desligar o ventilador. Fiquei ali, no chão do quarto, queimando, enegrecendo, assistindo as pás do ventilador sendo vencidas pelo ar.

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