05 Agosto 2008

Número 98

Ela tinha voz de desejo incubado. Voz de quem se esconde atrás de um rosto angelical e reserva sua devassidão para os desconhecidos, os anônimos, os que não podem nem querem vê-la sob a máscara da beatitude. Nos esbarramos num bate-papo por telefone. Eu, desempregado, barrigudo e com um quê de depressão, recebi aquela vozinha espivitada como uma dádiva dos céus. Passava as tardes no telefone, de pau duro, ouvindo ela narrar aventuras sexuais. Ela disse que o pai era empresário, que a mãe era estilista, que tinha motorista, copeiro, jardineiro, cozinheiro, dois huskies siberianos e que passou as últimas férias no Taiti. Eu disse que era desempregado, barrigudo e com um quê de depressão. Ela riu. Disse que tenho senso de humor.

Ménage a trois, quatre, cinq, six... Ela já fez de tudo, em todas as posições, em todos os orifícios. Transou com mulheres, veados, gigolôs, travestis e com um surdo-mudo que bateu à sua porta vendendo drops. Pagou boquete pro motorista com o pai sentado no banco de trás, entretido no caderno de esportes. O próprio pai tentou comê-la, mas ela não quis por achar seu pinto muito pequeno, apesar de ter saído de lá. Flagrou a mãe em altas surubas na sala de estar. E se juntou a elas, sem cerimônias.

Eu passava as tardes esparramado no sofá, bebendo vinho barato e curtindo aqueles contos-de-fada pornográficos. Não, ela não tinha nenhum talento pra inventar as tais estórias, mas aquela vozinha aguda me deixava de pau duro.

- Quando a gente vai se encontrar? - perguntei.
- Não tá bom desse jeito?
- Quando?!
- E se você for psicopata?
- Quando?!
- Terça tá bom?
- Não dá. Tenho entrevista de emprego.
- É terça ou nunca!
- Nunca.
- Já te contei que pratico pompoarismo?
- Já.
- Então, vai trocar isso por um empreguinho miserável?
- Quem disse que é miserável?!
- Então vai pra tua entrevista!
- Me dá o endereço.
- Rua tal, número 98.
- Me espera às cinco.

O empreguinho era mesmo miserável. Além do mais, entrevista de emprego eu conseguia duas ou três por mês. Mulher não. Tinha certeza que comendo a garota todos os meus problemas se resolveriam. A barriga na certa era algum tipo de prisão de sêmen. Toda aquela porra em conserva dentro de mim tinha que dar merda mais cedo ou mais tarde. Já o desemprego era um nítido problema de auto-confiança, porque os caras que fazem entrevistas de emprego lêem nos olhos há quanto tempo um candidato está sem comer ninguém. A depressão, bem... Depressão é o cacete!

Mas precisava resolver meu problema de auto-estima, pelo menos momentaneamente. Achei três livros empoeirados de Machado de Assis largados na estante e levei-os num sebo que tem lá perto de casa. O dono ficou maravilhado. Eram edições clássicas, raríssimas, das primeiras editadas no Brasil. Me deu quinze reais. Saí de lá e entrei na lojinha de roupas que fica ao lado. Pequena, abafada e atulhada de caixas de papelão em todo canto. Parecia esquecida pelo tempo. Não havia nenhum traço do progresso humano dos últimos séculos, à exceção da lâmpada elétrica pendurada no teto, que iluminava parcialmente o rosto sepulcral da senhora de cento e cinquenta anos que atendia no balcão.

- Quero uma sunga. - eu disse.
- Tamanho? - perguntou a velha com voz de além-túmulo.
- Médio. - respondi.
- Não ouvi, meu filho.
- Médio! - gritei.
- Aqui está.
- Não. Quero aquele outro modelo ali.
- Aquele tipo shortinho?
- Caralho... É, tipo shortinho.
- Toma, meu filho.

Pus a sunga na frente do corpo pra ver como ficava.

- A senhora acha que vou ficar sensual nela? - perguntei.
- Com essa barriga de verme? - e soltou uma gargalhada de bruxa maligna.
- Quanto custa essa merda?
- Quinze reais.
- Literatura é pano de bunda mesmo.

Deixei o dinheiro no balcão e fui embora. Nada abalaria minha auto-estima restaurada pela sunga nova.

Na terça-feira saí de casa com antecedência. Não queria me atrasar. Afinal, a menina podia ser mentirosa, mas com aquela puta imaginação algum divertimento nós teríamos. Cheguei na tal rua. Número 98, lado par. Lá estavam os numerozinhos nos portões. 88, 92, 96, 100... Filha da puta!

- Sua vagabunda, não existe número 98!
- Existe sim.
- Então sai pra eu te ver.
- Não tô em casa.
- Ah, que ótimo!
- Aconteceu uma emergência. Não fica bravo comigo!
- E a porra do número 98? Não existe, caralho!
- Existe sim!

E desligou. Lá estava eu, sozinho numa rua deserta, à procura de um número que não existia, onde encontraria uma garota mentirosa que não passava de um personagem doentio. Ah, aonde o pau de um homem não o leva! Fui caminhando lentamente na direção do ponto de ônibus, tentando aplacar a vontade que me deu de cortá-lo fora. Reparei que a tal rua era feita só de casas e sobrados. Parecia rua do século dezenove ou coisa assim. Mas na rua de trás, quase como um obelisco fálico, havia um prédio residencial de uns vinte andares. Comecei a observar aquela enorme massa de concreto fincada entre as casinhas coloridas. Destoava, era feio. Lá pelo quinto andar, um vulto que estava na sacada correu para dentro do apartamento. Foi rápido, mas deu pra ver claramente que se tratava de uma mulher... De uma mulher jovem... De uma mulher jovem que me observava. Filha da puta!

Fui correndo que nem louco para a rua de trás. Quando cheguei ao tal prédio, a surpresa: número 98. A louca me deu o número certo na rua errada. Na certa queria me ver sem correr nenhum risco. Pensei em chamar o porteiro e perguntar pelo nome dela, mas quem garante que ela me deu o nome certo? Atravessei a rua, entrei numa lanchonete bem limpinha que tinha em frente, daquelas com laranjas e melões pendurados na parede, e pedi uma cerveja. Bebi lentamente. Uma, duas, três cervejas... A garota desceu. Quer dizer, era bem parecida com o vulto que vi correr da sacada. Joguei uma nota de dez sobre o balcão e fui atrás dela.

Passava das seis. A noite já havia derrotado o dia. Fui seguindo a menina a uns dez passos de distância. Parecia ter seus dezoito. Vestia calça jeans e uma blusinha vermelha. Não era baixa, tinha cabelos castanhos escorridos até a cintura e uma bunda enorme. Andava serelepe, rebolando pra lá e pra cá. Foi quando o celular dela tocou.

- Alô! Oi, Sílvia! - ela falou.

Ah, aquela vozinha aguda, espivitada, inconfundível! Apertei o passo, cheguei perto, puxei-a pelo braço e disse:

- Número 98, né?

A menina entrou em transe. Foi possuída por um frêmito assustador. Chorava, implorava, berrava. O rosto angelical era puro pavor. Parecia diante da morte, do mal, do diabo, do fim.

- Sou eu. Calma! - falei.
- Me deixa! Eu não fiz nada! - ela gritava. As lágrimas escorrendo aos rios.
- Ei, escuta!
- Eu sou virgem! Me solta!

Escorregou dos meus braços e caiu no chão numa convulsão histérica. Acho que bateu com a cabeça. Sorte minha daquelas ruas serem desertas. Quem acreditaria em mim quando dissesse que aquele rostinho virginal dava sentido às minhas tardes vazias com a devassidão que guardava nas cisternas da alma? Deixei-a caída no chão e corri o quanto pude.

Minhas tardes voltaram a ser o que eram antes: sofá, vinho barato e um quê de depressão. A vida às vezes pode ser uma merda. E a merda sempre pode feder mais.

5 comentários:

Raphael Rap disse...

Putz cara, se o cara tivesse internet já tinha descoberto que isso nunca daria certo rs...

Lekkerding. disse...

A grande ironia é que se entrarmos num chat do UOL ou do Terra agora vamos encontrar menininhas desse mesmíssimo naipe.

E talvez elas nem sequer tenham sexo feminino.

Kessia disse...

uma virgem n deveria saber dessas coisas... rs

Rafael Dias disse...

Uma virgem enquanto conceito abstrato pode não saber. Mas uma virgem concreta - enquanto gente, pessoa - sabe, deseja e esconde muito mais do que nossos rótulos lhe permitem.

Lívia disse...

"- Literatura é pano de bunda mesmo." hahaha, isto é verdade.
[]'s