21 Julho 2008

Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade

Meu trabalho era ficar sentado na frente de um computador recepcionando cretinos fracassados sofrendo do último resfolegar de esperança capitalista. O chamariz era um cartaz que o curso espalhou pela cidade com a foto de um cara branco, bem vestido e com sorriso cepacol, oferecendo curso profissionalizante gratuito. Mas não bastava vir até aqui e pedir o curso. No cartaz dizia que era preciso repetir a frase: "Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade". Além do cabra não passar de um fudido procurando salvação em cartazes publicitários, ainda tinha que desperdiçar sua última gota de dignidade dizendo em alto e bom som que não podia pagar por um curso que lhe daria uma profissão e, consequentemente, dignidade e grana para pagar por um curso como aquele. Mas como ele AINDA era um merda, tinha mesmo que implorar.

Achei que a promoção veio em boa hora. O curso andava meio monótono e eu acabava passando a maior parte do meu dia escrevendo estórias de sacanagem. Sim, escrevo estórias bem sacanas e mando por e-mail para algumas conhecidas, para que elas pensem que eu sou bom de cama e resolvam me dar. Até hoje, nada. Mas a Carlinha do administrativo disse que se masturbou com a estória de uma suruba no circo, envolvendo anões, macacos e mulheres barbadas. Foi o máximo que consegui. Perguntei se ela queria sair comigo, mas a desgraçada respondeu que entre dar pra mim ou pra um anão, preferia o anão.

Depois desses cartazes o curso começou a ficar movimentado. De cinco em cinco minutos entrava alguém e recitava a maldita frase. Aí eu pegava um formulário de quatro páginas, que perguntava até se o cara tinha oxiúrus, e dava para o merda em questão preencher. Mas como eu só tirava seiscentas pratas naquela droga de emprego e a maior promoção que eu poderia conseguir era para o administrativo, onde eu ganharia setecentas pratas e passaria o dia digitando aqueles malditos formulários pra saber quem tinha oxiúrus e encaixando fracassados em turmas de cursos gratuitos, resolvi me divertir um pouco. O anúncio não dizia que a pessoa TINHA que repetir exatamente a frase, nem fomos orientados pela direção a exigir isso, mas os cretinos que apareciam ali eram tão fracassados que arriariam as calças se eu mandasse. Mal sabiam que o curso gratuito não passava de um introduçãozinha para o curso de verdade, que era - óbvio! - pago.

Entrou um grisalho de roupa social e aparência digna. Se dirigiu a mim com um ar todo respeitoso:

- Bom dia, meu jovem. Estou interessado naquele curso gratuito que foi anunciado.
- E a frase?
- Que frase?
- Tem que dizer a frase.
- A do anúncio? Desculpe, mas não me lembro.
- Lá diz que tem que repetir a frase.
- E qual é?
- Não posso dizer.
- Mas que diferença faz?
- Regras são regras.
- Eu vi o anúncio num outdoor, mas não lembro onde.
- Tem um na Rua Monsenhor Félix.
- Tão longe?
- E nesse sol, né?
- Já volto.

Vi nos olhos dele o desejo selvagem de mandar eu me fuder, mas não mandou. Saiu porta afora. Logo depois entrou uma gorda de uns vinte anos. Nossa! Vinte anos e gorda. Fiquei me perguntando se alguém comia aquela garota. Os melhores anos de uma mulher soterrados debaixo de toneladas de gordura. Na melhor das hipóteses vai casar virgem aos trinta com um cara que enjoou de comer as magras e resolveu comprar uma casa financiada e um cachorro de petshop. Para uma vida dessas nada melhor que uma esposa gorda.

- Quero Ganhar Educação Profissionalizante de Qualidade e Gratuita.
- Tá errado.
- O que tá errado?
- A frase. Não é assim.
- Como não? Eu decorei!
- Escuto essa frase centenas de vezes por dia. Sou capaz de dizê-la tendo um orgasmo.
- Então como é?
- Pra ter um orgasmo? Primeiro emagrece.
- Como é A FRASE!?
- Não posso dizer.
- Acho que é "Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade".
- Agora sim.
- Onde eu preencho?
- Já era. É uma chance só.
- Não diz isso no anúncio!
- Pra quê vamos gastar dinheiro profissionalizando alguém que não consegue decorar uma frase de oito palavras? Sinto muito, minha filha.

Saiu batendo porta. É incrível como ninguém mandava eu me fuder. Meia-hora depois voltou o grisalho. Tinha a testa, o pescoço e a camisa inundadas de suor.

- O senhor está fedendo. - eu disse.
- Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade.
- Preenche isso aqui.

Ele ficou lá, escrevendo e bufando e pingando seu suor fedido.

- Nunca conheci alguém tão desprezível quanto o senhor. - ele disse.
- Sabe, acho que vou usar sua ficha de cadastro pra limpar a bunda.
- O senhor... me desculpe.
- Acho que vou ao banheiro. - eu disse, levantando com o cadastro dele na mão.
- O que mais o senhor quer?! Que eu beije seus pés? Eu beijo.
- Pode ir. Vou entregar sua ficha.

O homem continuou ali, parado, me olhando.

- Pode confiar, cacete! Eu tô falando.

Enfim o homem, desconfiado, deu meia-dúzia de passos vagarosos para trás até cruzar a porta. Aquilo me deprimiu. Rasguei a ficha dele e joguei no lixo. Saibam que isso foi um ato de respeito.

Dias depois eu estava entretido com minha nova estória sobre russas peitudas e americanos babacas que se encontravam numa estação espacial e faziam suruba em gravidade zero. Acho que a Carlinha vai gostar dessa. Eram quase oito da noite e eu estava sozinho no curso. O gerente tinha saído mais cedo e pedido pra eu fechar tudo. Faltava pouco pra eu terminar mais uma obra-prima da putaria literária bagaceira. Bem na hora de fazer a porra flutuar no espaço, entraram duas garotas correndo, saltitando e sorrindo como gazelas no cio. Com sorte tinham dezoito. Morenas, cabelos longos, calças coladas - bendita seja a era do stretch! -, topzinhos coloridos devidamente tensionados contra os seios recém inflados pela mãe-natureza.

- Fechou? - perguntou a mais gostosa.
- Fechou. - respondi, seco.
- A gente queria aquele curso gratuito.
- E a frase?
- Não falei que precisava da frase? - disse a menos gostosa à mais gostosa.
- Além do mais a promoção era só até hoje. - eu disse, mas era mentira. - E a procura foi tão grande que nem sei se adianta inscrever vocês.
- Ai, meu pai vai me matar! - disse a mais gostosa -Ele está há duas semanas dizendo pra eu vir aqui me inscrever.
- O meu também. - disse a menos gostosa.
- Nesse caso acho melhor vocês se mudarem lá pra casa. - disse.

Elas soltaram aquela risadinha de mamãe-quero-ser-puta.

- Então, - disse a menos gostosa (que a essa altura também era gostosa pra caralho, ou era o sangue que me faltava no cérebro por estar indo aos litros rumo aos países baixos) - você tem como inscrever a gente, assim, tipo, se você quiser, né?
- Mas por que eu ia querer um troço desses?

Bem, o resto vocês já podem imaginar. Talvez não que eu tenha levado as duas pra sala do gerente. Garanto que comer duas molecas safadas na sala do chefe é melhor que gravidade zero. E elas ACABARAM comigo. Eram insaciáveis. Bocas, pernas, mãos e línguas me derrotando a cada instante. Num dado momento as duas desistiram de mim e ficaram lá, se pegando entre elas, enquanto eu, jogado no canto, sugado, extenuado, seco até o talo, só gemia e pedia clemência.

Alguns dias depois o gerente me chamou na sala dele. Isso nunca acontecia.

- Serei processado por duas jovens que afirmam terem sido coagidas a fazer sexo em troca de nosso curso gratuito. - disse o gerente.
- Elas são menores?
- Não.
- Então?
- Você transou com elas?
- Sim.
- E diz isso com essa cara deslavada?!
- Elas pediram. O senhor também comeria.
- Sou pai de família! Veja lá como fala!

Não conseguia ficar nervoso nem nada. Ele estava justamente na cadeira que eu estava quando as duas sentaram em cima de mim. Na mesa onde ele repousava pomposamente os cotolevos, as duas tinham se lambido como loucas. Aquela sala só me trazia boas lembranças.

- Você nos deve um pedido público de desculpas! - ele gritou. - Várias pessoas estão aparecendo com denúncias de constrangimento, humilhação e o diabo.
- O senhor vai me demitir?
- Mas o que você acha? - disse com a voz esganiçada. Seu ar já estava acabando. Seu olhar tinha o mesmo brilho selvagem dos olhos do senhor grisalho.
- Então enfie suas desculpas no rabo!

Levantei e fui embora. Alguns dias depois havia uma página inteira de jornal tomada por um comunicado público: O curso gratuito havia sido suspenso, mas todos os ofendidos receberiam bolsas de cem por cento no curso que escolhessem. Se somar a quantidade de gente que apareceu reclamando, eu devo ter feito 346 surubas e 126 ménage à trois, fora a gorda ofendida. Mas no fim das contas acho que espalhei um pouco de dignidade por aí.

2 comentários:

Raphael Rap disse...

Eu NÃO quero um curso profissionalizante gratuito. Está claro? hehehe

Aquela 'par', que virou ímpar. disse...

mas é verdade isso do curso? [1]

ô.
como sempre :
Sim, escrevo estórias bem sacanas e mando por e-mail para algumas conhecidas, para que elas pensem que eu sou bom de cama e resolvam me dar."
te confesso que isso ajuda muito.


mas é verdade isso do curso? [2]
uahuhauahuaha
já parei.

muito massa.