<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691</id><updated>2012-01-30T07:45:56.613-02:00</updated><category term='Contos'/><title type='text'>Contódromo</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>31</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-1663523251663012411</id><published>2011-10-19T15:59:00.008-02:00</published><updated>2011-11-16T15:07:49.816-02:00</updated><title type='text'>Pior que Acredito</title><content type='html'>Ele bate. Ela abre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vim te buscar. - ele diz.&lt;br /&gt;- O que você pensa que está fazendo?&lt;br /&gt;- Anda. Pega tuas coisas.&lt;br /&gt;- Alguma vez eu disse que fugiria com você? Eu disse?&lt;br /&gt;- Eu vim te buscar e pronto.&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, some daqui.&lt;br /&gt;- Pega lá suas coisas.&lt;br /&gt;- Eu sou casada! Ca-sa-da!&lt;br /&gt;- E de repente isso tem importância?&lt;br /&gt;- Eu amo meu marido.&lt;br /&gt;- Eu acredito. Pior que acredito.&lt;br /&gt;- Você dificulta tanto as coisas.&lt;br /&gt;- Eu facilito as coisas.&lt;br /&gt;- Até demais! Acha que é assim, desse jeito?&lt;br /&gt;- Anda. Pega tuas coisas.&lt;br /&gt;- Para! Para! Deus do céu!&lt;br /&gt;- Você é engraçada...&lt;br /&gt;- Você me aparece aqui do nada...&lt;br /&gt;- Vive dizendo: meu marido isso, meu marido aquilo.&lt;br /&gt;- Nunca disse que fugiria com você.&lt;br /&gt;- Com quem então? Quem mais compraria teu barulho?&lt;br /&gt;- Eu sei, meu amor. Eu sei... Mas não é assim.&lt;br /&gt;- Você pega suas coisas, a gente entra naquele carro e pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela pensativa. Ele impaciente, cara de quem espera um caixa eletrônico cuspir o dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vou. - ela diz.&lt;br /&gt;- Presta atenção: é sua última chance.&lt;br /&gt;- Eu. Não. Vou.&lt;br /&gt;- Porque você dificulta tanto as coisas?&lt;br /&gt;- Eu não posso. Eu queria, mas não posso.&lt;br /&gt;- O que te prende aqui?&lt;br /&gt;- Eu sou casada.&lt;br /&gt;- E vem dizer isso pra mim?&lt;br /&gt;- É diferente, meu amor.&lt;br /&gt;- Rá! Logo pra mim?&lt;br /&gt;- É diferente.&lt;br /&gt;- O que é tão diferente?&lt;br /&gt;- A gente. A gente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entreolham-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acabou. - ele diz.&lt;br /&gt;- Não. Isso não.&lt;br /&gt;- Você podia entrar naquele carro comigo. Não é difícil. São vinte passos.&lt;br /&gt;- Eu queria! Juro que queria!&lt;br /&gt;- E teríamos uma vida inteira pela frente.&lt;br /&gt;- Eu não vou aceitar.&lt;br /&gt;- Vinte passos. Por que é tão difícil?&lt;br /&gt;- Eu não vou aceitar.&lt;br /&gt;- Não tem o que aceitar.&lt;br /&gt;- Você não vai se livrar de mim.&lt;br /&gt;- Vinte passos.&lt;br /&gt;- Eu não posso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela chora. Ele observa, indeciso; quer ir embora, mas não desse jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se acalma. - ele diz.&lt;br /&gt;- Não vê o quanto é difícil?&lt;br /&gt;- Seu marido chega daqui a pouco.&lt;br /&gt;- É muita coisa na minha cabeça!&lt;br /&gt;- Seca esse rosto.&lt;br /&gt;- Você ao menos acredita quando eu digo que queria?&lt;br /&gt;- Que diferença faz?&lt;br /&gt;- O que eu sinto, o amor que eu sinto. Não faz diferença?&lt;br /&gt;- Com ou sem amor, você não vem. Faz diferença?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele vira as costas; parece um bom um momento pra sair de cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Queria te amar mais. - ela diz. - Queria te amar do seu jeito.&lt;br /&gt;- O que você espera que eu diga?&lt;br /&gt;- Que acredita.&lt;br /&gt;- Eu acredito. Pior que acredito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-1663523251663012411?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/1663523251663012411/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=1663523251663012411&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/1663523251663012411'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/1663523251663012411'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2011/10/vim-te-buscar.html' title='Pior que Acredito'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-6542123303828841668</id><published>2011-03-16T08:47:00.020-03:00</published><updated>2012-01-09T16:39:51.297-02:00</updated><title type='text'>Comum</title><content type='html'>Ela controlava a porra do universo e&lt;br /&gt;quando falava, as palavras iam pelo mundo&lt;br /&gt;fazendo o que ela queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pude vê-la, quatro, cinco anos,&lt;br /&gt;rodeada de coleguinhas brincando de&amp;nbsp;pique-esconde&lt;br /&gt;embora&amp;nbsp;todos gostassem de&amp;nbsp;pique-tá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era comum, rosto comum, corpo comum,&lt;br /&gt;mas falava e a porra do universo obedecia&lt;br /&gt;e trazia nos olhos a certeza de saber disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E perguntava coisas da minha vida&lt;br /&gt;que eu não digo pra ninguém,&amp;nbsp;e eu contava&lt;br /&gt;tudo,&amp;nbsp;sem pudor,&amp;nbsp;e não era uma escolha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando virava as costas e me ignorava,&lt;br /&gt;era como se o universo inteiro mudasse de lugar&lt;br /&gt;me deixando num canto onde não se existe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-6542123303828841668?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/6542123303828841668/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=6542123303828841668&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/6542123303828841668'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/6542123303828841668'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2011/03/num-canto.html' title='Comum'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-8788154656204432832</id><published>2011-03-04T18:12:00.020-03:00</published><updated>2011-09-08T14:42:20.031-03:00</updated><title type='text'>Reentrâncias</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Aqueles olhos, cravados nos meus. E parecia que nada seria dito, que o silêncio permaneceria impenetrável, o ar espesso, ainda que ficássemos ali, sentados, por centenas de anos. Os olhos, duas bolas de gude, enormes, negros como a noite mais escura que já vi.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;/span&gt;Fitou o copo de vodca; acariciou a superfície da bebida com a ponta do dedo, lambeu. Os lábios, saltados, vermelhos, pareciam preguiçosos; nada tinham para me dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Estava particularmente bonita: um tomara-que-caia cor de uva, os cabelos escuros ondulando por sobre as costas, os ombros brancos, desnudos, a pele. Mas trazia nos olhos uma tristeza que me sufocava; eu queria ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;O bar estava quase vazio. Era quarta, chovia. Todos pareciam ter um bom motivo para estar ali, algo precisando ser afogado num copo de vodca. Eu não suportava mais aquilo, o garçom passando na nossa frente o tempo todo,&lt;span class="apple-converted-space"&gt; &lt;/span&gt; como se aquele silêncio o angustiasse mais do que a mim. Alguma coisa precisava ser dita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Tem um cigarro? – ela perguntou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Saquei o maço e lhe dei um. Ela não fumava, mas gostava do espetáculo, da fumaça dançando pelo ar. Acendeu, tragou, cuspiu uma baforada pro alto e ficou assistindo os círculos, suas reentrâncias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Se eu sumisse, desaparecesse... Seria uma alívio, né? – ela disse, preguiçosa, quase não ouvi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Tragou o cigarro novamente, apertou os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Digo, pra mim. Um alívio...&lt;br /&gt;- Garçom! – gritei. Ele veio. – Outra vodca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Eu sabia o que estava por vir; é como pular dum prédio, não tem volta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;– Deixa eu te dizer uma coisa... Na vida, – e mal comecei, me arrependi. – é preciso aprender a conviver com determinadas situações. Nem tudo é como a gente gostaria que fosse. Veja, essa busca frenética pela felicidade na qual todos estamos envolvidos, de um jeito ou de outro, não passa de ilusão; é a velha cenoura pendurada na frente do burro. Precisamos nos adaptar é à realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Ela não respondeu. Estava farta daquilo. Seria melhor, mil vezes melhor, se tivesse berrado, xingado, mas me condenou tão somente a ouvir sua respiração, alto e forte, como se a ouvisse através dum estetoscópio. Os passos do garçom, as frases esparsas das mesas vizinhas, o samba cafona de fundo, o rangido da porta do banheiro a metros de distância; era uma massa de som turva, distante, sem sincronia com a imagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Buf! Uma pancada seca, um estrondo que estancou o transe. Era o garçom, baixando meu copo de vodca na mesa. Virei numa talagada só; detesto vodca, mas qualquer quentura era bem-vinda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Seus discursos... – ela começou, mas a voz perdeu força até sumir. Desistiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Foi quando ela, num gesto brusco, se levantou da mesa. Achei que fosse embora, parecia fora de si. Enlaçou o garçom pela cintura, pousou a cabeça em seu ombro e começou a dançar. Lentamente. Pra lá e pra cá... O garçom acompanhava seus movimentos com respeito, um respeito quase fúnebre. Ela apertava os olhos, pressionava a cabeça contra o peito do garçom; a música se arrastava, os acordes pesados, as notas empurrando-se umas às outras, com preguiça de sair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Nas mesas vizinhas, esqueceram-se os assuntos sonolentos, os copos mornos de cerveja, e todos passaram a assistir àquela dança ritualística. O bar inteiro, tomado pelo mesmo sentimento, a mesma dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Quando a música terminou, todos pareciam acordar de um sono profundo, não se reconheciam mais como gente ordinária num bar de esquina, bebendo cerveja morna numa quarta chuvosa. A cena os havia transportado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;- Vou indo. – ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Não me mexi. Não adiantava. Ela abriu a bolsa, tirou uma nota de dez, largou sobre a mesa e virou as costas, sem olhar para mim.&amp;nbsp;Assistimos, o bar e eu,&amp;nbsp;os passos em direção à rua, os cabelos pendulando por sobre os ombros desnudos, a pele branca, o tomara-que-caia violeta, os pés pisando firme no ladrilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;Permaneci sentado, olhando pra cadeira vazia na minha frente. O garçom me ofereceu outra dose de vodca. Não aceitei. Não gosto de vodca.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-8788154656204432832?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/8788154656204432832/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=8788154656204432832&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/8788154656204432832'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/8788154656204432832'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2011/03/reentrancias.html' title='Reentrâncias'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-7010211446358800719</id><published>2009-08-19T17:56:00.030-03:00</published><updated>2011-12-06T11:41:08.178-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Entranhas</title><content type='html'>Era sonho, ela sabia. Mas sentiu o desespero que só se pode sentir acordado. A filha se desfazendo em lágrimas: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;“Me largou, mãe! E grávida! &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Grávida!&lt;/span&gt;”. Abraçava a pobrezinha, acariciava o barrigão de sete meses: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;“A mãe avisou. Não se deixa de ouvir a mãe”&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Acordou com a respiração obstruída, um aperto no peito. Encheu os pulmões&amp;nbsp;a muito custo e soltou uma lufada de ar pesada, grave. Sob os roncos do marido,&amp;nbsp;pulou da cama,&amp;nbsp;pousou os pés nos chinelinhos que dormiam ali do lado e seguiu arrastando-os até a cozinha, onde serviu-se dum copo d’água fria. Não terminou de beber. O aperto não dava trégua, seguia castigando suas têmporas, seu esôfago, suas pernas, que latejavam, tremiam.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Ajoelhou-se perante o sofá, o rosto enterrado no assento, os braços circundando a cabeça, as mãos crispadas: implorou aos céus que livrassem a filha daquele homem canhestro e desprovido de apelos que, sabe lá por intermédio de que mandingas, levou embora a guria que ainda ontem pedalava seu velotrol cor de rosa pelo quintal. Precisava fazê-la entender que abandonar a família por uma aventura, fosse com quem fosse, ainda mais com esse!, era uma violência das mais cruéis contra o coração duma mãe; e que, desde a primeira vez em que vira aquele rosto petulante, previra - com o mesmo instinto com que mães salvam filhos desde tempos imemoriais - que não se tratava de alguém confiável. Ninguém era, aliás. A filha, para muitos, sabia, não passava de uma moça de vozinha enjoada, exageradamente simpática, que carecia de dureza no trato para ganhar alguma solidez moral. Mas praquele homenzinho hediondo, sua menina era carne para consumo imediato – seios, coxas e nádegas compradas a quilo no açougue, onde não se pergunta pela história ou família do animal abatido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;“Deixa quebrar a cara”&lt;/span&gt;, dizia o pai, sem desviar os olhos da tevê. As irmãs não mediam as palavras: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;“Vagabunda. Sempre foi”&lt;/span&gt;. E a mãe corria do quarto pra sala, da sala pro quarto, procurando quem lhe escutasse; tudo em vão, posto que era mãe e estava sozinha na gestação de suas profecias. Ninguém participava de sua dor, de seu calvário, muito menos a filha que fingia – e na certa fingia! – ser feliz com aquele demônio, como se fosse possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alô. – disse a voz do outro lado da linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um arrepio lhe percorreu as vértebras de alto a baixo. Aquela voz grotesca, apática, inconfundível. Sabia que corria o risco de ouvi-la ligando assim, no meio da noite, mas resolveu apostar que a filha atenderia. Desligou. Não aceitava trocar uma palavra que fosse com aquele homem. &lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pouco depois, o telefone tocou de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mãe, já falei pra não desligar na cara do meu marido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marido. E essa agora?! Sete anos de namoro no sofá da sala, debaixo do olhar atento de pais, tios e primos; seguidos por dois anos de noivado casto, que teve como maior pecado os beijos que vez por outra se permitia receber no lóbulo da orelha; casou de branco na igreja, com todas as bênçãos celestes existentes e que ainda se hão de impetrar; padeceu durante décadas as aflições dum cotidiano monocromático que pouco a pouco tingiu de cinza o jovenzinho esbelto que lhe beijava as orelhas, transformando-o num buda de louça que não fazia nada além de berrar, brigar e roncar; tudo isso para ouvir uma pirralha chamar o primeiro malandro que achou na esquina de “marido”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A mãe sonhou com você, filha.&lt;br /&gt;- Não quero nem ouvir, mãe.&lt;br /&gt;- Esse daí te largava. Com um barrigão de sete meses.&lt;br /&gt;- Ah, mãe! Faça-me o favor!&lt;br /&gt;- Deus está avisando, filha.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Tempos depois, voltando do mercado, avistou um carro vermelho estacionado no portão. Nunca vira o tal carro, mas tinha certeza de que a filha viera nele. Faro, talvez, mas ela sabia. Apertou o passo. Correu. Mas antes que alcançasse ao portão,&amp;nbsp;saíram dele&amp;nbsp;o pai e ela, a filha. Estavam abraçados e riam, mas fecharam o rosto quando a viram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Entra, entra. Vou passar um cafezinho pra gente.&lt;br /&gt;- Não, mãe. Era coisa rápida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia argumentar, implorar para que ficasse um cadinho que fosse, mas a filha abraçou-lhe forte, tão forte, tão forte que sentiu os olhos marejarem. Saboreou aqueles braços, até ontem tão curtos, mas que agora lhe envolviam por inteira, os dedos magros apertando suas costas por sobre a blusa de viscose, o perfume de flor, os cachos do cabelo lhe tapando a visão feito persianas, enterrada que estava naquele pescoço branco e cheio de pintas, cujas posições trazia decoradas na memória como se fossem constelações, pois ficava admirando aquelas pintas sempre que a filha desmaiava de sono em seu colo e vez por outra ligava alguns pontos com hidrocor, só para vê-la acordar irritada – zanga de criança, dessas que logo passa, uma delícia –, para depois cair na gargalhada e começar ela própria a ligar os pontinhos naquelas pintas e descobrir mais e mais constelações que trazia no pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filha entrou no carro, o tal marido esperando ao volante. O carro arrancou, não demorando a desaparecer no fim da rua. A mãe permaneceu ali, observando o horizonte que reassumia lentamente a paleta de cores habitual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos, vamos. Entra. – alguém disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrou todos os demais reunidos na sala. Calados, solenes. Ali tinha coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Melhor falar duma vez. – disse uma das filhas.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Quer matar ela do coração? – retrucou o pai.&lt;br /&gt;- Ai, meu Deus! Aconteceu alguma coisa!? - exclamou &amp;nbsp;mãe, levando a mão ao peito.&lt;br /&gt;- Aconteceu, mãe. O fim do mundo. - disse uma das filhas&lt;br /&gt;- Fica quieta! - gritou o pai.&lt;br /&gt;- Fala logo! -, disse a mãe.&lt;br /&gt;- Ela está grávida. Pronto! Falei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desabou no sofá e se não houvesse sofá desabaria no chão e não faria a menor diferença pois o sofá lhe recebeu com a dureza duma lápide.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-  E como você não aceita o rapaz, eles vão se mudar pra São Paulo e ter o bebê perto da família dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permaneceu ali, caquinhos no sofá. Não ouvia mais nada. Provavelmente diziam coisas, mas ela não estava mais ali. Estava de novo no quintal, numa tarde morna de setembro, empurrando o velotrol cor de rosa, observando o balanço daquela cabecinha cacheada, as dobrinhas do pescoço cheio de pintas, o corpinho rechonchudo de bebê. Sentiu de novo aquele impulso louco de beijar, de apertar, de morder, de empurrá-la de volta ventre acima e senti-la uma vez mais dentro de si, misturada às suas entranhas.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-7010211446358800719?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/7010211446358800719/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=7010211446358800719&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/7010211446358800719'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/7010211446358800719'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2009/08/entranhas.html' title='Entranhas'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-9168965041031234050</id><published>2009-07-10T10:43:00.008-03:00</published><updated>2011-12-19T16:12:46.287-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Verde-Musgo</title><content type='html'>Recolocou o Dom Quixote de capa dura verde-musgo no lugar certo, que era junto aos demais clássicos verde-musgo que enfeitavam a estante e que jamais lera, e não ali, jogado no sofá, como o encontrava todos os domingos depois que Rosana ia embora; o livro no sofá, aquele ultraje, lembrança do sem-número de vezes que insistiu para que levasse a porra do livro pra casa duma vez. Mas Rosana continuava ali, esparramada no sofá, lendo durante horas e horas&amp;nbsp;num silêncio acintoso, quebrado apenas pelas risadas esporádicas que pareciam espirros de criança, intercalando longos momentos de uma respiração pesada, doída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este era o saldo de anos e anos dum relacionamento que apresentava a mesma temperatura fosse qual fosse a estação: ela lendo Dom Quixote no sofá da sala; ele no computador, alimentando janelinhas de bate-papo que piscavam, pulsavam, urgiam; todas carregadas do mistério, da excitação, da completude que jamais viria daquela mulher verde-musgo. Entre sala e quarto, um oceano, separando povos, formando culturas, línguas, moedas&amp;nbsp;em cada extremidade; o que no quarto se mostrava pulsante, na sala esmaecia, adquiria os tons&amp;nbsp;desbotados&amp;nbsp;da pele de Rosana, a insipidez de seu sorriso simétrico, a candura&amp;nbsp;enjoativa&amp;nbsp;de suas feições; ao transpor os umbrais que separavam os cômodos, via-se debaixo das luzes mornas da vida real, que expunham o ridículo de suas ereções sob a bandeja do teclado. Passava pela sala à toda, o pescoço rijo, mantendo a cozinha sempre diante dos olhos para não correr o risco de esbarrá-los nela, naquele corpo estranho que se apossara da sala, do sofá, dos livros que não deviam ter outra função que não enfeitar a estante. Quanto mais olhava para aquele rosto tão familiar, mais difícil era reconhecê-lo – a fisionomia lhe escapava; o nariz, a boca, os olhos, pareciam traços dum amor do passado, de vidas passadas; uma memória genética, gravada de fato nas células, mas sem afeto algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os fins de domingo, única lacuna que tinha para si, o lapso de tempo espremido entre Rosana e a hora do trabalho que já se aproximava, eram preenchidos por uma nostalgia imprecisa, uma espécie de inventário emocional que não encontrava bens a declarar; nada além daquele amor embolorado que carregava na carne feito uma invalidez. Terminava jogado no sofá, como celebrasse a retomada do território, lembrando dos amores de infância que deixara escapar por simples inanição, pela incapacidade de reconhecer para si mesmo que amava - e, putaqueopariu!, como amava - a priminha de segundo grau com quem passava os carnavais em família na casa de praia. Agora, décadas depois, reinterpretava os sinais que à época lhe pareciam tão nebulosos, tão indecifráveis, mas que, fossem eles mais didáticos, anulariam por completo aquele charminho bruto, o sofisticado denguinho de menina, aquele abismo de densas trevas que não exigia dele mais que um pequeno passo para engolí-lo, mastigá-lo e cuspí-lo uma outra coisa: um alguém experimentado nos mistérios que a mente simplória do menino não é capaz sequer de imaginar e para os quais a menina-mulher já conduz pela mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginou os filhos cândidos, desbotados e insípidos que sairiam de Rosana, todos aleijados do desejo, da chama, e para os quais não teria absolutamente nada a ensinar, pois quando o abismo lhe chamou à beira da praia, quando os adultos voltaram para casa e se viu sozinho com ela, o crepúsculo se desfazendo em manchas púrpuras por sobre o mar sonolento, as nuvens cinzentas orquestrando o golpe final no dia que agonizava, e viu aqueles olhos grandes e negros fixos nos seus, e os lábios zombeteiros disparando a pergunta fatal “já beijou?”, teve medo, sentiu os dedos dos pés queimando nos chinelos de borracha, o calor subindo pelas pernas, braços, ventre, ganhando o peito, o coração crispando, rompendo, tão quente era o sangue; viu-se pequeno, sozinho, perdido num mundo de trevas e mistérios profundos; e preferiu bancar o machinho, dando de ombros, fingindo não perceber que aqueles olhos chacoalhavam sua alma, embotavam seus sentidos virginais, condenavam-no à perdição eterna. Dormiu no sofá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-9168965041031234050?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/9168965041031234050/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=9168965041031234050&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/9168965041031234050'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/9168965041031234050'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2009/07/verde-musgo.html' title='Verde-Musgo'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-9087377495877374881</id><published>2009-04-28T14:51:00.003-03:00</published><updated>2011-08-19T17:02:54.833-03:00</updated><title type='text'>Vácuo</title><content type='html'>olhou praquele rosto de tantas lágrimas e risos e beijos e gozos e nada viu além do vácuo chato que fazia vista grossa a um passado que tinha medo de tornar-se justamente essa zona de emoções sedimentadas e inacessíveis que agora traziam o terror das coisas que passam e convidam para que junto delas passemos donde estamos pra onde já não seremos. olhou e tentou desenterrar coisas perdidas na dobra dos dias, mas estava além de suas forças. sentiu o torpor, o desespero. mais um fim, como tantos fins... sonhara com o momento em que se libertaria, mas liberdade não tinha gosto bom. tinha gosto de vela, de chuva, de crepúsculo dominical. não é assim, não é assim!, ela dizia, seremos felizes. mas as frases quebravam longe da praia. queria até dizer sim, seremos, perpétuos e felizes, mas olhava praquele rosto de tantas festas e luas e missas e orgias e via: estou só. via que a solidão era a única coisa permanente, que o vazio cedo ou tarde lhe visitaria com seu hálito mórbido e suas palavras sensatas. dizia adeus porque já tinha ido. há tempos. dizia adeus para si, mas as lágrimas dela velavam pelos dois.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-9087377495877374881?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/9087377495877374881/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=9087377495877374881&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/9087377495877374881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/9087377495877374881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2009/04/vacuo.html' title='Vácuo'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-6859628270947078047</id><published>2009-03-24T11:46:00.008-03:00</published><updated>2011-08-19T16:48:12.061-03:00</updated><title type='text'>Sangue no chão de taco</title><content type='html'>Ela entrou e as paredes tremeram. Seus olhos vidrados anunciavam meu fim. A visita era rápida, estratégica, tinha pressa. Viera me eliminar. Puxou um pequeno revólver da bolsa e me acertou bem na testa. Paf! Senti um impacto. Apaguei.&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Recobrei a consciência fitando as pás do ventilador de teto, que giravam, giravam. Ela sentada no chão, junto ao meu corpo, acariciando minha cabeça, beijando o buraco da bala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, como te amo! - ela disse, percorrendo carinhosamente o diâmetro do ferimento com a ponta do dedo. - Mas não tive escolha. A vida me chamou, benzinho. Quero o risco, quero o dano, quero colecionar dores diferentes das que você me causa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu sangue se espalhando lentamente pelo chão de taco, penetrando as gretas, ganhando o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nos amamos mais que qualquer casal já se amou. Nos amaríamos daqui a cem, duzentos anos! Por isso te matei. Porque preciso me perder na multidão, no comum. Tem um cara aí fora, na rua, me esperando. Ele é raso, não me desafia, não me acrescenta, mas ainda assim preciso me perder nos braços dele. Entende?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia me mexer, nem falar, nem pensar. Só me era permitido ouvir. Nem dor eu sentia. Ouvia e só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tive que escolher entre minha vida e a tua. Se ignorasse essa coisa berrando aqui dentro, mataria a mim mesma. O único jeito de me salvar foi sacrificando você, viver por intermédio do teu sangue. Você, meu cordeirinho pascal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela levantou e foi até a cozinha. Ouvi barulho de armários, gavetas. Voltou com fósforos e fluído de isqueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você será minha lembrança mais doce, meu idílio juvenil, a esperança do amor que não fracassa, que morre eterno, vigoroso. Por isso te matei, cordeirinho, porque te amo, porque te quero infinito, a trilha sonora da minha perdição, da minha dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Banhou meu corpo com o fluído, riscou o fósforo e ateou fogo. Me assistiu queimar por alguns minutos, num silêncio cerimonioso. Ouvi suas últimas palavras com alguma dificuldade, devido ao crepitar intenso da minha pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Serei eternamente grata a você, benzinho, por tudo, tudo, tudo. Não pense que sou ingrata! - e secou as lágrimas e abriu um sorriso. - Ah, que besteira a minha! Você sempre me entendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi embora, não sem antes desligar o ventilador. Fiquei ali, no chão de taco, queimando, enegrecendo, assistindo, por entre as labaredas, as pás do ventilador serem vencidas lentamente pelo ar.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-6859628270947078047?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/6859628270947078047/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=6859628270947078047&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/6859628270947078047'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/6859628270947078047'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2009/03/sangue-no-chao-de-taco.html' title='Sangue no chão de taco'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-4662813549818255037</id><published>2009-02-08T20:06:00.000-02:00</published><updated>2009-02-08T20:07:42.747-02:00</updated><title type='text'>Chove</title><content type='html'>E chove. Que o mundo se desfaça! Em pedaços, muitos, miúdos e odiosos. Desça sobre nós como lâminas tuas gotas, nos rasgue, nos fatie, nos lave da mentira. Foi-se mas deixou a chuva, na qual me perco, no aconchego frio, na doçura do fim. Levou no sorriso minha fé, mas deixou o rufar das trovoadas, no qual me acho. A chuva é a verdade! O crepitar das gotas no chão musicalizam o que antes era dor. Nos pingos-música, notas de ameaça, notas de promessa. Liquefeito, me desfaço no mundo, me diluo até não ser água sequer. Líquido, sou tua chuva de lágrimas que decretam a morte, saliva quente do teu beijo fatal. Chove e lava o mundo!, cobre o chão de prata e o céu de cinza fosco, nos livra do mal, afogue-a em correntes bravias. Faz-me chuva! E choverei com vigor, castigarei a cidade, inundarei as casas. Vai! Corre porque tenho a chuva! Liquefarei o mundo. Liquefarei a dor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-4662813549818255037?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/4662813549818255037/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=4662813549818255037&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/4662813549818255037'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/4662813549818255037'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2009/02/chove.html' title='Chove'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-4911814632344410469</id><published>2008-08-05T11:59:00.029-03:00</published><updated>2011-10-11T14:57:07.342-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Número 98</title><content type='html'>Ela tinha voz de desejo incubado. Voz de quem se esconde atrás de um rosto angelical e reserva sua devassidão para os desconhecidos, os anônimos, os que não querem vê-la sob a máscara da beatitude. Nos esbarramos num bate-papo por telefone. Eu, desempregado, barrigudo e com um quê de depressão, recebi aquela vozinha espevitada como uma dádiva dos céus. Passava minhas tardes de pau duro, ouvindo ela narrar aventuras sexuais. Ela disse que tinha pai empresário e mãe estilista, que tinha copeiro, jardineiro, cozinheiro,&amp;nbsp;motorista,&amp;nbsp;dois huskies siberianos e que passou as últimas férias no Taiti. Eu disse que era desempregado, barrigudo e com um quê de depressão. Ela riu. Disse que tenho senso de humor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ménage a trois, quatre, cinq, six. Ela já fez de tudo, em todas as posições, em todos os orifícios. Transou com mulheres, veados, gigolôs, travestis e com um surdo-mudo que bateu à sua porta vendendo drops. Pagou boquete pro motorista com o pai no banco de trás, entretido no caderno de esportes. O próprio pai tentou comê-la, mas ela não topou por achar seu pinto muito pequeno, apesar de ter saído de lá. Flagrou a mãe em altas surubas na sala de estar. E se juntou a elas, sem cerimônias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ficava esparramado no sofá, bebendo vinho barato e curtindo aqueles contos-de-fada pornográficos. Não, ela não tinha nenhum talento pra inventar as tais estórias, mas aquela vozinha aguda me deixava de pau duro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quando a gente vai se encontrar? - perguntei.&lt;br /&gt;- Não tá bom desse jeito?&lt;br /&gt;- Quando?&lt;br /&gt;- E se você for psicopata?&lt;br /&gt;- Quando?&lt;br /&gt;- Terça?&lt;br /&gt;- Não dá. Tenho entrevista de emprego.&lt;br /&gt;- É terça ou nunca!&lt;br /&gt;- Nunca.&lt;br /&gt;- Já te contei que pratico pompoarismo?&lt;br /&gt;- Já.&lt;br /&gt;- Então, vai trocar isso por um empreguinho miserável?&lt;br /&gt;- Quem te disse que é miserável?&lt;br /&gt;- Então vai pra tua entrevista!&lt;br /&gt;- Me dá o endereço.&lt;br /&gt;- Rua tal, número 98.&lt;br /&gt;- Me espera às cinco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O empreguinho era mesmo miserável. Além do mais, entrevista de emprego eu descolava duas por mês. Mulher não. Tinha certeza que comendo a garota todos os meus problemas estariam resolvidos. A barriga era na certa algum tipo de prisão de sêmen:&amp;nbsp;toda aquela porra entalada dentro de mim tinha que dar merda mais cedo ou mais tarde. Já o desemprego era um nítido problema de auto-confiança, porque os caras que fazem entrevistas de emprego lêem nos olhos&amp;nbsp;do candidato&amp;nbsp;há quanto tempo ele está sem comer ninguém. E a depressão, bem... Depressão é o cacete!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu precisava me sentir mais confiante, ainda que provisoriamente. Encontrei três livros empoeirados de Machado de Assis largados na estante e levei-os num sebo que tem lá perto de casa. O dono ficou maravilhado: eram edições clássicas, raríssimas, das primeiras editadas no Brasil. Me deu quinze reais. Saí de lá e entrei na lojinha de roupas que fica ao lado. Pequena, abafada e atulhada de caixas de papelão por todo canto. Parecia esquecida pelo tempo, nenhum traço do progresso humano dos últimos séculos, à exceção da lâmpada elétrica pendurada no teto, que iluminava parcialmente o rosto sepulcral da velha de cento e cinquenta anos que atendia no balcão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quero uma sunga. - eu disse.&lt;br /&gt;- Tamanho? - perguntou a velha com voz de além-túmulo.&lt;br /&gt;- Médio. - respondi.&lt;br /&gt;- Prazer, Nélio.&lt;br /&gt;- Médio! - gritei.&lt;br /&gt;- Claro, claro...&lt;br /&gt;- Quero aquele outro modelo ali.&lt;br /&gt;- Tipo shortinho?&lt;br /&gt;- Caralho... É, tipo shortinho.&lt;br /&gt;- Toma, meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pus a sunga na frente da corpo pra ver como ficava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A senhora acha que vou ficar sensual nela? - perguntei.&lt;br /&gt;- Com esse barrigão de verme? - e soltou uma gargalhada de bruxa maligna.&lt;br /&gt;- Quanto custa essa merda?&lt;br /&gt;- Quinze reais.&lt;br /&gt;- Literatura é pano de bunda mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Larguei o dinheiro no balcão e fui embora. Nada abalaria minha auto-estima revigorada pela nova sunga-shortinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia marcado, saí de casa com bastante antecedência. Não queria me atrasar. Afinal, a guria podia ser mentirosa, mas com aquela imaginação pervertida alguma diversão nós teríamos. Cheguei na tal rua, número 98, lado par. Um casa baixa, a pintura estourada pelas infiltrações, um portãozinho corroído, um caminho de concreto&amp;nbsp;rachado até a porta. Bati palmas. Um garotinho de oito anos apareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chama lá tua irmã. - falei, fazendo voz de homem.&lt;br /&gt;- Não tenho irmã.&lt;br /&gt;- Tua mãe, que seja.&lt;br /&gt;- Não tenho mãe.&lt;br /&gt;- De alguma buceta você há de ter saído.&lt;br /&gt;- Sou filho da vovó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que bonitinho. E lá veio a velha caindo as pedaços, cacarecando e rangendo feito um Fusca 68.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você quer, seu maníaco? - disse a velha bruxa; eu já estava me acostumando com elas.&lt;br /&gt;- Aqui é rua tal, número 98?&lt;br /&gt;- Depende. O que você quer?&lt;br /&gt;- Estou procurando uma garota chamada...&lt;br /&gt;- Meu filho, se você não veio comprar baseado, é melhor se mandar ou leva tiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dos fundos da casa surgiram dois capangas enormes. Saí correndo. Peguei o telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sua vagabunda, você não mora na porra do 98!&lt;br /&gt;- Moro sim.&lt;br /&gt;- Então sai agora.&lt;br /&gt;- Não tô em casa.&lt;br /&gt;- Vagabunda!&lt;br /&gt;- Aconteceu uma emergência. Não fica bravo comigo.&lt;br /&gt;- Eu estou no 98! Só tem uma velha bruxa e dois gorilas vendendo maconha.&lt;br /&gt;- Moro sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E desligou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá estava eu, sozinho numa rua deserta, à procura de um personagem doentio, fruto da falta do que fazer vespertina de uma guria pirada. Onde o pau de um homem não o leva! Fui caminhando lentamente na direção do ponto de ônibus, tentando aplacar a vontade que me deu de cortá-lo fora. Reparei que a tal rua era feita só de casas e sobrados. Parecia rua do século dezenove ou coisa assim. Mas na rua de trás, quase como um obelisco fálico, havia um prédio residencial de uns vinte andares. Comecei a observar aquela enorme massa de concreto fincada entre as casinhas coloridas. Destoava, era feio. Lá pelo quinto andar, um vulto que estava na sacada correu para dentro do apartamento. Foi rápido, mas deu pra ver claramente que se tratava de uma mulher... De uma mulher jovem... De uma mulher jovem que me observava. Filha da puta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui correndo que nem louco para a rua de trás. Quando cheguei ao tal prédio, a surpresa: número 98. A louca me deu o número certo na rua errada. Na certa queria me ver sem correr nenhum risco. Pensei em chamar o porteiro e perguntar pelo nome dela, mas quem garante que ela me deu o nome certo? Atravessei a rua, entrei numa lanchonete bem limpinha que tinha em frente, daquelas com laranjas e melões pendurados na parede, e pedi uma cerveja. Bebi lentamente. Uma, duas, três cervejas... A garota desceu. Quer dizer, era bem parecida com o vulto que vi correr da sacada. Joguei uma nota de dez sobre o balcão e fui atrás dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passava das seis. A noite já havia derrotado o dia. Fui seguindo a menina a uns dez passos de distância. Parecia ter seus dezoito. Vestia calça jeans e uma blusinha vermelha. Não era baixa, tinha cabelos castanhos escorridos até a cintura e uma bunda enorme. Andava serelepe, rebolando pra lá e pra cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saquei o celular, liguei pra ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oi, amorzinho! - ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, aquela vozinha aguda, espivitada, inconfundível! Apertei o passo, cheguei perto, puxei-a pelo braço:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oi, amorzinho. - eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina entrou em transe, começou a se tremer toda, fora de controle. Chorava, implorava, berrava. O rostinho angelical em puro pavor. Parecia diante da morte, do mal, do diabo, do fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me deixa! Eu não fiz nada! - ela gritava, as lágrimas escorrendo aos rios.&lt;br /&gt;- Ei, calma. Escuta...&lt;br /&gt;- Eu sou virgem! Me solta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conseguiu se desvencilhar dos meus braços e caiu no chão numa convulsão histérica. Parece ter batido com &amp;nbsp;a cabeça em alguma coisa. E parou. Sorte minha daquelas ruas serem desertas. Quem acreditaria em mim quando eu dissesse que aquele rostinho virginal dera sentido às minhas tardes vazias com a devassidão que guardava nas cisternas da alma? Deixei-a lá, estendida no chão e corri o quanto pude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas tardes voltaram a ser o que eram antes: sofá, vinho barato e um quê de depressão. A vida às vezes pode ser uma merda. E a merda sempre pode feder mais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-4911814632344410469?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/4911814632344410469/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=4911814632344410469&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/4911814632344410469'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/4911814632344410469'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2008/08/nmero-98.html' title='Número 98'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-4406109466420273532</id><published>2008-07-31T18:51:00.009-03:00</published><updated>2008-10-30T17:21:38.272-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Véus do Tempo</title><content type='html'>O clima pesou no boteco. Os crentes com suas bíblias e folhetos evangelísticos não arredavam pé. Os bebuns já estavam prestes a perder as estribeiras. Versículos sagrados e palavrões disputavam cada milímetro cúbico de ar. Todos suavam. Num canto, sentado, com uma enorme barriga caindo sobre as coxas, garrafa de pinga à mesa, um senhor de barba grisalha assistia ao furdunço. Tinha um quê de volúpia no rosto. Observava fixamente uma senhora baixinha, na casa dos cinquenta, de cabelo armado com laquê, trajando saia e casaquinho abotoado, com um broche dourado em forma de pombo espetado na lapela. Era quem coordenava o grupo. Esbanjava confiança, gesticulava, contemporizava, sorria. A mais xingada e a que mais sorria. Um sorriso franco, doce, que revelava suas fileiras de dentes amarelados pelo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morena! - disse o barbudo, com uma voz grave, imponente, que parecia não sair de sua boca, como que dublado por alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora baixinha estancou. Parecia que haviam lhe puxado da tomada. O bate-boca cessou. Os crentes passaram a observá-la com curiosidade, tentando descobrir se haveria alguma mudança de estratégia no embate. Os bebuns também se calaram. Queriam saber o que de tão horrendo havia sido dito, já que esgotaram seu repertório de xingamentos e nada tirara o sorriso daquela mulher. A senhora aproximou-se lentamente do homem barbudo enquanto a expectativa enchia o lugar de silêncio. O homem barbudo se levantou meio cambaleante e a mulher o abraçou calorosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aleluia! Aleluia! - gritavam os crentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem barbudo tomou o rosto da mulher entre as mãos e afundou-se nele, num beijo fumegante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caralho, mas que porra é essa? - perguntou um dos bêbados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um crente alto, mulato e corpulento, de camisa social fechada nos punhos e no pescoço, saiu dentre a multidão e separou os dois com rispidez, jogando o barbudo contra a parede e postando-se diante dele, como quem espera qualquer movimento para desferir o golpe fatal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eliezer, calma! Eu conheço. - disse a senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois saíram do bar e sentaram-se nuns banquinhos da praça que ficava em frente ao botequim. Eliezer e os outros crentes sentaram num grupo de banquinhos mais afastado e estudavam atentamente cada movimento dos dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esses putos vão ficar ali? - perguntou o barbudo.&lt;br /&gt;- Eliezer é meu marido. - respondeu a senhora baixinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O barbudo caiu na gargalhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabia que tu ia casar, morena. Eu sabia.&lt;br /&gt;- Demorei anos até...&lt;br /&gt;- Teve filho?&lt;br /&gt;- Dois. Bianca e Maikon.&lt;br /&gt;- Porra! Meu filho nunca se chamaria Maikon.&lt;br /&gt;- Foi Eliezer que escolheu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os bebuns vieram para a porta do botequim. Apontavam, gesticulavam e gritavam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha o corno lá! - e apontavam para Eliezer. - Cansou de pregar, chifrudo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eliezer bufava, o suor lhe encharcava o colarinho da camisa. Levantou seu corpanzil do banquinho onde estava e caminhou em passos épicos na direção da mulher. Antes que dissesse palavra, foi interrompido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse é o Almir. Lembra? - disse a senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eliezer hesitou. Olhou desconfiado. Parecia diante de um personagem de ficção. Almir limitou-se a dar mais uma golada na garrafa de pinga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Almir... Pensei que já tivessem te matado. - disse Eliezer.&lt;br /&gt;- Deus bem que tentou.&lt;br /&gt;- Talvez faltasse só o instrumento.&lt;br /&gt;- Tá falando contigo, morena.&lt;br /&gt;- Pára de chamar minha mulher de morena. O nome dela é Laura! Laura! Tá me entendendo?&lt;br /&gt;- Calma, Eliezer. - interveio Laura - Ele está bêbado. Não tá vendo?&lt;br /&gt;- Você tem dez minutos. - disse Eliezer, afastando-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almir deu outra golada na garrafa. Laura o observava com olhar maternal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porra, você acabou comigo. - disse Almir.&lt;br /&gt;- Mas tentei de tudo pra salvar tua alma.&lt;br /&gt;- Minha salvação era você.&lt;br /&gt;- Almir!&lt;br /&gt;- Não vem com esse papo de mulher casada.&lt;br /&gt;- Tentei ou não tentei?&lt;br /&gt;- Egoísta! Vocês são todos uns egoístas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio, à exceção de uma brisa que assobiou sobre a praça. Almir observava os efeitos do tempo no rosto de Laura. As bochechas antes rijas agora estavam como que derretendo. Os olhos pareciam tristonhos, com pequenos sulcos se formando nas pálpebras, e a boca de lábios pontudos e ariscos, um convite aviltante ao pecado, havia se transformado numa rosa murcha, sem cor. A vitalidade pulsante da alma de Laura ainda estava lá, patente, perene, mas encoberta pelos pesados véus do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabe, - disse Laura, distante, pensativa, apertando os olhinho sulcados - segui aquilo que eu acreditava. Mas às vezes me pergunto, mesmo assim, se foi o certo.&lt;br /&gt;- O certo às vezes é seco, amargo.&lt;br /&gt;- Amargo como a morte.&lt;br /&gt;- Não chora, vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eliezer apareceu novamente e pegou Laura pelo braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vambora, anda. - disse.&lt;br /&gt;- Olha quanto bêbado tem ali pra tu pregar. - intrometeu-se Almir. - Não enche a porra do saco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buf! Foi um soco de mão fechada bem no meio do rosto. O punho de Eliezer era uma grande massa marrom, calejada e disforme. Almir caiu de costas no chão e ali ficou, com o rosto banhado em sangue. Os bêbados do outro lado da rua se alvoroçaram. Parecia gol do Flamengo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O corno se revoltou! Êeeeee! Uhuuuu! - gritavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros crentes abandonaram seus banquinhos e correram à toda. Os homens chegaram num pulo e trataram de cercar Eliezer. As irmãs corriam como podiam, batendo as perninhas dentro dos saiões e arrastando as sandalinhas na terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se controla, vaso de Deus. Olha o testemunho! - disse um dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eliezer tentava se desvencilhar da confusão que se formou à sua volta, mas não conseguia. Havia crentes por todos os lados, uns repetindo palavras de consolo, outros de repreensão, mas todos falando ao mesmo tempo, sem que se pudesse entender palavra. Quanto mais Eliezer se agitava na tentativa de escapar, mais lhe seguravam. Era um besouro caído num formigueiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encoberta pelo tumulto, Laura, de joelhos no chão de terra batida, sustentava o tronco de Almir entre os braços, numa pietá de beleza inefável e maldita.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-4406109466420273532?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/4406109466420273532/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=4406109466420273532&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/4406109466420273532'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/4406109466420273532'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2008/07/vus-do-tempo_31.html' title='Véus do Tempo'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-907833271648816442</id><published>2008-07-28T15:24:00.013-03:00</published><updated>2011-04-16T20:35:26.586-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Papo de Mulher</title><content type='html'>- Homem gosta de ouvir sacanagem no pé do ouvido!&lt;br /&gt;- De que tipo?&lt;br /&gt;- Me come até o talo!&lt;br /&gt;- E mais o quê?&lt;br /&gt;- Só conheço essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as duas caminhavam pela rua, compartilhando o restinho do último cigarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas é pra dizer com carinho?&lt;br /&gt;- Ele tem que achar que você perdeu o controle.&lt;br /&gt;- E se perdeu?&lt;br /&gt;- Você para de fingir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o cigarro acabou. E elas jogaram no chão da rua, estando a poucos passos da lixeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E se ele me achar uma vadia?&lt;br /&gt;- O sonho de todo é ter uma santinha vadia.&lt;br /&gt;- Santinha ele acha que eu sou.&lt;br /&gt;- Metade do caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um velho decrépito passou por elas e olhou com cara de lobo babão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Homem é um bicho complicado.&lt;br /&gt;- Acho tão simples.&lt;br /&gt;- Simples que chega assusta.&lt;br /&gt;- Queria ter nascido homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pediram um cigarro ao velho decrépito. O velho deu dois. E acendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tive um ex que só gozava se eu gemesse.&lt;br /&gt;- Ai, que saco!&lt;br /&gt;- Gravei meus gemidos e dei pra ele. Foram duas semanas de paz.&lt;br /&gt;- E depois?&lt;br /&gt;- Ele terminou. Tinha tudo que precisava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho decrépito tentava alcançá-las, mas eram rápidas demais para ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já traiu?&lt;br /&gt;- Já.&lt;br /&gt;- É melhor?&lt;br /&gt;- É.&lt;br /&gt;- Uhm...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentaram num banco de praça. Cuspiam a fumaça no ar em forma de círculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que tô amando.&lt;br /&gt;- Ai, que legal!&lt;br /&gt;- Será que ele me ama?&lt;br /&gt;- Faz diferença?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cigarros chegaram ao fim. Jogaram no chão e pisaram sobre eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será que é pra sempre?&lt;br /&gt;- Pouco sexo pra uma vida inteira.&lt;br /&gt;- Mas homem só pensa em sexo!&lt;br /&gt;- Se todo ele fosse com você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho decrépito quase conseguiu alcançá-las, mas foi interceptado por uma velha que lhe dizia poucas e boas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Melhor mudar de assunto.&lt;br /&gt;- Porquê?&lt;br /&gt;- Vão pensar que somos homens.&lt;br /&gt;- É verdade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-907833271648816442?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/907833271648816442/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=907833271648816442&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/907833271648816442'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/907833271648816442'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2008/07/papo-de-mulher.html' title='Papo de Mulher'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-343233063574490468</id><published>2008-07-23T14:50:00.024-03:00</published><updated>2011-04-06T18:07:55.048-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Do Tamanho do Mundo</title><content type='html'>Felipe sentia nos lábios o gosto do talento. Desde criança achava que seus dez em português eram prenúncio de algo maior. Gostava de ler grandes autores e de escrever poesias em seu blog enquanto os colegas torciam por seus times no Maracanã e enrabavam vadias no banco de trás de seus carros. Acompanhava diariamente as estatísticas de acesso de suas poesias e verificava constantemente a chegada de novos comentários, que eram sempre elogiosos, empolgados, bons de se ler. Na faculdade, conseguiu um leitor fiel para seus textos: Danilo, um magrelo, alto, com cara de manga chupada e que falava pelos cotovelos. Era chato até cansar, mas gostava de suas poesias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe entrou no banheiro da faculdade. Haviam dois mictórios. Num deles mijava Paulão, colega de classe barbudo, de voz grave e pouco dado a sorrisos. Felipe parou diante do outro mictório, abriu a braguilha e começou a mijar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Li algumas de suas poesias. - disse Paulão.&lt;br /&gt;- Sério, cara? E aí? - perguntou Felipe.&lt;br /&gt;- Achei uma merda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frase parecia ter sido dita num megafone. Felipe sentiu a pele queimar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não faz parte do meu público. - disse.&lt;br /&gt;- O público da merda é a latrina. - finalizou Paulão, balançando o pau e virando as costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A urina de Felipe parou de sair. Era a primeira vez que falavam assim do que escrevia. Ficou ali, estático, de pau na mão, olhando para o mármore do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou a parir poesias como quem tem os dias contados. Tudo virava poesia: cocô de cachorro na calçada, pelo de barba na pia do banheiro, zunido de lâmpada fluorescente, reflexo de sol em vidro de carro. Escrevia com fúria, com desejo, forçando as emoções como cortasse a própria carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que tá havendo contigo? - perguntou Danilo.&lt;br /&gt;- Nada.&lt;br /&gt;- Você mudou seu jeito de escrever.&lt;br /&gt;- Mudei não.&lt;br /&gt;- Tá escrevendo em maior quantidade também.&lt;br /&gt;- Nada que preste.&lt;br /&gt;- Mostrei algumas poesias suas pra Carina. Ela adorou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe tentou conter o sorriso mas não conseguiu. Sempre idealizou a imagem do artista resignado que exerce seus dons por uma espécie de obrigação divina. Nada de glamour, glórias e flashes. Mas o sorriso que ganhou seus lábios veio com uma avalanche de prazer. Tentava falar, mas sorria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Carina... Carina? - perguntou Felipe.&lt;br /&gt;- É, a professora de filosofia.&lt;br /&gt;- Bonita ela, né?&lt;br /&gt;- Bonito sou eu, ela é maravilhosa!&lt;br /&gt;- E ela gosta de poesia?&lt;br /&gt;- Da sua, gosta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou muito para que Carina viesse procurá-lo. Era uma loira oxigenada bem pra lá dos trinta, mas com um corpo que tirava todos os alunos do prumo. O número de espectadores em suas aulas sempre variava de acordo com o tamanho do decote que usava. Não que fossem vulgares, mas seus seios eram tão generosos que qualquer cortezinho na blusa se tornava um espetáculo da natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sua poesia tem uma métrica bacana, sabe? - disse Carina.&lt;br /&gt;- Você é a primeira a reparar.&lt;br /&gt;- Já pensou em publicar?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Devia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publicar. Ser lido. Reconhecido. Talvez realmente, efetivamente, tivesse algum talento. Era questão de tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu ex-marido tem uma revista independente.&lt;br /&gt;- Revista?&lt;br /&gt;- Publica umas matérias, contos, poesias... Mas só escritor independente. É ele quem seleciona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente as engrenagens do universo começavam a girar. Seus dez em português não podiam ser em vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Telefonou no dia seguinte para Nelson, o ex-marido de Carina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, eu escrevo poesias. - disse Felipe ao telefone.&lt;br /&gt;- Hum...&lt;br /&gt;- Como eu faço pra te mostrar?&lt;br /&gt;- Vamos beber.&lt;br /&gt;- Hã?&lt;br /&gt;- Beber, cacete. Vamos beber!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontraram-se num boteco fétido na Lapa. Ali perto haviam bares sofisticados que tocavam samba tipo exportação para gringos perfumados, mas Nelson preferiu sentar debaixo dos arcos, em meio ao cheiro cáustico de camadas sobrepostas de uréia ressequida. Sentaram na calçada, entre maconheiros, putas e travestis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É daqui que vem a poesia - berrou Nelson - do ventre da humanidade! - e virou a garrafa de uísque na boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe não sabia como se comportar diante daquela figura grosseira. Se perguntava o que Carina, a deliciosa professorinha de filosofia, havia visto nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já comeu travesti? - perguntou Nelson.&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;- É bom... São menos frescos. Toma uma gole.&lt;br /&gt;- Não bebo uísque.&lt;br /&gt;- Bebe o quê?&lt;br /&gt;- Vinho.&lt;br /&gt;- Veadagem, hein? Compra uma garrafa ali então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe se levantou e foi até o boteco em frente. Um gordo de cabeça chata e com a metade da barriga escapando por baixo da camisa surrada o atendeu. Felipe perguntou as marcas de vinhos disponíveis e o gordo soltou uma risada irônica. Só havia uma e Felipe nunca tinha ouvido falar dela. Comprou o vinho e voltou para junto de Nelson, que a essa altura já havia acabado com metade da sua garrafa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não come traveco e não bebe uísque. O que você faz então? - perguntou Nelson.&lt;br /&gt;- Escrevo poesia.&lt;br /&gt;- Sobre o quê?&lt;br /&gt;- A vida.&lt;br /&gt;- A vida é um cú. Do tamanho do mundo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe queria ir embora daquele lugar. Foi quando passou um travesti num salto-plataforma multicolorido. Era negro, tinha batom vermelho capeta nos lábios e uma peruca loura de fios desgrenhados na cabeça. Suava e fedia como um cão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Senta aqui, docinho. - disse Nelson, puxando o travesti que caiu em seu colo. Suas coxas grandes, azuladas, com pelos que despontavam aqui e ali, revelavam a musculatura masculina. - Preciso que você ensine alguns truques pra esse meu amiguinho poeta.&lt;br /&gt;- Nelson, você está passando dos limites. - disse Felipe.&lt;br /&gt;- A poesia não tem limites, baby.&lt;br /&gt;- E o que você entende de poesia?&lt;br /&gt;- Mais do que você entende de trocar suas próprias fraldas, seu merdinha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe levantou e começou a andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Garoto! - chamou Nelson.&lt;br /&gt;- Que foi?&lt;br /&gt;- Vai beber essa merda?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Então deixa aqui. Meu uísque tá acabando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe voltou, entregou-lhe a garrafa de vinho e foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, ao entrar na sala de aula, se surpreendeu ao ser alvo de todos os olhores. Na lousa, uma poesia sua escrita com caneta marcadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Palmas pro poeta! - gritou Danilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto meia-dúzia acompanhou Danilo nas palmas, o restante permaneceu olhando a cena num misto de curiosidade e sarcasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Conseguiu publicar a merda das tuas poesias, cara? - perguntou um aluno no meio sala.&lt;br /&gt;- Se o que você escreve é isso aí que tá no quadro, tomara que não tenha conseguido - disse outro.&lt;br /&gt;- Ai, gente. Quer parar? Eu gostei. - disse uma menina do canto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a sala converteu-se num único e caótico debate sobre as poesias de Felipe. Todos falavam ao mesmo tempo, uns defendendo, outros atacando. Ninguém ali tinha grandes interesses por poesia, mas por polêmica sim. Danilo era o mais efusivo. Gritava e colocava o dedo na cara dos opositores. Paulão permanecia sentado, quieto, observando tudo ao redor com o queixo cabeludo apoiado sobre as mãos. De repente levantou, caminhou na direção de Danilo e desferiu-lhe um soco na boca do estômago. Silêncio súbito e absoluto. A única coisa que podia se ouvir eram os gemidos fracos de Danilo arqueado no chão. Paulão olhou na direção de Felipe, que continuava estático na mesma posição desde que entrara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E você?! - perguntou Paulão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe ergueu as mãos espalmadas como quem diz: "Não fiz nada, sou frouxo, não precisa me matar".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Apaga essa merda do quadro! - ordenou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe caminhou até a lousa num passo lento, resignado, de viúva que segue cortejo fúnebre. Tomou o apagador e passou-o sobre aquelas frases que conhecia tão bem. Lembrava da escolha de cada palavra, preposição, vírgula, quebra de linha. Podia escrevê-las de cabeça. Podia escrever um livro sobre cada uma delas. Mas apagou. E nunca mais voltou a escrever.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-343233063574490468?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/343233063574490468/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=343233063574490468&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/343233063574490468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/343233063574490468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2008/07/do-tamanho-do-mundo.html' title='Do Tamanho do Mundo'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-4171440276664700464</id><published>2008-07-21T09:36:00.026-03:00</published><updated>2011-11-21T18:27:06.176-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade</title><content type='html'>Meu trabalho era ficar sentado na frente de um computador e recepcionar cretinos fracassados sofrendo do último resfolegar de esperança capitalista. O chamariz era um cartaz que o nosso curso espalhou pela cidade com a foto de um cara branco, bem vestido e com sorriso cepacol, oferecendo curso profissionalizante gratuito. Mas não bastava vir até aqui e pedir o curso. No cartaz dizia que era preciso repetir a frase: "Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade". Ou seja, além do cabra não passar de um fodido procurando salvação em cartazes publicitários, ainda tinha que desperdiçar sua última gota de dignidade afirmando em alto e bom som que não podia pagar pelo curso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas até que a promoção veio em boa hora. As coisas andavam meio monótonas e eu acabava passando a maior parte do meu dia escrevendo estórias de sacanagem. Sim, escrevia estórias bem sacanas e enviava por e-mail para minhas colegas de trabalho, para que elas pensassem que eu era bom de cama e resolvessem me dar. Nunca funcionou, mas soube que a Carlinha do administrativo se masturbou com minha estória sobre uma suruba no circo, envolvendo anões, macacos e mulheres barbadas. Foi o máximo que consegui. Quando perguntei se ela queria sair comigo, a desgraçada respondeu que entre dar pra mim e pro anão do circo, preferia o anão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só sei que depois desses cartazes o curso começou a ficar movimentado. De cinco em cinco minutos entrava alguém e recitava a maldita frase. Aí eu pegava um formulário de quatro longas páginas, que perguntava de tudo, até se o cara tinha oxiúrus, e dava para o fracassado em questão preencher. Mas como eu só tirava seiscentas pilas naquela merda de emprego e a maior promoção que eu poderia conseguir era para o administrativo, onde eu ganharia cem pilas a mais e passaria o dia digitando aqueles malditos formulários pra saber quem tinha oxiúrus, resolvi me divertir um pouco. O cartaz dizia pra pessoa repetir a tal frase, mas não fomos orientados pela direção a exigir isso. Só que os cretinos que apareciam ali eram tão derrotados que arriariam as calças se eu mandasse. Mal sabiam que o tal curso gratuito era uma introdução pro curso de verdade, que era - adivinha! - pago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá pelo meio da tarde, entrou um senhor grisalho de roupa social, aparência digna e ar respeitoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom dia, meu jovem. Estou interessado naquele curso gratuito que foi anunciado.&lt;br /&gt;- E a frase?&lt;br /&gt;- Que frase?&lt;br /&gt;- Tem que dizer a frase.&lt;br /&gt;- Do anúncio? Desculpe, mas não me lembro.&lt;br /&gt;- Lá diz que tem que repetir a frase.&lt;br /&gt;- E qual é?&lt;br /&gt;- Não posso dizer.&lt;br /&gt;- Mas que diferença faz? É só uma frase.&lt;br /&gt;- Regras são regras.&lt;br /&gt;- Eu vi o anúncio num outdoor, mas não me lembro aonde.&lt;br /&gt;- Tem um na Monsenhor Félix.&lt;br /&gt;- Tão longe?&lt;br /&gt;- E nesse sol, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi nos olhos dele o desejo primitivo de mandar eu me foder, mas não mandou. Saiu porta afora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco depois, apareceu uma gorda de uns vinte e poucos anos. Nossa! Vinte anos e gorda. Os melhores anos de uma mulher soterrados debaixo de toneladas de gordura.&amp;nbsp;Fiquei me perguntando se alguém a comia. Duvido.&amp;nbsp;Na melhor das hipóteses vai se casar&amp;nbsp;aos trinta,&amp;nbsp;virgem, com um cara que enjoou de comer garotas magrelas e resolveu comprar uma casa financiada e um cachorro de petshop. Para uma vida dessas, nada melhor que uma esposa gorda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quero Ganhar Educação de Qualidade Gratuita e Profissionalizante.&lt;br /&gt;- Tá errado.&lt;br /&gt;- O que tá errado?&lt;br /&gt;- A frase. Não é assim.&lt;br /&gt;- Como não? Eu decorei!&lt;br /&gt;- Escuto essa frase mil vezes por dia. Sou capaz de dizê-la tendo um orgasmo.&lt;br /&gt;- E como é?&lt;br /&gt;- Pra ter um orgasmo? Emagrece.&lt;br /&gt;- Como é A FRASE!?&lt;br /&gt;- Não posso dizer.&lt;br /&gt;- Já sei! Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade.&lt;br /&gt;- Agora sim.&lt;br /&gt;- Onde eu preencho?&lt;br /&gt;- Já era. É uma chance só.&lt;br /&gt;- Não diz isso no anúncio!&lt;br /&gt;- Minha querida, numa boa, chega aqui pertinho de mim... Pra que nós vamos gastar dinheiro profissionalizando alguém que não consegue decorar uma frase de oito palavras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu batendo a porta. Incrível como ninguém mandava eu me fuder. Meia-hora depois o senhor grisalho voltou. Tinha a testa, o pescoço e a camisa encharcadas de suor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor está fedendo. - eu disse.&lt;br /&gt;- Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade.&lt;br /&gt;- Preenche isso aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou lá, escrevendo e bufando e pingando e empesteando a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nunca conheci alguém tão desprezível quanto o senhor. - ele disse.&lt;br /&gt;- Sabe, acho que vou usar sua ficha de cadastro pra limpar a minha bunda.&amp;nbsp;- eu disse. E me levantei.&lt;br /&gt;- O senhor... O senhor me desculpe.&lt;br /&gt;- E não é que meu deu vontade de ir ao banheiro? - e ergui a ficha dele no ar.&lt;br /&gt;- O que mais o senhor quer? Que eu beije seus pés? Eu beijo!&amp;nbsp;Eu beijo!&lt;br /&gt;- Tudo bem. Pode ir. Vou entregar sua ficha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem continuou ali, parado, me olhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pode confiar, caralho! Eu tô falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem deu uma dúzia de passos vagarosos para trás, sem tirar os olhos da ficha, que eu mantinha suspensa no ar,&amp;nbsp;até finalmente cruzar a porta, de costas. Assim que sumiu, rasguei a ficha e joguei no lixo. Saibam que isso foi um ato de respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias depois eu estava empolgado com minha nova estória sobre russas peitudas e americanos retardados que se encontravam numa estação espacial e faziam suruba em gravidade zero. A Carlinha do administrativo ia se amarrar! Eram quase oito da noite e eu estava sozinho no curso. O gerente tinha saído mais cedo e pedido para eu fechar tudo. Faltava pouco para eu terminar mais uma obra-prima da putaria literária bagaceira. Bem na hora que a porra ia flutuar no espaço, entraram duas garotas correndo pela porta, saltitando e sorrindo feito gazelas no cio. Com sorte tinham seus dezoito. Queimadinhas de sol, cabelinhos longos, calças apertadinhas, topzinhos coloridos tensionando os seios recém inflados pela mamãe-natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fechou? - perguntou a mais gostosa.&lt;br /&gt;- Fechou. - respondi, sem olhar pra cara dela.&lt;br /&gt;- A gente veio se cadastrar naquele curso gratuito. - disse a menos gostosa.&lt;br /&gt;- E a frase?&lt;br /&gt;- Eu não disse que precisava da frase? Eu disse! - disse a menos gostosa à mais gostosa. - Vamos ter que voltar amanhã.&lt;br /&gt;- Hoje era o último dia da promoção. - eu disse, mas era mentira, claro.&lt;br /&gt;- Ai, meu pai vai me matar! - disse a mais gostosa - Ele passou o mês inteiro mandando pra eu vir aqui. Sério. Ele vai me matar!&lt;br /&gt;- O meu também. - disse a menos gostosa.&lt;br /&gt;- Nesse caso, acho melhor vocês se refugiarem lá em casa. - eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas soltaram uma risadinha de mamãe-quero-ser-puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então, - falou a menos gostosa (que a essa altura também já era gostosa pra caralho, ou era o sangue que me faltava no cérebro por estar indo aos litros rumo aos países baixos) - você tem como inscrever a gente, assim, tipo, se você quiser, né?&lt;br /&gt;- Mas por que eu ia querer um troço desses?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, o resto vocês podem imaginar. Não, não podem! Eu levei as duas pra sala do chefe. E garanto que não tem coisa melhor nesse mundo que comer duas molecas safadas na sala do seu chefe. Melhor que gravidade zero, melhor que suruba no circo. E elas ACABARAM comigo. Eram loucas, insaciáveis. Bocas, pernas, mãos e línguas me derrotando a cada instante. Num dado momento, as duas desistiram de mim e ficaram lá, se pegando entre elas, enquanto eu, jogado no canto, sugado, extenuado, seco até o talo, só gemia e pedia clemência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dias depois, o chefe me chamou na sala dele. Sempre que ele chamava alguém na sala dele era pra mandar embora. Não tinha erro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seremos processados por duas garotas que afirmam ter sido coagidas a fazer sexo em troca do curso gratuito.&lt;br /&gt;- E?&lt;br /&gt;- Você fez sexo com elas?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- E diz isso com essa cara deslavada?!&lt;br /&gt;- O senhor também comeria.&lt;br /&gt;- Eu sou pai de família! Veja lá como fala!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não conseguia ficar nervoso nem nada. Ele estava sentado na mesma cadeira que eu quando as duas rebolaram em cima de mim com suas bundinhas queimadas de sol. Na mesa onde ele repousava os cotovelos, as duas tinham se lambido feito loucas. Aquela sala só me trazia boas recordações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você nos deve um pedido público de desculpas! - ele gritou. - Meu telefone não para de tocar! São dezenas de acusações de constrangimento, humilhação e o diabo.&lt;br /&gt;- Eu vou ser mandado embora?&lt;br /&gt;- Mas o que você acha? - ele disse, a voz esganiçada, o ar quase acabando. Ele tinha nos olhos o mesmo brilho selvagem do senhor grisalho. Ele estava quase estourando as hemorróidas de tanto ódio.&lt;br /&gt;- Então enfie suas desculpas no rabo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei e saí. Depois que cruzei a porta, ouvi berros e barulho de coisas sendo jogadas contra a parede e vidros se quebrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana seguinte, havia uma página inteira de jornal tomada por um comunicado: os ofendidos receberiam bolsas de cem por cento no curso que bem escolhessem.&amp;nbsp;A Carlinha do administrativo me contou que depois desse comunicado apareceu tanta gente reclamando que eu teria comido por volta de 19 meninas sob coação,&amp;nbsp;feito 8 surubas na sala do chefe, discriminado 21 negros,&amp;nbsp;xingado 13 idosos e&amp;nbsp;agredido 3 deficientes físicos. Fora a gorda ofendida, que nunca se manifestou. O dono do curso achou melhor fechar as portas. Todos foram demitidos e agora querem me matar. Com exceção da Carlinha do administrativo, que adorou a ideia de trepar com um louco, maníaco e depravado. E que ninguém venha desmentir meu currículo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-4171440276664700464?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/4171440276664700464/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=4171440276664700464&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/4171440276664700464'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/4171440276664700464'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2008/07/quero-ganhar-educao-profissionalizante.html' title='Quero Ganhar Educação Profissionalizante Gratuita e de Qualidade'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-3408644532449825962</id><published>2008-07-18T11:29:00.007-03:00</published><updated>2012-01-12T11:42:25.267-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>A Suíte Presidencial</title><content type='html'>- Não volto mais pra casa! - ela gritou, desligando o&amp;nbsp;telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camila estava no último banco do ônibus, mochila no colo. Tinha seus vinte, mas aparentava quinze.&amp;nbsp;Observou o próprio reflexo no vidro da janela,&amp;nbsp;a expressão enfurecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Merda! - disse para si mesma - Queria chorar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou por volta da meia-noite.&amp;nbsp;O ponto final do ônibus estava deserto, apenas alguns poucos funcionários sonolentos. Perguntou onde poderia encontrar uma pensão ou lugar para passar a noite. Um motorista lhe indicou um hotelzinho a duas quadras de distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Lá só vai puta, - avisou o motorista. - mas é o único que eu conheço. Você é puta, minha filha?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Que pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camila agradeceu e rumou pra lá. Chegou a um sobrado de fachada enegrecida onde letras mal pintadas numa placa de madeira anunciavam a hospedaria. Bateu na porta quase podre, que só depois de algum tempo foi aberta por um senhor baixo, magro, de cabelos ralos e brancos, que pela expressão havia sido acordado a contra-gosto pelas batidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pensei que hoje eu teria um pouco de paz. - resmungou para si - O que você quer, minha filha?&lt;br /&gt;- Um quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho esforçou-se para abrir um pouco mais os olhos que ainda se acostumavam com a luz. Olhou a moça de alto a baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não tem cara de puta.&lt;br /&gt;- Eu não sou.&lt;br /&gt;- Aqui só vem puta, minha filha.&lt;br /&gt;- Eu sei, mas preciso de um quarto pra passar a noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho abriu a porta, que gemeu alto,&amp;nbsp;e os dois entraram. A recepção não passava de um balcão de expremido ao lado da escadaria estreita e íngreme. O lugar inteiro parecia ter mal hálito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você tem dinheiro, minha filha?&lt;br /&gt;- Tenho.&lt;br /&gt;- Muito ou pouco?&lt;br /&gt;- Pra isso aqui, - disse, olhando em volta - acho que muito.&lt;br /&gt;- Então vou te levar à suíte presidencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiram dois lances de escada e andaram até o fim de um longo corredor mal iluminado. O carpete era sujo. Havia guimbas de cigarro por todos os cantos. Somente era possível distinguir a suíte presidencial pela distância maior de sua porta para as demais. Era porta, porta, porta, não-porta, suíte presidencial. Além disso, a porta presidencial era de uma imitação de mogno, enquanto as outras não passavam de um branco encardido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essa aqui só é usada quando vem político, artista... - disse o velho, orgulhoso, enquanto abria o quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cama, uma gorda de meia-idade, trajando um hobby imitando pele de onça,&amp;nbsp;roncava&amp;nbsp;feito um anjo glutão. O velho, sem nenhuma cerimônia, como matasse um mosquito, deu-lhe um tapa de mão cheia em plena nádega direita, que ecoou&amp;nbsp;por todo o&amp;nbsp;corredor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levanta, porca imunda! - gritou o velho - Quantas vezes já te falei pra não dormir aqui?! Na presidencial não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher levantou atordoada, começou a recolher o restante de seus trajes que estavam pelo chão e saiu porta afora, sem levantar os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;É a Diana, coitada. - explicou docilmente o velho -&amp;nbsp;Descansando antes de pegar no batente...&amp;nbsp;É o soninho da beleza. Hé-hé.&lt;br /&gt;- Só troca o lençol, por favor.&lt;br /&gt;- Você tá com fome, minha filha?&lt;br /&gt;- Não tinha reparado. Estou morrendo de fome.&lt;br /&gt;- Tem um bar na próxima esquina. É onde as meninas conseguem programa. Tem um bolinho de bacalhau muito bom. Vai lá enquanto eu limpo essa zona. Põe na conta do Seu Gerânio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camila desceu as escadas que pareciam ainda mais escuras que antes, saiu do hotel e passou a caminhar pela rua praticamente deserta. Só se via uma mulher que caminhava à sua frente. Era Diana, sem dúvida, só que agora trajando um vestido de veludo vinho bem apertado e botas de couro pretas que iam até perto do joelho. Caminharam uma diante da outra por todo&amp;nbsp;um quarteirão, quando Diana achou que estava sendo alvo de uma perseguição. Virou-se e trotou na direção de Camila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual é a sua, hein!? - gritou Diana. - Já me expulsou do quarto e agora quer o quê?&lt;br /&gt;- Estou indo ao bar que tem ali.&lt;br /&gt;- Roubar meus clientes!&lt;br /&gt;- Eu não sou puta.&lt;br /&gt;- Num hotel de putas, indo pra um bar de putas...&lt;br /&gt;- Meu nome é Camila. - disse, estendendo a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diana não respondeu.&amp;nbsp;Deus as costas e pô-se a caminhar. Camila&amp;nbsp;apertou o passo e emparelhou com ela, que aos poucos pareceu aceitar a companhia da outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu Gerânio disse pra eu beber na conta dele. - disse Camila.&lt;br /&gt;- Faz tempo que eu não tomo um porre.&lt;br /&gt;- Será que a gente descola uns Bloody Mary por lá?&lt;br /&gt;- Minha linda,&amp;nbsp;nada se compara a um&amp;nbsp;porre de cachaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No bar, um pagode brega tocava no último volume. O ambiente era pequeno e uma luz avermelhada banhava tudo. Não havia pista de dança, apenas&amp;nbsp;dezenas de mesas amontoadas, todas lotadas. Era difícil entender como as pessoas chegavam e saíam das mesas, tão juntas que eram umas das outras. Só haviam duas classes de pessoas: homens e putas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essa aqui - disse Diana ao balconista, apontando para Camila - hoje tá na conta do Gerânio!&lt;br /&gt;- Sei... Tô cansado das tuas conversinhas, Diana. - respondeu o balconista.&lt;br /&gt;- Não vou gastar meu latim com você. Liga direto pro velho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No minuto seguinte estavam degustando uma pinga lancinante. Camila deu uma boa golada e quase caiu para trás. Diana gargalhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado, pituquinha. Isso é bebida de adulto - brincou.&lt;br /&gt;- Mais uma! - pediu Camila com um tapa no balcão, depois de secar o copo num trago.&lt;br /&gt;- Se eu me arrumar por aqui não vai ter ninguém pra te levar de volta pro hotel.&lt;br /&gt;- Ah, isso eu duvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demorou para que um homem se aproximasse. Alto, parrudo, pescoço grosso,&amp;nbsp;pele caramelada e um grande vão entre os dois dentes da frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem é a bonequinha? - perguntou o homem, referindo-se a Camila.&lt;br /&gt;- Debutante. - respondeu Diana.&lt;br /&gt;- Pago o dobro.&lt;br /&gt;- O dobro de quanto? - perguntou Camila.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;De&amp;nbsp;trinta, ué?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camila soltou uma gargalhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem fodendo, seu merda! - respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo que Camila viu foi a mão grotesca do homem erguendo-se no ar. Depois, breu e gosto de sangue na boca. Recobrou os sentidos no chão,&amp;nbsp;jogada&amp;nbsp;num canto do bar. Alguém havia lhe arrastado até ali. Olhou ao redor. Todos bebiam, riam e cortejavam suas putas na mais perfeita paz. Ouviu uma gargalhada e olhando para cima viu os dantescos quadris de Diana sentada num banco. Levantou cambaleante e sentou-se ao lado dela. O homem parrudo estava do outro lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Serve uma pinga pra moça! - disse o homem - e traz um pano pra ela limpar a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O balconista trouxe um copo de cachaça e um paninho encardido. Camila virou o copo na boca. Ardeu como o inferno. Ela gemeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem fudendo... - repetiu o homem para si. E começou a gargalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diana também começou a rir. Camila tentou acompanhar, mas a boca doeu. Ficaram ali sentados, os três, rindo e bebendo até não se sabe que horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camila acordou, ainda de olhos fechados, com duas dores ferozes lhe disputando, uma na cabeça - "Então ISSO é porre de cachaça?", pensou - e outra na boca. Pediu a Deus para morrer ali mesmo. Que fosse direto para o inferno, mas duas dores era demais. Sentiu peles geladas por todos os lados. Abriu os olhos e percebeu que estava na cama da suíte presidencial, Diana de um lado e o homenzarrão do outro, nus. Um fedor imperioso enchia o quarto numa mistura asquerosa de suor, álcool e mofo. Não conseguia se mover. Estava soterrada por braços flácidos e pernas recheadas de banha. Os dois roncavam como um coral suíno. Sentiu ânsia de vômito ao perceber que a vagina ardia. Queria matá-los a golpes de pá de lixo, desentupidor de pia ou coisa menos glamurosa. Foi rastejando entre os dois corpos inertes para o hemisfério sul do colchão até conseguir descer da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou ali, de pé, nua, observando aquela pororoca do inferno. Riu. A boca doeu. Olhou ao redor procurando alguma coisa até que achou a capanga de couro do homem. Abriu e tirou exatos sessenta reais. Depois, pegou o telefone e discou um número de cabeça. Atenderam do outro lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora sou uma puta, você ainda me quer? Tá, então tô voltando pra casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-3408644532449825962?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/3408644532449825962/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=3408644532449825962&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/3408644532449825962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/3408644532449825962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2008/07/no-volto-mais-pra-casa-ela-gritou-ao.html' title='A Suíte Presidencial'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-8394468966189323338</id><published>2008-07-10T19:47:00.027-03:00</published><updated>2011-09-29T11:04:19.271-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Corpo e Só</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Dia 1&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;O metrô parou na estação,&amp;nbsp;abarrotado.&amp;nbsp;Era tanta gente espremida que algumas foram ejetadas quando as portas se abriram. Era o terceiro metrô que eu perdia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma garota branquinha na casa dos vinte, os olhos vivos e bem feita de corpo, bufou pra mim com cara de desânimo. Para ela também seria o terceiro. A sirene anunciou o fechamento das portas. Ninguém tentou entrar. Uma muralha de corpos, metros e metros de espessura, bloqueava a entrada. Aquilo me revoltou. Me joguei contra aquela massa compacta de gente&amp;nbsp;com todas as minhas forças. A violência, tanta e tão inesperada, criou um pequeno espaço, mínimo, porém suficiente, naquelas circunstâncias, para mim e para alguém pequeno como a garota branquinha. Ela me olhou, fiz que sim com a cabeça e ela veio. Ficou com metade do corpo pra fora, quase caiu quando as portas começaram a se fechar, mas passei meu braço em torno da cintura dela e a puxei pra junto de mim. As portas se fecharam. Ela virou o rosto, tentou disfarçar, mas vi que sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 2&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tinha um nome, do qual não me lembro. Estudava administração. Sétimo período. Tinha carro. Tinha dois cachorros. Tinha noivo, mas terminou, ou meio que terminou, há pouco tempo. Não quis saber. Tinha meus próprios problemas. O chope gelado mantinha o papo correndo solto. Ela tinha um rostinho redondo, o nariz pontudo e delicado. Era magra, mas cheia de corpo. Os olhinhos pareciam sempre molhados, brilhantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas e você? Me fala de você. - ela disse.&lt;br /&gt;- Tanta coisa pra gente falar.&lt;br /&gt;- Já falei tudo de mim.&lt;br /&gt;- Só o que você queria que eu soubesse.&lt;br /&gt;- Então pergunta... Pergunta o que você quiser.&lt;br /&gt;- Uma música que te faz chorar.&lt;br /&gt;- "Corpo e Só".&lt;br /&gt;- Pronto, sei tudo sobre você. - eu disse, ela riu. - Agora vamos para um lugar mais aconchegante.&lt;br /&gt;- A gente nem se conhece.&lt;br /&gt;- Não vale a pena.&lt;br /&gt;- Assim, no primeiro encontro.&lt;br /&gt;- Não vai haver segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rostinho dela empalideceu. Os olhos brilharam tanto que eu achei que ela fosse chorar. Demorei a me acostumar, eles estavam sempre desse jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Melhor assim. - ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegou a bolsa e levantou. Mal tive tempo de largar uma nota de vinte sobre a mesa e correr atrás dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fazia sexo com raiva, apesar do corpo delicado, da unha pintada de rosa, da tatuagem de flor na entrada do púbis. Por várias vezes tentei diminuir o ritmo da coisa, mas ela sempre acelerava, acelerava. Foi bom, mas acabou tão rápido. Ela se vestiu com pressa. De saída, me disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Obrigada. Você me ajudou muito. - fechou a porta e se foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deixou telefone, e-mail, nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 3&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia que mais dia menos dia nos esbarraríamos no metrô. Não demorou duas semanas. Ela sorriu ao me ver. O metrô parou, abarrotado, a muralha de gente, a massa compacta. Olhamos um pro outro e fomos tomar um chope.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu ex me procurou. - ela disse. - Mandei praquele lugar.&lt;br /&gt;- Viver sozinho não é fácil, garota.&lt;br /&gt;- Sabe, eu ainda tava noiva quando a gente transou aquela vez. Tava infeliz, mas não tinha coragem de terminar.&lt;br /&gt;- Coragem, às vezes, é insistir.&lt;br /&gt;- Não estou te entendendo. Você quer que eu volte pra ele, é isso?&lt;br /&gt;- Só amanhã de manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sexo foi calmo dessa vez. Horas e horas... Parecia aquela coisa tântrica. De vez em quando ela apertava os olhos e se arrepiava todinha. Era um belo espetáculo pra se apreciar. Decidimos que era uma ocasião oportuna para trocarmos telefones. Não é todo dia que se encontra sexo de qualidade dando sopa no metrô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 4&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu telefone tocou. Eram sete da manhã. Ela tinha uma entrevista de emprego às nove e o carro não queria pegar de jeito nenhum. Não gostei da ideia, mas, ok, era uma entrevista de emprego, topei levá-la. Ela morava numa casa bacana de subúrbio. Veio toda&amp;nbsp;bem vestida,&amp;nbsp;maquiada, perfumada, cabelo solto. Se um dia eu fosse me casar, seria com uma mulher assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É pra conseguir emprego ou marido?&lt;br /&gt;- Estou bonita?&lt;br /&gt;- Como esposa, eu bem que te contratava. – e ela riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arranquei com o carro. Ela pediu para baixar o rádio e&amp;nbsp;eu abaixei. Aí ela começou a falar, falar e falar. Eu só precisava reabastecê-la de tempos em tempos com um "aham" para que ela prosseguisse o monólogo sobre si mesma, suas ansiedades, seus problemas, seus planos, seus issos e seus aquilos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos em frente a uma estação do metrô. Parei o carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Desce. - eu disse, no tom de quem não negocia.&lt;br /&gt;- O quê?!&lt;br /&gt;- Me liga quando quiser trepar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuei olhando pra frente. Sabia que os olhos dela estavam brilhando. Não queria, não podia olhar para eles. Seria meu fim. Os carros de trás começaram a buzinar. Tudo que ouvi foi o barulho do cinto sendo desatado e o estrondo da porta batida com fúria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 5&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui eu que liguei. Perguntei se ela queria passar no meu apartamento pra curtirmos um pouco. Ela veio. Calça jeans, rabo-de-cavalo, desodorante e só.&amp;nbsp;Nada de maquiagem, nada de perfume.&amp;nbsp;O sexo foi rápido e nervoso. Saí todo arranhado. Fomos comer alguma coisa depois. Ela estava muda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, sei que fui um boçal. - eu disse.&lt;br /&gt;- Não tenta se desculpar.&lt;br /&gt;- Não chega a ser um pedido de desculpas. É uma explicação.&lt;br /&gt;- Deixa. É melhor.&lt;br /&gt;- Você é uma garota bacana, eu gosto de você e.&lt;br /&gt;- O que você quer de mim, caralho? Anda! Fala!&lt;br /&gt;- Nada. Vamos comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bar tinha som ambiente. Começou a tocar "Corpo e Só". Fiquei quieto, ouvindo a letra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Sem prender minha vida em você&lt;br /&gt;Sem que a gente tenha que ser um&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei bem pra ela. Continuou comendo, impassível. Na saída, perguntei se ela queria dormir lá em casa. Estava tarde. Ela não se deu ao trabalho de responder. Entrou no primeiro táxi e partiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dia 6&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu telefone tocou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quero trepar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não no meu apartamento. Preferiu um motelzinho de beira de estrada. A coisa voltou a ser tântrica. Eu já não sabia mais o que esperar daquela mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Obrigada.&amp;nbsp;– ela disse.&amp;nbsp;–&amp;nbsp;Você me ensinou muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio. Ela parecia distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Voltei com meu noivo. - disparou.&lt;br /&gt;- Não estou entendendo mais nada.&lt;br /&gt;- Me beija.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a gente se beijou. Um beijo quente, forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que bom.&amp;nbsp;– ela disse.&amp;nbsp;– Foi assim que imaginei nosso último beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se levantou, catou as roupas jogadas pelo chão, o corpinho desenhando uma silhueta graciosa na meia-luz.&amp;nbsp;Perdi o controle. Me desesperei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Troquei de telefone. - ela disse.&lt;br /&gt;- Ainda temos o metrô.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;Não pego mais metrô.&amp;nbsp;Me mudei. Estou morando com meu noivo.&lt;br /&gt;- Pra que isso tudo?&lt;br /&gt;- Não tem pra quê.&lt;br /&gt;- Resolveu voltar pra vidinha de merda?&lt;br /&gt;- Pelo menos eu tenho uma vidinha!&lt;br /&gt;- De merda!&lt;br /&gt;- Mas tenho!&lt;br /&gt;- Fica comigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela segurou meu rosto entre as mãos, os olhinhos brilhavam. Eu sempre achava que ela ia chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estraga, vai. – ela disse. – Não estraga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se foi.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-8394468966189323338?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/8394468966189323338/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=8394468966189323338&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/8394468966189323338'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/8394468966189323338'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2008/07/corpo-e-s.html' title='Corpo e Só'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-8378584551209221611</id><published>2008-01-08T18:09:00.004-02:00</published><updated>2011-04-07T16:25:37.804-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Ventre</title><content type='html'>- Não acredito! – eu disse.&lt;br /&gt;- Alice... – ele meio que sussurrou e abriu um baita sorriso, um sorriso delicioso.&lt;br /&gt;- O que você tá fazendo aqui?&lt;br /&gt;- Eu estudo aqui.&lt;br /&gt;- Há quanto tempo?!&lt;br /&gt;- Meia-hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo... Estudamos juntos no segundo grau. Foi cursar engenharia por causa dos pais. Eu fui estudar letras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Largou a engenharia? – perguntei.&lt;br /&gt;- Vou fazer Letras.&lt;br /&gt;- E teu pai?!&lt;br /&gt;- Pirou...&lt;br /&gt;- Não dava pra esperar menos.&lt;br /&gt;- Só não precisava vender meu carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai do Marcelo era engenheiro. O avô do Marcelo era engenheiro. O bisavô não sei ao certo, mas também devia ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chope depois da aula?&lt;br /&gt;- Tô cheia de trabalho pra fazer.&lt;br /&gt;- Um chopinho não tira pedaço, vai.&lt;br /&gt;- Outro dia, quem sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava doida para pular no pescoço dele, mas segurei a onda. Éramos maduros e bem-resolvidos. Bastava deixar as coisas seguirem seu curso natural e a velha paixão adolescente reacenderia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu cursava o quinto período enquanto ele acabara de entrar no primeiro, mas todo intervalo entre as aulas a gente aproveitava pra conversar. O papo simplesmente fluía, era automático. Sempre foi assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Viu o filme que passou ontem? – ele perguntou.&lt;br /&gt;- Detesto.&lt;br /&gt;- Você não tem vergonha não?&lt;br /&gt;- Vai dizer que você entende aquilo?&lt;br /&gt;- Não é pra entender, é pra sentir.&lt;br /&gt;- Viadinho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu. Ele sempre ria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hoje sai nosso chope? – perguntou Marcelo.&lt;br /&gt;- Sabe que nem estou bebendo mais? Dei uma parada boa mesmo.&lt;br /&gt;- Saquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É. Acho que errei a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algum tempo depois ele me apresentou uma colega de turma chamada Roberta. Bonita, a desgraçada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gostando do curso? – perguntei.&lt;br /&gt;- Não sabia que era tão pesado. - ela disse. - E olha que eu sempre li de tudo.&lt;br /&gt;- O que você costuma ler?&lt;br /&gt;- Código da Vinci, Caçador de Pipas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo e eu passamos a adolescência debruçados sobre Faulkner, Blake, Hemingway, Proust etc. Detestávamos &lt;i&gt;top ten&lt;/i&gt; de livraria. Marcelo percebeu minha dificuldade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Marley e Eu? - Marcelo perguntou.&lt;br /&gt;- Não li. É bom? – disse Roberta.&lt;br /&gt;- Chorei do início ao fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não teve jeito: caí na gargalhada. Roberta estava prontinha pra fechar o tempo, mas Marcelo abriu malandramente o zíper da calça enquanto eu ria. Quando ele olhou pra baixo e fingiu estar sem graça, Roberta achou que era dele que eu ria e estampou um sorrisinho sem graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberta passou a nos fazer companhia nos intervalos das aulas. Tinha um rostinho arredondado, nariz fino, corpinho pequeno e tudo, tudo muito bem distribuído. Marcelo estava começando a ficar encantado. O jeito como ele sorria pra ela era o jeito que sorria pra mim há anos atrás.&amp;nbsp;Eu descia da aula voando até o pátio para tentar pegá-los ainda por perto, mas eles já estavam caminhando, distantes, entretidos em altos papos. Não demorou pra ele me dar a notícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tô namorando com a Roberta. – ele disse.&amp;nbsp;- Tudo bem pra você?&lt;br /&gt;- Porque não estaria?&lt;br /&gt;- Só perguntando.&lt;br /&gt;- Vai fundo. Ela é... linda.&lt;br /&gt;- Nunca tive uma mulher tão bonita.&lt;br /&gt;- Ah, quanta gentileza...&lt;br /&gt;- Não banque a criança! Se eu falo assim, abertamente, é porque me sinto à vontade com você.&lt;br /&gt;- Relaxa. Tava brincando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que fui promovida àquele tipo de amiga sapatão com quem um homem comenta à vontade sobre a gostosura das outras mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse tipo de beleza mexe com o ventre. – ele disse – Faz a gente lembrar que é de carne.&lt;br /&gt;- Ela topa um ménage?&lt;br /&gt;- Você bem que podia arrumar um gatão de academia.&lt;br /&gt;- Pra ler O Código da Vinci em quadrinhos na cama pra ele dormir?&lt;br /&gt;- Você não presta!&lt;br /&gt;- Nunca disse que prestava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flauta encantada uma ova! Uma única bunda bem redonda e você arrasta todos os homens do mundo até o inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois tiveram que fazer um trabalho sobre Faulkner. Eu sabia mais sobre Faulkner que qualquer professor daquela faculdade e Marcelo sabia disso muito bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quebra essa, vai? Leva Roberta pra tua casa e faz um apanhado geral.&lt;br /&gt;- Deixa comigo. Vou usar teatrinho de bonecos. Nunca falha.&lt;br /&gt;- Pára com isso! Ela é mais esperta do que você imagina.&lt;br /&gt;- Você não vai por quê? Tá com medo de mim?&lt;br /&gt;- Vou ajudar nuns problemas do escritório. Já viu, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As tardes lá em casa eram animadas. Roberta era realmente mais esperta do que imaginava.; entendia tudo de bate-pronto. E ainda era um bocado divertida, cheia de histórias sobre namorados, paqueras, pretendentes, ficantes e toda essa mitologia da qual eu sempre ouvi falar. Quanto a mim, tive um namoradinho antes de Marcelo e nenhum depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabe o Gilberto? – ela perguntou.&lt;br /&gt;- O tronco mais largo do corpo docente.&lt;br /&gt;- No final das aulas ele sempre vem e solta uma piadinha.&lt;br /&gt;- Que tipo?&lt;br /&gt;- Ontem ele me perguntou se eu tinha lido “Descrédito”.&lt;br /&gt;- “Desonra”? Fala de um caso de professor com aluna, o professor é expulso, coisa e tal.&lt;br /&gt;- Exato!&amp;nbsp;Ele disse que acabou de ler esse livro e ficou com medo de que eu arruinasse a carreira dele.&lt;br /&gt;- E você?&lt;br /&gt;- Mandei ele ficar tranqüilo, que se depender de mim ele sempre vai ter a maldita carreira e esses livrinhos de putaria com alunas pra ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá aí. Gostei dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim das tardes a gente descia até o bar do Sr. Ferreira pra comprar umas cervejas. O bar parecia intocado pelo tempo, tinha um aspecto fétido, mas vendia a cerveja mais gelada das redondezas. Sr. Ferreira era um era sessentão asqueroso, sempre com um pano de prato imundo pendurado no ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oi, Alice. – ele dizia.&lt;br /&gt;- Oi, Sr. Ferreira. – eu respondia.&lt;br /&gt;- Ooooooooooi, Roberta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Velho descarado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na faculdade, Marcelo tomava conhecimento do avanço no trabalho sobre Faulkner e falava do retrocesso em seus problemas com o pai. Ele sempre dava um jeito de se livrar de Roberta e vinha desabafar comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O velho tá ficando doido. Todo dia, antes de eu vir pra faculdade, a gente quebra o pau.&lt;br /&gt;- Você já passa as tardes inteiras no escritório. O que mais ele quer?&lt;br /&gt;- Que eu me envolva mais, mais e mais. Nunca vai ser o bastante.&lt;br /&gt;- Eu sei que é teu pai, mas dá vontade de mandar pra aquele lugar.&lt;br /&gt;- Mandei ontem.&lt;br /&gt;- E?&lt;br /&gt;- Cortou minha mesada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior ainda estava por vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o pior – ele disse – é que não tenho mais como curtir esse momento legal que tô vivendo com a Roberta.&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- Você sabe...&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Essa coisa toda de... Ah, você sabe!&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- A gente quer se curtir, mas...&lt;br /&gt;- Não entendo.&lt;br /&gt;- Fiquei sem grana pro motel, caralho!&lt;br /&gt;- Agora entendi.&lt;br /&gt;- É importante pra mim. É o meu momento!&lt;br /&gt;- Do ventre?&lt;br /&gt;- Esquece! Você não tem como entender.&lt;br /&gt;- Porque não sou gostosa?&lt;br /&gt;- Quem tá pra baixo aqui sou eu, Ok? Espera tua vez.&lt;br /&gt;- Ok.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio. Talvez fosse minha vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tua mãe ainda chega do trabalho tarde da noite?&lt;br /&gt;- Ah, não! Minha casa não é motel, Marcelo.&lt;br /&gt;- Pra gente era.&lt;br /&gt;- Pra gente era!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Definitivamente, era minha vez. Virei as costas e fui embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde, Roberta apareceu lá em casa como de costume. Pediu pra sentar no sofá da sala. Sentamos uma de frente pra outra. Ela tinha uma expressão compenetrada, digna. Parecia até aquelas cenas de novela onde acontecem as grandes revelações. Tenho certeza que ela viu muitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sei como você está se sentindo. – ela disse.&lt;br /&gt;- Nossa! Como eu me sinto melhor!&lt;br /&gt;- Marcelo me contou a respeito do ocorrido e fiquei deveras decepcionada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, ela estava falando de um jeito empolado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ótimo! – eu disse – Veio perguntar o preço do pernoite?&lt;br /&gt;- Vocês são tão amigos. Não entendo onde ele estava com a cabeça.&lt;br /&gt;- Acho que o quarto da minha mãe vai cair como uma luva pra vocês!&lt;br /&gt;- Alice!&lt;br /&gt;- Queira me acompanhar, senhorita. Vou lhe mostrar o aposento onde poderão foder à vontade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me levantei. Ela continuou sentada. Paralisada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não faz assim, Alice. Por favor. – ela disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas feições delicadas de menina se contraíram, os olhos castanho-claros tremulavam, as mãos pequenas apertando os joelhos dourados. Ela estava toda naquele momento, naquela posição, naquele olhar. Ela acreditava e era impossível não acreditar junto. Então entendi o maldito poder da beleza de nos sugar pra ela, de nos devorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não tem culpa do que o idiota do Marcelo falou. – eu disse.&lt;br /&gt;- Terminamos.&lt;br /&gt;- Não! Isso não! É o momento dele! É o momento do, do... Do ventre, sei lá do quê!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei o que me deu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não entende. Ele precisa!&lt;br /&gt;- Calma, Alice!&lt;br /&gt;- Cadê o telefone? Telefone! Telefone!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei descontrolada. Senti que Marcelo estava perdendo algo importante, algo que não era possível entender só com o intelecto. Liguei pra ele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alice, não estou podendo falar...&lt;br /&gt;- Vem pra cá agora!&lt;br /&gt;- Tô no meio duma reunião.&lt;br /&gt;- Roberta está em aqui em casa...&lt;br /&gt;- Desliga esse telefone, Marcelo! - era a voz do pai, no fundo.&lt;br /&gt;- Você tem meia-hora pra aparecer aqui. Senão eu mato essa piranha!&lt;br /&gt;- Alice! - gritou Roberta.&lt;br /&gt;- Escutou a voz dela? - perguntei. - Pois bem... Meia-hora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E desliguei. Roberta estava aos prantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sossega, porra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo chegou em poucos minutos. Estava pronto para encontrar uma cena de terror, com Roberta cortada em pequenos pedaços, guardados em vários potinhos tupperware.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você tem três horas pra baixar o facho dessa doida.&amp;nbsp;– eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijei seus lábios, saí e tranquei a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só depois me dei conta de que não tinha pra onde ir. Fiquei parada em frente à porta, ouvindo as frases esparsas discussão que vazavam pela porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não vou transar com você aqui... nem em lugar nenhum! – ela gritava.&lt;br /&gt;- (Marcelo respondeu algo que não consegui ouvir).&lt;br /&gt;- Não encosta a mão e mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maçaneta da porta se mexeu. Era Roberta tentando sair. Ouvi os passos de Marcelo se aproximando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi grosseiro da minha parte, eu sei&amp;nbsp;&amp;nbsp;– ele disse – mas é que já vejo Alice como uma irmã.&lt;br /&gt;- A porta está trancada?&lt;br /&gt;- Alice trancou.&lt;br /&gt;- Alice! Abra essa porta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bum! Bum! Bum! Ela batia. Eu já estava pondo a chave na fechadura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela disse que volta daqui a três horas. – ele disse.&lt;br /&gt;- Não acredito. Que coisa mais ridícula!&lt;br /&gt;- Foi idéia dela. Você viu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Discutiram mais um pouco. Depois baixaram a voz. Depois passaram a sussurrar. Depois não consegui escutar mais nada. Minha boa ação estava feita. Sentei com as costas apoiadas na porta, braços sobre os joelhos, cabeça pendendo dos ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi a idéia do tempo. Me senti patética. Chorei. Me senti ridícula por estar chorando. Me senti auto-indulgente. Me pus no lugar de Marcelo. Me pus no lugar de Roberta. O único lugar que não valia a pena era o meu. Imaginei os dois rolando no tapete da sala. Imaginei nós dois. Lembrei dos livros que li. Inúteis, no fim das contas, se nada podem contra esse tal ventre. Peguei no sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acordei, vi que anoitecia. Bati na porta, abri e entrei pé ante pé. Roberta saiu do banheiro com os cabelos molhados. Baixou os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nossa! Que vergonha... – ela disse.&lt;br /&gt;- Queria ver essa vergonha toda com as pernas abertas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Obrigada. – ela disse - Por tudo...&lt;br /&gt;- Qualquer mulher do mundo faria exatamente o mesmo no meu lugar.&lt;br /&gt;- É verdade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ironias, pelo menos, ela era completamente virgem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberta resolveu ir embora. Encontrei Marcelo no meu quarto, deitado na cama, pelado, parcialmente coberto pelo lençol e com uma baita cara de satisfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Barriguinha cheia, bebê? – perguntei, passando a mão em seus cabelos.&lt;br /&gt;- Senta aí.&lt;br /&gt;- Oba! Segundo tempo?&lt;br /&gt;- Tenho mais idade pra isso não.&lt;br /&gt;- Viadinho.&lt;br /&gt;- Você não existe, sabia?&lt;br /&gt;- Tô começando a acreditar.&lt;br /&gt;- Quer casar comigo?&lt;br /&gt;- Quero casar com a Roberta.&lt;br /&gt;- Põe um filme aí pra gente.&lt;br /&gt;- Não sendo Antonioni...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos lá, assistindo um filminho italiano, tomando cerveja e jogando conversa fora, como nos velhos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso virou nossa rotina. Roberta ia lá pra casa à tarde, eu a ajudava em algum trabalho da faculdade, descíamos, comprávamos cervejas, conversávamos, ríamos. Marcelo chegava, eu saía, eles transavam, Roberta ia embora, eu voltava. Encontrava Marcelo deitado na cama com cara de satisfeito, conversávamos, ríamos e bebíamos cerveja até altas horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim até eu me formar. Depois comecei a trabalhar e a rotina acabou. Marcelo e eu continuamos nos falando. Ele terminou com Roberta assim que paramos de nos ver. Me pergunto quem foi a outra nessa relação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-8378584551209221611?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/8378584551209221611/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=8378584551209221611&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/8378584551209221611'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/8378584551209221611'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2008/01/esse-tal-ventre.html' title='Ventre'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-116298926626528604</id><published>2007-11-18T22:58:00.001-02:00</published><updated>2011-01-04T17:45:08.049-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>A Sublime Arte da Letargia</title><content type='html'>Anselmo, sentado em sua mesa de trabalho, observava pela janela os prédios do centro do Rio, seu matiz cinza, seus ângulos retos, suas formas impessoais. Eram três horas da tarde, faltavam duas para o fim do expediente. Alimentava a doce ilusão de que por muito gastar os prédios com os olhos, os ponteiros do relógio se apressariam e com eles a imprecisa engrenagem de condução dos tempos e momentos. Espiava os objetos à sua volta: o bastão de cola, os bloquinhos de recado, as canetas coloridas e a régua que despontava em meio delas. Já havia concluído a tarefa que haviam lhe deixado, mas não ousava dizer isto ao chefe para não receber mais trabalho como agradecimento por sua eficiência. Baixou os olhos, fitando a própria barriga. Como estava grande! Lembrou-se de todas as tentativas fracassadas de emagrecer. "Depende só de mim!", dizia-se nestas ocasiões. Mas como nenhum resultado aparecia no dia seguinte ao sacrifício de engolir um prato de salada, acabava dando-se por vencido e voltava aos velhos e condenáveis hábitos alimentares. Aliás, era assim em tudo mais. Prometia-se dia após dia, atrasado no ponto de ônibus, que dormiria cedo naquela noite, acordaria bem disposto e seria o primeiro a chegar ao trabalho. Mas, à noite, entretinha-se com alguma futilidade, como um jogo de computador do qual estava enjoado ou algum programa de TV que não lhe interessava, e ia dormir pelas tantas da madrugada, maldizendo-se a si e à sua sina: a de não ter controle sobre as próprias vontades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tédio! O pior dos sentimentos do homem, pois até o sofrimento prefere-se a ele, não sendo outra coisa senão a agonia da alma que se esvai por nada. Anselmo sentia-se fortemente atado à cadeira giratória; sua liberdade física contrastava com o aprisionamento que sentia dentro de si.&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O telefone tocou. Viu-se de repente esperançoso ao imaginar que alguém no mundo precisava lher falar, esperança esta que desapareceu assim que a voz esganiçada da ex-mulher começou a melhtralhá-lo com queixas sobre o filho dos dois, dizendo que o garoto necessitava de um pai de verdade, presente, de voz ativa e blá-blá-blá. As reclamações constantes remontavam à época do casamento falido e a resignação constante de Anselmo sempre tirou a mulher do sério. Desta vez não foi diferente, ouviu tudo calado. Foram muitas as ofensas feitas por ela ao telefone, mas que não foram contudo absorvidos, pois em situações desagradáveis como esta a mente de Anselmo armava-se de um estado letárgico que abstraía tudo. E assim desligaram, ela irritada, ele mais entediado que antes.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se e moveu lentamente seu corpo pesado na direção ao banheiro. No caminho, passou pela secretária. Fitou seu belo par de pernas. Desviou, porém, afetadamente o olhar ao perceber que ela lhe dirigia um cumprimento seco. Respondeu com não mais que um discreto aceno de cabeça. No lavabo lavou o rosto, apoiou os braços sobre a pia e observou a própria imagem no espelho. "Derrotado!", disse a si mesmo em voz alta, erguendo o dedo indicador. A porta do banheiro abriu-se, tendo dado tempo suficiente para que o colega de trabalho Marcelo presenciasse aquele momento de destempero.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;- O que está acontecendo, meu camarada? - perguntou Marcelo em tom zombeteiro.&lt;br /&gt;- Hé-hé. Estava apenas lembrando... de um filme... que eu vi. - respondeu gaguejando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu a todo vapor e, tentando fugir logo daquele constrangimento, abriu a porta com ímpeto, sem dar-se conta de que o Sr. Soares, chefe do setor, aproximava-se pelo outro lado. A porta acertou-lhe em cheio o nariz, derrubando seus óculos no chão e deixando-o tonto por alguns instantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mil perdões, senhor. Eu estava meio distraído... - começou Anselmo.&lt;br /&gt;- Eu percebi! - cortou o chefe, recompondo-se - Mas deixe isso pra lá. A quantas anda aquele relatório que lhe pedi?&lt;br /&gt;- Já está quase pronto.&lt;br /&gt;- E quando deixará de estar "quase"?&lt;br /&gt;- Hoje, no final do dia, mando ele para o seu e-mail.&lt;br /&gt;- Já estamos no final do dia. - disse Sr. Soares, consultando o belo relógio prateado no pulso - Isso significa que somente amanhã vou poder consultá-lo. Mas não faz mal, o importante é que de manhã cedo (Se é que você chegará cedo amanhã) comece logo a confeccionar aquele outro relatório do qual lhe falei e que ele fique pronto à tarde.&lt;br /&gt;- Sr. Soares, eu acho que não dá tempo de...&lt;br /&gt;- Peça ajuda ao Marcelo, que é mestre nessa arte dos relatórios. Ah, olha ele aí - e apontou para o citado colega, saindo do banheiro. - Meu caro Marcelo, você pode dar uma força para o Anselmo amanhã num relatório que eu pedi?&lt;br /&gt;- Claro. Sem problemas - respondeu Marcelo solicitamente.&lt;br /&gt;- Acho que não é necessário. - disse Anselmo - Veja bem, eu...&lt;br /&gt;- Mas você acabou de me dizer que não consegue. - interrompeu Sr. Soares - É melhor pedir ajuda a um colega mais capacitado do que não concluir a tarefa no tempo devido. Não é vergonha nenhuma.&lt;br /&gt;- Com certeza! - exclamou Marcelo. - Amanhã a gente senta junto e detona esse relatório rapidinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos despediram-se de Anselmo antes que este pronunciasse palavra. Odiava Marcelo por este poder de atrair atenção sobre qualidades que nem mesmo possuía. Via-se infinitamente mais competente que o colega na "arte dos relatórios", tanto que concluíra na metade do prazo o pedido do chefe, não havendo-o entregue apenas por langor. Das vezes que dividira tarefas com ele, a divisão fora: Anselmo ficara com o trabalho e Marcelo com o crédito. Não que Marcelo lembrasse um orador do areópago ateniense, mas comparado à articulação de Anselmo - seu olhar perdido, que aparentava buscar abrigo dos olhos do interlocutor, seu falar incerto que punha em dúvida quem ouvia-lhe falar sobre suas mais profundas convicções - comparado a tudo isso Marcelo era o próprio Mercúrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, exibindo no rosto o inchaço de ter despertado há pouco, Anselmo, atrasado como sempre, chegou a sua mesa de trabalho. Marcelo, como de costume, havia chegado há mais de uma hora e estava navegando em seus sites de mergulho, enquanto degustava um grande copo de café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fala, Anselmo! Hoje a gente detona aquele relatório, hein? Assim que eu terminar isso que tô fazendo aqui, sento lá do seu lado pra te ajudar. - disse Marcelo animadamente, esticando o pescoço sobre o monitor.&lt;br /&gt;- Sem problemas. - foi a resposta lacônica de Anselmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anselmo sentiu seu ventre inflamar, pois sabia que Marcelo não se levantaria dali até o meio-dia, quando finalmente iria se aproximar, perguntar como o colega estava se saindo e avisar que depois do almoço eles "detonariam" o relatório. E no fim do expediente, tão logo Sr. Soares chegasse, Marcelo saltaria diante dele e, exibindo propositadamente seu palavreado técnico ininteligível, discorreria sobre mil dificuldades do relatório que ele sequer olhara e como eles - confiando plenamente que Anselmo concluíra a tarefa - haviam superado todas elas. Esta era sua tática para obter o reconhecimento do chefe sem mover uma palha e tinha em Anselmo a vítima perfeita, visto que este nunca esboçava reação ao vampirismo do colega. Mas desta vez Anselmo estava determinado a combater o algoz com todas as suas forças, que não eram muitas, ele sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio marcava dois minutos para o fim do expediente quando Sr. Soares despontou no corredor. Marcelo pulou imediatamente de sua cadeira e posicionou-se ao lado de Anselmo. Estava armado o bote. O chefe nem teve tempo de cumprir seu papel de cobrador de resultados, pois Marcelo não quis perder o deleite de desfiar seu vocabulário nebuloso com se fosse um rosário. - E então, – concluiu Marcelo – resolvido o problema dos vínculos dinâmicos entre as tabelas ficou fácil concatenar as informações resultando na visualização pretendida para os dados brutos. - Oh! Muito bom, Marcelo. – admirou-se Sr. Soares. – Você nunca falha na arte dos relatórios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sr. Soares pediu para Anselmo mostrar o resultado na tela e para sua surpresa o relatório exibia centenas de linhas repetidas e várias informações inconsistentes. Anselmo, seco, disparou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, parece que ainda existe um probleminha no vínculo entre as tabelas...&lt;br /&gt;- Mas não é possível! – disse Sr. Soares - Preciso enviar este relatório para a sede amanhã antes do almoço. Como isso foi acontecer, Marcelo?&lt;br /&gt;- Não se preocupe, Sr. Soares. – respondeu Marcelo – A gente vai dar um jeito nisso.&lt;br /&gt;- Claro que vão! E ainda hoje! – sentenciou o chefe, se retirando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anselmo sabia exatamente onde estava o problema e o havia plantado ali de propósito. Estava cansado de servir de degrau para o colega malandro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Merda! Logo hoje que eu ia sair com a Renatinha! Vamos Anselmo, conserta logo esse troço. – disse Marcelo, implorando.&lt;br /&gt;- Não faço idéia de onde esteja o problema. - respondeu Anselmo - Fiz do mesmo jeito de sempre e nunca tinha dado isso.&lt;br /&gt;- Era só o que me faltava! – disse Marcelo. Pegou o celular e discou. – Alô, Renata? Oi, sou eu. Deu um probleminha aqui no trabalho daqueles que só eu posso resolver. É... É... Não! Não tô cancelando nada não. Vai indo pro bar que eu te encontro lá. Ora... Pode ir! Confie em mim. – e desligou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo olhava para a tela do computador como se olhasse para o alfaberto cirílico. Anselmo, que nada sabia sobre o encontro do colega, fazia um esforço sobrehumano para conter sua satisfação e disfarçá-la de fastio e agravo. Sentia-se agraciado pelos deuses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme o tempo ia passando, Marcelo ficava mais irritado. Seu telefone tocava de dez em dez minutos. A voz feminina do outro lado da linha foi ficando cada vez mais audível e esganiçada. Anselmo já conseguia entender frases inteiras com a ajuda do silêncio que se instaurava com o avançar da noite no Centro da Cidade. Já eram quase dez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Merda! Ela se mandou. – disse Marcelo, fechando seu celular último tipo – E ainda fez questão de dizer que nunca mais vai marcar nada comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali em diante Anselmo divertiu-se com uma sucessão de tentativas estúpidas de Marcelo para resolver o problema. Este último realmente não tinha idéia do que fazia. Anselmo se perguntava de quantas vítimas aquele vampiro sugava o sangue para manter seu emprego por tanto tempo e com tanto prestígio. A arte dos relatórios! Era realmente algo bonito de se ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia amanheceu. Anselmo havia dormido em sua cadeira. Apenas baixara a cabeça sobre o peito e cochilara sabe-se lá por quanto tempo. Seu pescoço, ombros e coluna doíam. Encontrou Marcelo com os olhos vermelhos fixos no monitor. Era triste. Em seu rosto abatido lia-se um misto de desespero e estupefação. Parecia não acreditar que sua carreira cuidadosamente construída, como que confeccionada num tear, desmoronasse diante dele assim, numa única tacada. Faltava tão pouco para ele ser promovido a assistente gerencial e depois disso é que não precisaria mesmo saber criar relatórios. Então Sr. Soares chegou.&lt;br /&gt;- Ai, meu Deus! – exclamou o chefe, levando as mãos à testa – Viraram a noite e pela cara de vocês não conseguiram nada. Se este relatório não estiver na minha mesa até meio-dia, vocês vão ter sérios problemas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anselmo estava excitadíssimo. Tinha tudo planejado em sua mente. Quando faltassem apenas dez minutos para o fim do prazo, diria a Marcelo que iria ao banheiro e então irromperia sala do chefe adentro anunciando a solução definitiva para o problema, sem dar ao colega a chance de colher uma migalha sequer dos louros da vitória. E quando faltavam pouco mais de dez minutos, levantou-se e foi ao banheiro. Ficou um bom tempo lá, jogando água fria no rosto. Olhou-se no espelho.&lt;br /&gt;- É hoje! – disse, tascando um beijo no ar para própria imagem refletida.&lt;br /&gt;Ao voltar, notou que Sr. Soares não estava em sua sala. No caminho de volta, viu que João, funcionário mediano - mas um gênio dos relatórios se comparado a Marcelo -, estava sentado em seu computador. Sr. Soares e Marcelo estavam com ele e falavam efusivamente. Anselmo gelou. Foi quando o chefe o avistou, fez um largo sinal com o braço para que se aproximasse e disse em alto e bom som, para que todos escutassem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Anselmo! Não é possível. Vocês viraram a noite por causa de um errinho idiota que o João resolveu em dois minutos?! Eu não acredito! Pra minha sala, os dois, agora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anselmo sabia muito bem o que aconteceria. Não, não seria demitido. Mas seria obrigado a ouvir toda sorte de críticas absolutamente infundadas sobre si. Veria aquele homem, que só passava por ele como um raio, comportando-se como o legítimo legislador de sua vida, o autêntico senhor de seus dias; abanando a cabeça, resignado, como se suportá-lo fosse um fardo vindo dos céus; reprovando cada detalhe de seu comportamento, muitos inventados ali, de improviso. Mas o pior de tudo era receber sua misericórdia. Ser obrigado a engolir silenciosamente sua atitude pretensamente magnânima, que outorga um perdão claramente imerecido, simplesmente por participar de uma natureza superior. Aquilo era pior do que ver Marcelo levando o crédito. Pior que ouvir sua ex-mulher reclamar ao telefone. Pior que observar os ponteiros inflexíveis do relógio. Pior que tudo, tudo na vida. Mas Anselmo conseguiu abstrair, refugiando-se em seu estado letárgico. Era somente ali que se sentia bem.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-116298926626528604?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/116298926626528604/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=116298926626528604&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/116298926626528604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/116298926626528604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2006/11/anselmo-ii.html' title='A Sublime Arte da Letargia'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-6722397870119156741</id><published>2007-11-10T04:18:00.001-02:00</published><updated>2011-11-10T11:46:07.147-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>O Hall das Vidas Passantes</title><content type='html'>Acho que foi no segundo ano. A gente estudava na mesma turma e voltava&amp;nbsp;junto&amp;nbsp;da escola todo santo dia. E se todo dia era santo, era por causa dela. A gente conversava sobre um monte de coisas e o legal da Marcela é que ela não era do tipo de garota que só fala de coisa de garota, tipo garotos, roupas, sapatos, garotos. E tinha um par de pernas... E conversava sobre tudo, tudo. Quer dizer, menos sobre &lt;i&gt;aqueles&lt;/i&gt; assuntos. Mas até de futebol a gente falava. Juro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei o que ela fazia naquela escola. O pai dela nem trabalhava, o desgraçado. Tinha uma pá de táxis rodando pra ele. Dizem que ganhava uma baba. E devia ganhar mesmo. O prédio deles era o mais chique do bairro. Chique de subúrbio, sabe? É engraçado isso: qualquer um que mora em prédio com porteiro no subúrbio acha que é bacana. Mas o prédio dela era bacana mesmo. Eu a deixava lá todo santo dia e seguia uns 300 metros rua acima até entrar num corredorzinho de cimento rachado que dava numa espécie de vila. Eu morava no número 8. Era a única casa com número de verdade, aqueles números dourados, de ferro, que meu pai fez questão de comprar pra não ter que fazer como os vizinhos, que davam um jeito de rabiscar o número da casa na parede com lápis de cera. Eu sentia que meu pai tinha orgulho disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve um dia que choveu pra burro. Foi uma pancada daquelas que caem assim de uma hora pra outra. Ninguém tinha levado guarda-chuva e a Marcela tinha feito o cabelo naquele dia, porque era aniversário de uma prima à noite. Como ela estava linda! Os cabelos faziam umas voltinhas na ponta, iam e voltavam, pendulando. E o pior de tudo era que o cabelo novo tinha ressaltado os lábios dela. Nossa! Ela tava com os lábios do tamanho do mundo e eu queria pular dentro deles e só sair pra morrer. Mas ela tava desesperada com o troço do cabelo e aí eu peguei meu livro de matemática e fiz uma cabaninha pro cabelo dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá maluco, garoto!? Como é que você vai estudar depois? – ela perguntou.&lt;br /&gt;- Depois você me paga com cola. – eu falei. Ela riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tava morrendo de frio e os peitinhos dela ficaram eriçados. Aquela boca enorme, as voltinhas no cabelo e as duas bolinhas apontando por debaixo da blusa me deixaram louco. Olha, bendito seja homem que fez as camisas de colégio brancas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos ao prédio e ela me convidou pra entrar um pouco e escapar da chuva. Ficamos no hall. Era uma entradinha social, mas ela enchia a boca pra dizer “hall”. Meu livro de matemática estava em frangalhos, as páginas se desfaziam na minha mão. Mas o cabelo dela estava intacto. Lindo, maravilhoso e intacto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bom desse tipo de temporal é que faz o mundo todo sumir. Parece até que a rua respira aliviada sem aquele monte de gente inútil perambulando pra lá e pra cá. Tudo que existe é o barulhinho da chuva, mais nada. Foi aí que a gente se olhou. &lt;i&gt;Daquele&lt;/i&gt; jeito, sabe? Tava na cara que a gente ia se beijar. Mas a gente estudava junto há um tempão, eu era louco por ela e achei que era meu dever dizer alguma coisa bacana naquele momento. Eu não era igual aos retardados do colégio que não sabiam dizer um troço bonito nem no velório da mãe. Eu sabia até o que ia dizer. Tava guardado na manga há um tempão, só esperando a situação acontecer. Eu ia dizer assim: “Você já parou pra pensar em quanta gente passa pela nossa vida e depois desaparece pra sempre? É que a vida&amp;nbsp;dá meia-dúzia de chances&amp;nbsp;pra gente&amp;nbsp;segurar quem realmente vale a pena. Se a gente não segura uma pessoa, a vida leva embora achando que a gente não dá a mínima. E eu não quero que isso aconteça com você. Eu não quero que você passe. Quero que você fique. Pra sempre”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu não disse nada. Fiquei lá, paralisado, olhando pra ela. As palavras ficaram girando na minha mente numa ordem aleatória e impossível de entender. Eu tentava ordená-las, mas as desgraçadas se embolavam cada vez mais. Aí a chuva parou. Maldita!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, a chuva diminuiu. Acho que já dá pra você ir. – ela disparou, impiedosa, como uma sentença.&lt;br /&gt;- Tá.... tá.... tá bom. – disse, me atropelando.&lt;br /&gt;- Vou pedir pro meu pai comprar um livro novo pra você.&lt;br /&gt;- Que livro?&lt;br /&gt;- Esse! – e com a mão, levantou a minha, que ainda carregava os destroços do que um dia foi um livro de matemática.&lt;br /&gt;- Ah! Não... não... não... – Merda! As palavras simplesmente não saíam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela virou as costas e foi embora. Pude ver a camisa de malha encharcada colada em suas costas magras, as ondinhas de seu cabelo realizando uma cruel dança de despedida e as meinhas soquetes perdidas dentro do enorme par de tênis esportivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois daquele dia, tudo mudou entre a gente. Não era mais aquela coisa, sabe? Eu olhava o tempo todo&amp;nbsp;pra ela, tentando achar &lt;i&gt;aquele&lt;/i&gt; olhar, mas era como se alguma coisa estivesse impedindo, um muro invisível que não me deixava chegar até ela de verdade. Depois ela arrumou umas amigas novas, umas garotas normais, daquelas que não falam sobre tudo, mas só de roupas, sapatos e garotos. Era o fim. No fundo, eu sabia que tinha perdido a grande chance que a vida me deu pra não deixar a Marcela passar. Isso doeu um bocado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num belo dia, eu estava voltando da padaria, de bermuda e chinelo de dedo, carregando um saco plástico com pão e mortadela, como fazia todas as tardes. Sempre que eu passava pelo prédio da Marcela, olhava lá pro “hall”, na esperança de pegar ela chegando ou saindo. De vez em quando acontecia e a gente ficava batendo papo por horas e horas. E dessa vez ela realmente estava lá... se atracando com um marmanjo. Eu parei. Na verdade, congelei. Eu, meu chinelo de dedo e meu pão com mortadela. Foi ridículo. Tão ridículo que acabou chamando a atenção deles, que pararam de se beijar e me olharam. Eu levantei a mão, num aceno abobalhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oi, Anselmo. Você quer falar comigo? – perguntou Marcela, com uma simpatia forçada.&lt;br /&gt;- Eu queria saber se você falou com seu pai sobre o livro de matemática. É que minha mãe reclamou pra burro... – Eu sei, eu sei. Consegui piorar ainda mais! Só que foi a única coisa que apareceu na minha cabeça.&lt;br /&gt;- Tá bom, vou falar com ele. - respondeu, curta e grossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem esperou eu ir embora. Na verdade, acho que ela beijou logo o malandro só pra que eu visse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gente mal se via. Ela mudou de carteira. Foi sentar perto das novas amigas. Conseguia ficar invisível no recreio e simplesmente desaparecia na saída. Nem adiantava procurar. Só voltei a encontrar com ela numa tarde, lá na rua. Eu estava voltando pra casa levando pão com mortadela. Ela estava andando abraçada com o malandro. Na verdade, o cara era muito mais alto e ela tava enfiada debaixo da asa dele, feito um pinto na asa da galinha. Fiquei meio sem saber o que fazer, mas dessa vez resolvi dar uma de machão. Olhei bem fixo pra eles e cumprimentei. Ela só levantou as sobrancelhas. Cara, aquilo me arrasou. Seria melhor se ela tivesse virado o rosto ou passado direto. Eu levanto a sobrancelha daquele jeito pra cumprimentar as amigas da minha mãe, que eu mal reconheço. Levanto a sobrancelha pra fugir do “Tá grande!”, “Tá bonito!”, “Tá um homão!”. Eu deixei a Marcela passar. Digo, quem tinha passado era eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dias depois, ouvi a voz dela gritando meu nome na rua. Ela tava com um embrulho na mão. Tava na cara que era o livro de matemática. Estava muito simpática e me agradeceu dizendo que tinha esquecido que eu era o responsável por toda a felicidade dela. Afinal, foi graças a mim que ela chegou na festa da prima com o cabelo intacto e conheceu o malandrão com asa de galinha. Eu quis pegá-la pela nuca, tascar-lhe um beijo na boca e dizer que aquele babaca nunca ligaria pra ela tanto quanto eu. Mas fui simpático como todo bom frouxo. Desejei felicidades, agradeci pelo livro e parti. Cheguei em casa e fui direto para o banheiro, com livro, pão, mortadela e tudo. Levantei a tampa da privada, abri o embrulho e comecei a rasgar página por página do livro e jogar dentro da privada. Fiquei olhando aquelas fórmulas boiando na água do vaso até desaparecerem para sempre. Foi uma espécie de ritual, sabe? Eu queria me livrar daquilo. Mas o vaso acabou entupindo e levei um baita esporro do meu pai, que me fez pagar o conserto em suaves prestações que ele descontava da minha mesada, que já era ridícula de pequena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois desse dia, nunca mais vi Marcela. Deve ter se mudado. Acho que estou até esquecendo de como era o rosto dela. Só consigo lembrar de umas imagens meio borradas. Mas aquele discurso todo sobre a vida, de segurar as pessoas, de não deixar elas passarem, coisa e tal, está bem decoradinho. Intensifiquei os treinamentos. Recitar palavra por palavra na frente do espelho sem gaguejar nem nada. Ah, eu não dou outro mole desses nem morto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-6722397870119156741?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/6722397870119156741/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=6722397870119156741&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/6722397870119156741'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/6722397870119156741'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2007/11/o-hall-das-vidas-passantes.html' title='O Hall das Vidas Passantes'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-3870478416763794692</id><published>2007-11-07T10:09:00.001-02:00</published><updated>2011-11-10T10:43:55.193-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>O Homem de Terno</title><content type='html'>Já estava acostumada às correntes daquele mar de rostos flutuantes ao seu redor e esfregava mecanicamente um panfleto no outro antes de estendê-lo a um transeunte, sem conseguir enxergar, entretanto, nenhuma lógica naquele procedimento. Em seus primeiros dias naquele trabalho, sentiu-se terrivelmente deprimida ao constatar que se tornava invisível, inexistente ao plantar-se na esquina da Rio Branco com Assembléia munida de seu bloquinho de panfletos onde lia-se "Dinheiro Rápido". Mas a depressão foi rapidamente substituída pelo ódio. Concluiu que os passantes que sequer miravam seu rosto para negar-lhe o recebimento de um panfleto gentilmente estendido só podiam fazê-lo por algum prazer sórdido. Transformou-se então numa máquina de panfletagem, estendendo os braços em movimentos curtos e precisos. Tudo que via era a imensa massa turva de feições que brotavam aleatoriamente diante dela. Vez por outra sentia náuseas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então viu um homem de terno caminhando em sua direção. Já devia ter passado por ali centenas de vezes, mas só agora ela o reparava. Seus olhos eram duas grandes bolas pretas de bilhar. Profundos e enigmáticos, como enormes buracos negros sugando tudo ao redor. Ficou fascinada por aqueles olhos. Esticou o braço o mais que pôde para entregar-lhe um panfleto, mas o homem não a percebeu. Não conseguiu mais tirar da cabeça a imagem daqueles olhos. Finalmente algo intrinsecamente vivo havia cruzado seu caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, por volta do mesmo horário, o homem de terno passou por ali novamente. Ela, porém, aguardava-o em grande estilo. O rosto maquiado, o decote generoso valorizando seu busto e o salto agulha que castigava suas pernas desde que os calçara eram os responsáveis pelo relativo sucesso que fazia na esquina. Seu colega de posto na panfletagem, um gaiato uns quinze anos mais velho, passara toda a manhã lhe dirigindo gracejos inconvenientes. Até mesmo alguns transeuntes substituíram seu habitual olhar indiferente por outro mais "humano". Porém, o homem de terno conversava entretido com um amigo e não virou o rosto em sua direção. Sua decepção foi tão palpável que seu colega de posto disparou de imediato:&lt;br /&gt;- Então é por causa desse maluquinho de terno que tu veio embonecada desse jeito?&lt;br /&gt;- Vem cá, tu é meu marido agora, é?! – respondeu, agressiva.&lt;br /&gt;- Devia ser, mas tu é doida. Fica sonhando com o que não nunca vai ter.&lt;br /&gt;- E tu lá tem idéia do que eu quero? – perguntou em tom imperioso, encerrando assim a discussão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a imagem daqueles dois lagos de negritude não lhe abandonava. Precisava, de uma forma ou de outra, estar sob a mira deles. Decidiu então tomar medidas extremas. No dia seguinte, quando o homem de terno passasse novamente, simularia um desmaio diante dele. Um olhar bastaria para devolver-lhe à vida e salvá-la do mecanicismo daquele mundo gélido. E lá vinha ele, vestindo um elegante terno cinza escuro, caminhando sozinho entre a multidão. Ao vê-lo cada vez mais perto, sentiu crescer dentro de si uma angústia incontrolável. Já não sabia mais se teria coragem de levar seu plano adiante. E o homem vinha em sua direção numa linha reta milagrosamente desobstruída. Sua pulsação disparou, um calor tórrido subiu-lhe ao rosto, sua visão escureceu e suas pernas bambearam. Contra a vontade, desabou no chão. Talvez o corpo tenha feito o que a alma não teve coragem. O homem de terno imediatamente correu em seu auxílio, pôs a mão por baixo de sua nuca e levantou-a do chão. O outro panfletista, por sua vez, empurrou grosseiramente o homem, como se ele cometesse uma grande indelicadeza ajudando a moça.&lt;br /&gt;- Circulando, grã-fino! Circulando!&lt;br /&gt;- Se precisar de alguma ajuda, me procura – respondeu o homem inabalado, entregando-lhe um elegante cartão de visitas.&lt;br /&gt;- E desde quando eu preciso de ajuda pra cuidar de mulher minha?! – vociferou o panfletista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de recobrar a consciência, foi arrastando-se vagarosamente, apoiando-se no ombro do colega, até o supervisor dos panfletistas, que ficava na esquina da Presidente Vargas com Uruguaiana. Era lá que eles pegavam seus bloquinhos de panfleto pela manhã. Antes que ela tivesse tempo de responder ao supervisor, que indagava o motivo de sua expressão pálida, seu colega tomou-lhe a frente:&lt;br /&gt;- Chefe, essa garota não pode ficar na Rio Branco não. Ali faz muito sol e a menina quase empacotou na minha frente.&lt;br /&gt;- Mas que menina frouxa, hein?! Larga ela aí. Amanhã vejo outro posto pra ela. – respondeu o supervisor, indiferente.&lt;br /&gt;- Não foi sol coisa nenhuma! Eu passei mal porque... – disse ela, tentando esboçar uma reação.&lt;br /&gt;- Ssssh! Não me crie caso. Por muito menos já mandei garota frouxa pra rua. – cortou o supervisor.&lt;br /&gt;Se tivesse forças, agrediria seu agora ex-colega de posto ali mesmo, sem cerimônias, mesmo sabendo que perderia o único trabalho que conseguira em meses de árdua procura. Seria merecido e acima de tudo prazeroso, mas sentiu a vista escurecer novamente e procurou se acalmar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, não conseguindo conter-se ao ver o relógio marcar o horário em que o homem de terno costumava passar, abandonou seu novo posto e seguiu em desabalada carreira para a Rio Branco, sabendo que não podia cruzar com o supervisor em sua costumeira ronda pelos postos, pois seria caso de demissão imediata. Mas imediato era seu desespero e por isso corria, suava e gemia. Avistou entre a multidão a nuca de uma cabeça careca que ela conhecia muito bem, era seu supervisor em seu habitual passo de cágado. Não podia ultrapassá-lo, mas também não podia acompanhar seu passo lento. De impulso, entrou numa galeria comercial que cortava um dos prédios. Saiu do outro lado, correndo feito uma louca. Quando chegou, o homem de terno estava dobrando a esquina. Correu até ele, puxou-lhe pelo braço e pousou um panfleto em sua mão. O homem reconheceu-a, fez menção de dizer algo mas não teve tempo, pois ela voltara a correr alucinadamente para voltar a seu posto. O homem observou o panfleto e viu algo no verso escrito a lápis, numa caligrafia insegura, infantil. Era um nome, apenas um nome, o nome dela, e só.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-3870478416763794692?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/3870478416763794692/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=3870478416763794692&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/3870478416763794692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/3870478416763794692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2007/11/panfletista.html' title='O Homem de Terno'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-6342574272219465955</id><published>2007-11-07T10:05:00.000-02:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.324-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Metamorfoseado</title><content type='html'>Acordou se sentindo um merda. Não tinha motivo aparente, mas sentia até o gosto de merda na boca. Esfregou a testa suada com as costas da mão e levantou cambaleante. Segundo Kafka, o momento mais perigoso do dia é o acordar. Pois Antônio acordou metamorfoseado numa grande montanha de fezes secas, desbotadas e de cheiro enjoativo e nauseante. Mas ele lembrou que não tinha tempo para curtir sua deprêzinha matinal. Tinha que enfiar-se numa calça de microfibra barata e ir para o trabalho. Minutos depois, devidamente vestido como um trabalhador, rumou para o ponto do ônibus relembrando todas as pessoas que conseguiram viver sem ele. Colegas de escola, de faculdade, de outros empregos, ex-namoradas, ex-vizinhos, ex-melhores-amigos... Desfilavam diante dele suas esposas, maridos, filhos, novos-melhores-amigos, cachorros, gatos, amantes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não era assim com todo mundo? A vida não era um gigantesco acelerador de partículas chocando pessoas umas contra as outras e espalhando-as por toda sua extensão monstruosa? Era evidente que sim. Mas o que incomodava Antônio era não deixar nenhuma marca. Sentia-se um espectro passeando por um mundo ao qual não pertencia. Vez por outra imaginava a própria morte. Seu corpo descendo terra abaixo num caixão, os rostos condoídos daqueles que solidariamente compareceriam àquela celebração da comunhão de todos os homens na morte. E dois dias depois, o que lhes aconteceria? No máximo, uma sensação estranha, desconfortável, de um não-sei-o-quê que ficou pra trás. Talvez uma conta que esqueceu-se de pagar, uma lâmpada deixada ligada, uma boca do fogão esquecida acesa. Então se lembrariam que alguém morreu, mas por efeito do terror ritualístico de um corpo entregue aos vermes diante dos vivos. Nada mais que isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegou o ônibus. Sentou-se observando aqueles rostos lobotomizados. Viu-se neles. Será que depressão era aquilo? Não, não era. Depressão era para consciências profundas que se deparavam com a transitoriedade da vida. Antônio só se sentia um merda e qualquer coisa além disso soava para ele como pura pretensão. Chegou ao trabalho e uma vez lá conversou, riu e brincou como todos ali. Mas uma reminiscência amarga repousava em sua boca. Sabia que um dia seria demitido ou se demitiria e aqueles que hoje agiam como participantes permanentes de sua vida sequer se lembrariam da cor do carpete onde pisavam se perguntados. Não tinha nada a dizer-lhes que pudesse afixá-los a si. Não tinha conselhos profundos para dar, reflexões edificantes para compartilhar ou sentimentos calorosos que lhes fossem dedicados. Nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, voltou pra casa. Abriu a geladeira, pegou alface, tomate, pepino e fez uma salada. Requentou a carne assada do dia anterior e jantou assistindo Jornal Nacional. Chorou. Olhava para o apresentador e não conseguia conter as lágrimas quentes que desciam. Chorava, não por si próprio, mas pelo apresentador. Não era pena, nem compaixão, nem um choro misericordioso, como se lhe fosse superior, mas era algum tipo de comunhão, como se tivesse certeza que o apresentador também chorava. Cansou de chorar e desligou a TV. Deitou na cama, fitou o teto e refletiu. Chegou à conclusão de que toda aquela veadagem não ia chegar a lugar nenhum. Resolveu dormir, pra ver se acordava metamorfoseado em algo melhor no dia seguinte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-6342574272219465955?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/6342574272219465955/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=6342574272219465955&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/6342574272219465955'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/6342574272219465955'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2007/11/metamorfoseado.html' title='Metamorfoseado'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-3394714531146740688</id><published>2007-02-18T21:15:00.001-02:00</published><updated>2008-07-17T13:50:55.448-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>A Criatura</title><content type='html'>João Marcos viu a coisa. Era a segunda vez que ela aparecia, no mesmo horário. Era do tamanho de um boi, tinha uma cabeça de leão, mas flamejante, e o corpo de um avestruz, pingando de molhado. João Marcos ficou paralisado olhando pra ela. Da primeira vez foi pior. Ele se perguntava se estava no inferno ou se aquilo era Deus. Mas porque a coisa não lhe matara antes e mataria agora? Então relaxou. Bem, nem tanto. A figura era pra lá bizarra e o fitava nos olhos com interesse. Mas com o tempo, João Marcos passou a ignorar a criatura e deitar-se para o outro lado. Às vezes ele esquecia e, durante a madrugada, virava para o lado da porta e lá estava ela, parada, com seu olhar interrogativo. Mas pernoitar noite após noite é que não dava. E o bicho ficava lá, quietinho, quietinho. Que mal tinha, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um belo dia, João Marcos foi para o trabalho, como sempre. Estava no ponto esperando o ônibus quando de repente apareceu a coisa do outro lado da rua, com sua cabeça flamejante e seu torso pingante. Nosso amigo arregalou os olhos, quase se rendendo ao desespero, mas ao notar que ninguém ao seu redor via a criatura, se recompôs, ajeitou a gola da camisa e fez que não era com ele. Pelo contrário, empinou a cabeça e passou a fitar a criatura com um ar desdenhoso, cheio de empáfia. Então a criatura mostrou os dentes. Eram tantos, tão grandes, afiados e alvos que causavam quase tanta admiração quanto pavor. João Marcos ficou aterrorizado. Se contorcendo de pavor, abordou um rapaz que estava ao seu lado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que... Que... Que horas são, por favor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz estava com fones nos ouvidos, mas João Marcos não percebeu. E, com os braços estendidos para o alto e as mãos crispadas, soltou um berro que a rua inteira ouviu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será que alguém pode me dizer as horas, pelo amor de Deus!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos imediatamente viraram as cabeças em sua direçao. O rapaz arregalou dois olhos do tamanho de frigideiras e respondeu atordoado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- São... São... São quinze pras sete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando João Marcos voltou a olhar para o outro lado da rua, a criatura não estava mais lá. O ônibus chegou e ele embarcou debaixo dos comentários injuriosos dos que também aguardavam o coletivo. Diziam, entre outras coisas, que os viciados hoje em dia usam terno e gravata e se drogam às sete da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou ao trabalho branco como um toco de vela virgem e sentou em sua estação de trabalho sem cumprimentar ninguém. Todos estranharam aquela atitude do sempre falante João Marcos. Percebeu então que precisava disfarçar seu estado de espírito, pois do contrário seria obrigado a explicar todo o acontecido. E quem, em sã consciência, não lhe consideraria - como posso eufemizar – um desprovido de discernimento cognitivo? Enfim, sorriu, cumprimentou, entrou no papo, contou piada, falou do Big Brother, do jogo do Vasco, da corrupção, do crime hediondo da semana e sentiu-se bem novamente. Mas depois de alguns minutos aquela “imgem da besta” retomou seus pensamentos. Pensou em desabafar com alguém, mas quem? Bom, alguém que a princípio acreditaria em seu relato. Não podia ser o Leonardo, que jurava de pé junto que o homem não foi à lua, que a bomba atômica não existiu, que Paul Mccartney é um sósia e que a Terra não gira em torno do Sol. Mas acreditar só também não bastava. O David, que era evangélico, iria dizer que se tratava de um demônio que precisava ser exorcizado. Já a Paulinha, kardecista, diria que se tratava de um mestre espiritual vindo de outro plano. O Marcão, auto-denominado “macumbeiro”, ia dizer que se tratava de um exú pedindo uns trabalhos. Ah, e ainda tinha a Zildete, metida a psicóloga, que com certeza interpretaria a criatura como algum desejo sexual reprimido que João Marcos sentia pela mãe. Pra ela, no frigir dos ovos, todo mundo queria comer a mãe. Então, resolveu deixar como estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criatura continuou aparecendo pra ele, mas o relacionamento dos dois voltou a ser amistoso. Ele não empinava a cabeça, ela não mostrava o arsenal dentário. Passaram-se uma, duas, três semanas nessa paz. Até que João Marcos recebeu no trabalho um telefonema da vizinha, informando que Débora, sua esposa, havia sofrido uma crise nervosa e estava internada. “Crise nervosa?”, pensou, “Débora nunca teve essas frescuras”. No hospital, a enfermeira lhe disse que sua esposa estava bem. João Marcos encontrou a mulher tão sedada, que seus olhos giravam lentamente como uma roda gigante. Seu lábio inferior pendia da boca que exibia um leve sorriso abobado, dando-lhe um aspecto demente. Mas até que ela parecia estar se divertindo. “Se o pessoal do ônibus a visse agora, ia dizer que a gente forma um casal perfeito”, imaginou. O doutor chegou e contou-lhe que Débora deu entrada no hospital com um quadro crônico de alucinação. Ela repetia aos gritos: “Tá pegando fogo mas tá pingano! Tá pingando mas tá pegando fogo!”. João Marcos precisou de uma cadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, depois de passado o efeito do sedativo, Débora chorava no ombro do marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fica assim não. Ela não é tão má. – iniciou João Marcos, tentando acalmar a esposa.&lt;br /&gt;- Ela?!&lt;br /&gt;- É, a criatura.&lt;br /&gt;- Você... também.... – disse Débora, balbuciando.&lt;br /&gt;- Aham. Aparece pra mim há tempos.&lt;br /&gt;- Escuta aqui, João Marcos Silvério dos Reis! Eu não estou com humor para brincadeiras, tá me escutando? – explodiu a mulher. João Marcos respondeu com uma calma professoral:&lt;br /&gt;- É do tamanho de um boi, tem cabeça de leão pegando fogo e corpo de avestruz pingando de molhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Débora ficou atônita com a descrição exata do marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porquê?! Porquê!? – disse ela caindo aos prantos. João Marcos abraçou-a forte.&lt;br /&gt;- Não tem porquê meu amor.&lt;br /&gt;- Se essa coisa tá aparecendo pra gente, existe um motivo!&lt;br /&gt;- Mas deixa ela quieta. Comigo nunca se engraçou. Quer dizer, mostrou os dentes uma vez, mas gritei tão alto que ela “puf”, sumiu.&lt;br /&gt;- Você afugentou aquela coisa?&lt;br /&gt;- Foi uma vez só. Mas eu não recomendo que você tente fazer isso, meu bem. Eu sou homem, sabe como é.&lt;br /&gt;- A gente vai dar um nome pra ela?&lt;br /&gt;- Eu gosto de “a coisa”.&lt;br /&gt;- Ai, que falta de respeito! Se é pra ser assim, impessoal, eu prefiro “a criatura”. É mais digno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, conseguiu tranquilizar a patroa. Ele acreditava que agora, finalmente, os três viveriam em paz. Deitou e dormiu como uma pedra. Não tinha criatura flamejante e pingante que o despertasse do sono. Mas ele tinha uma esposa. Acordou em plena madrugada com os solavancos que a mulher lhe dava para que acordasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela falou comigo! – disse Débora, excitada.&lt;br /&gt;- Falou? Falou o quê?&lt;br /&gt;- Quer dizer, fui eu quem falei.&lt;br /&gt;- Mas tinha que arrumar idéia!&lt;br /&gt;- Perguntei por que ela aparece aqui.&lt;br /&gt;- Nem conta que eu não quero saber. – e tapou os ouvidos com a ponta dos indicadores. Débora retirou-os e disse:&lt;br /&gt;- Ela falou que responde qualquer coisa, desde que seja você quem pergunte.&lt;br /&gt;- Ah, eu mereço essa agora! Tu que arrumou idéia, agora vai morrer seca de curiosidade!&lt;br /&gt;- Mas tu não vai perguntar, não?&lt;br /&gt;- E eu quero saber, pra perguntar?&lt;br /&gt;- Mas é um bicho do outro mundo, que pega fogo e pinga água ao mesmo tempo! Sabe lá. Pode contar pra gente todos os segredos desse mundão.&lt;br /&gt;- Se é segredo, não deve ser á toa. – disse João Marcos, virando-se para o lado.&lt;br /&gt;- Mas tu não é homem, não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Marcos sentou-se na cama e olhou a mulher nos olhos, furioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E o que tu quer que eu faça?&lt;br /&gt;- Pergunta pro bicho por que ele aparece pra gente. Só isso.&lt;br /&gt;- Deixa comigo. – disse João, deitando-se de costas para a esposa, encerrando a conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentou voltar a dormir, mas não conseguiu. Só ficava pensando no que a criatura lhe diria. Não podia sequer especular sobre o que aconteceria depois que fizesse a pergunta. Não que temesse ser dilacerado pela dentição trituradora da fera. Temia era a resposta. O que o bicho iria dizer? Que ele continuasse sendo quem é, vivendo a vida que vive, do jeito que vive, sem tirar nem pôr? Ele não teria se dado o trabalho de ficar de pé na porta daquele quarto noite após noite por nada. Trazia com certeza alguma revelação transformadora, uma missão urgente ou questões inquietantes. "Mas que vá pro inferno você e sua mensagem do outro mundo! Quero a minha vida do jeito que sempre foi!", falou consigo. Abriu os olhos. Lá estava ela: a criatura. Com labaredas dançando sobre a cabeça como se fossem cabelos ao vento. O torso encharcado como se tivesse acabado de sair do mar. João Marcos levantou-se. A criatura o acompanhava com o olhar fixo e interrogativo. Pé ante pé, caminhou até o armário, de onde tirou um guarda-chuva. Aproximou-se da fera com o utensílio empunhado como se fosse uma espada. Ela permanecia imóvel e com o mesmo olhar. João Marcos começou a dar-lhe pancadas na cabeça. Mais e mais pancadas, cada vez com mais força. Erguia e descia o cabo do guarda-chuva com toda força que possúia. Dava-lhe também estocadas para ver se furava-lhe o crânio. O sangue começou a espirrar para todos os lados. O monstro não esboçava reação. João Marcos batia, gritava e chorava. Débora continuava dormindo, como se nada acontecesse. O bicho bambeou, inclinou o corpo bizarro para um lado e tombou pro outro, morto. João desabou sobre os joelhos e derramou-se em prantos sobre a poça de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta madrugada em diante, não soubemos mais o paradeiro de nosso divertido amigo João Marcos. Desapareceu, por completo. A polícia chegou a investigar a esposa, mas arquivou o caso ao ver o estado mental em que a mulher ficou. Até hoje ela pode ser vista naquele mesmo ponto de ônibus, com uma grande placa pendurada nos ombros, no peculiar estilo utilizado por nove entre dez propagadores do fim. Ela grita: “Perguntem à criatura! Perguntar é a saída! Perguntem à criatura!”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-3394714531146740688?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/3394714531146740688/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=3394714531146740688&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/3394714531146740688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/3394714531146740688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2007/02/criatura.html' title='A Criatura'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-115609950834224044</id><published>2006-08-20T15:44:00.000-03:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.324-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Sem Remetente</title><content type='html'>Carolina abaixou-se para pegar um papel que repousava no chão junto à porta. Era um aviso de chegada de correspondência endereçado a João, seu marido. Ele devia comparecer à unidade postal do bairro para receber a carta, encomenda ou o que fosse aquilo. Carolina varreu o aviso com os olhos minuciosamente, de ambos os lados, à busca do remetente da misteriosa correspondência. Nada! Apenas o carimbo do correio, a data limite para retirada e o endereço da unidade postal. Telefonou para o trabalho do marido:&lt;br /&gt;- João, meu amor, tudo bem?&lt;br /&gt;- Tudo bem. Aconteceu alguma coisa? – perguntou João.&lt;br /&gt;- Não. É que chegou um aviso do correio dizendo que tem uma carta pra você, mas você tem que ir lá buscar.&lt;br /&gt;- Mas porquê?&lt;br /&gt;- Não sei. O aviso só diz isso.&lt;br /&gt;- Quem foi que mandou a carta?&lt;br /&gt;- Também não sei.&lt;br /&gt;- Como assim tem uma coisa lá, que não sabemos o que é nem quem enviou?!&lt;br /&gt;- Mas é exatamente isso, meu amor. Não é estranho?&lt;br /&gt;- Sim, sim. Mas não se preocupe. Mais tarde, quando eu chegar do trabalho, nós resolveremos isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, ao chegar em casa, sentado à mesa, lia e relia João aquele enigmático pedaço de papel. Vasculhava a mente em busca de uma possível origem daquela encomenda repentina. Lembrou-se até de um  irmão de sua mãe, desaparecido há mais de trinta anos, tido por todos como morto. “Pode ser ele. Quem sabe? Vai que ele está rico em alguma ilha paradisíaca e agora envia-me um presente para mostrar sua boa vontade.”, elucubrava João. Cogitou também o perigo de uma carta anônima ao recordar um caso que tivera há anos atrás na empresa onde trabalhava. Fora seu único relacionamento extra-conjugal, terminado há tempos. Mas porque uma mulher, igualmente casada, com quem não se envolvia há anos, enviaria uma carta revelando tudo? Hipótese descartada. “Talvez seja Carolina que esteja me traindo. Vai saber”, pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carolina estava no fogão, finalizando os preparativos para o jantar, não deixando contudo de observar a inquietação de João às voltas com o papel. Ela também estava muito inquieta com todo aquele mistério. “Custava colocar o nome do remetente no aviso? Bastava uma linha para evitar este suplício”, revoltava-se. Temia por umas fotos um tanto ousadas que um ex-namorado excêntrico batera dela na flor da juventude, pouco antes de conhecer João, que nunca soubera disso. Alguém poderia tê-las achado e resolvido fazer uma brincadeira de mal gosto. “Eu não saberei onde enfiar a cara se isto acontecesse!”, desesperava-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas como eu vou fazer para buscar essa carta? – perguntou João.&lt;br /&gt;- Acho que terei de ir eu, já que o correio só funciona no horário em que você está trabalhando. – propôs Carolina, tentando disfarçar a ansiedade de ver logo sua proposta aceita. Caso fossem mesmo as fotos comprometedoras, poderia se livrar delas sem maiores problemas.&lt;br /&gt;- Eu não acho que você possa receber por mim. Veja, o aviso está no meu nome. – respondeu ressabiado João, desconfiando de algum ardil da esposa.&lt;br /&gt;- Então como você vai fazer?&lt;br /&gt;- Eu não sei... Bom, o jeito é você ir lá e tentar. – entregou-se João, dando-se por vencido, para felicidade da esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, João contou o estranho caso a Marcelo, companheiro de trabalho há anos, que afirmou não conhecer esta modalidade de entrega do correio, que não informava ao destinatário do que se tratava a encomenda tampouco quem a enviou. Achou tudo isso muito estranho e perguntou-lhe se não tinha idéia de onde poderia ter vindo aquela carta. Ouvindo a negativa de João, sobressaltou-se Marcelo, por haver diversas vezes cortejado Carolina, sem que esta houvesse dado trela a suas iniciativas. Como era o fato de conhecimento de todos no setor, visto que a fofoca se espalha mais no vento que a poeira, temeu que uma carta anônima pudesse pôr fim àquela amizade de muitos anos, que nem sua cobiça desenfreada conseguira destruir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcelo passou então a persuadir João a não ir buscar tal carta, dizendo que nunca ouvira falar de uma boa notícia que chegasse daquela forma, mas que somente as grandes desgraças exigem rufo de tambor e som de trombeta para se fazerem conhecidas. “Às vezes é melhor nem saber de certas coisas para se continuar a vida com paz e tranquilidade.”, dizia Marcelo. Vendo aquela mudança súbita de comportamente no amigo, ficou João desconfiado. Resolveu então fingir aceitar o conselho recebido e, para dar verossimilhança à sua encenação, pegou o telefone, fingiu discar para casa e ordenar a Carolina que não fosse ao correio buscar a tal carta. Marcelo sentiu-se muito aliviado e disse que o amigo havia tomado a melhor das decisões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo João se ausentado por alguns instantes, aproveitou o colega traidor para telefonar à esposa deste, para avisá-la do grande risco de que os havia livrado. Como João voltou rapidamente, Marcelo foi obrigado a desligar sem dar maiores explicações, deixando em grande interrogação os pensamentos da moça, que resolveu ligar para o marido, perguntando inocentemente porque não devia ela buscar a correspondência. João ligou os fatos e concluiu que havia uma misteriosa ligação entre Marcelo e sua esposa. Irado, ordenou que ela viesse até a empresa imediatamente. Quando esta chegou, ordenou, quase fora de si, que Marcelo os acompanhasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estando os três no carro a caminho do correio, exigiu João, aos berros, que fosse despida a verdade sem demoras nem rodeios, antes de ser aberta a carta fatal, quando seria tarde demais.&lt;br /&gt;- Anda, mulher! – gritava João – Fala logo!&lt;br /&gt;- Eu não tenho motivos para ser acusada de nada, – retrucou Carolina – mas sim esse teu amigo da onça, que andou me cortejando, o que já é de conhecimento de todo o teu setor. Se não te contei, foi para poupar-te da dor da traição desse Judas!&lt;br /&gt;- Isso é verdade, metecapto? – perguntou João, voltando-se para o ex-amigo.&lt;br /&gt;- É verdade. – respondeu Marcelo - Senti-me capturado pela beleza da tua esposa e tentei conquistá-la, mas saiba que tua mulher é a mulher mais honrada que já conheci.&lt;br /&gt;- Então conta-me – disse João - porque não durmiste durante toda a noite passada, mulher! Pensas que não vi quantas vezes levantaste durante a madrugada? Estavas muito aflita.&lt;br /&gt;- Muito me envergonha o que te contarei, marido, ainda mais na presença deste verme que nos ouve. – esbravejou Carolina – Mas contarei a verdade por não suportar mais tanto medo de que seja ela descoberta. Sim, estava aflita e desesperada de que descobrisses que fui fotografada como vim ao mundo por um namorado excêntrico que tive antes de conhecer-te. Temo que esta carta sejam as malditas fotos.&lt;br /&gt;- Mulher vadia! Fazia-te de santa comigo e até as lentes das câmeras conheciam tua nudez!&lt;br /&gt;- Porque acusas tua mulher de desonesta – interrompeu Marcelo – se ela não traiu tua confiança em momento algum, já que nem te conhecia? Mas tu sim, traíste-lhe com a Sílvia, lembro-me muito bem. Agora queres posar de justo, seu grande hipócrita!&lt;br /&gt;- É verdade. – reconheceu João, baixando a voz – não posso negar tal fato. E foi por achar que a carta se refiria a este caso que insone pude observar que Carolina também não dormia.&lt;br /&gt;- Seu infeliz, – gritou Carolina às lagrimas – Como ousas me acusar sendo ainda mais culpado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaram ao correio com as faces afogueadas, como que carregando uma negra nuvem de tensão sobre as cabeças. João entregou o papel ao atendente, que entrou para buscar a correspondência. Neste ínterim, entreolhavam-se João, Carolina e Marcelo, num misto de ódio, culpa e remorso. Quem os observasse não distinguiria culpado de inocente. Voltou o atendente com um envelope branco na mão. Nenhum deles dava mais atenção ao conteúdo da carta, quando João a leu. Ela dizia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Caro eleitor,&lt;br /&gt;em virtude das acusações de campanhas milionárias que receberam diversos candidatos, nosso partido decidiu que as correspondências que enviamos serão pagas por aqueles que as recebem. Sendo assim, viemos por meio desta pedir seu voto para o candidato J..., número X, que promete lutar pela educação, saúde e emprego para todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atenciosamente,&lt;br /&gt;Partido....”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-115609950834224044?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/115609950834224044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=115609950834224044&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/115609950834224044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/115609950834224044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2006/08/sem-remetente.html' title='Sem Remetente'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-115604324198822533</id><published>2006-08-20T00:06:00.000-03:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.325-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>A Janela</title><content type='html'>Anselmo subiu ao ônibus com seus habituais ombros protraídos e coluna arqueada, que tanto davam-lhe ares de vencido. Com aborrecido esforço projetou seu pesado corpo para dentro do carro. Seu semblante caído, fruto do cedo despertar, corroborava com esta negativa impressão. “Bom dia”, disse ao cobrador, entregando-lhe o dinheiro. O homem estendeu a mão mecanicamente pegando as cédulas, sem fazer caso do cumprimento recebido. O mundo apresentava-se hostil a Anselmo, que assim o sentia diariamente. Girou a roleta e caminhou coletivo adentro, que não estava lotado como de costume, tendo inclusive alguns lugares vagos às janelas, o que alegrou-lhe sobremaneira. Percebeu então num destes bancos um conhecido seu, Paulo, morador do mesmo bairro, com quem nunca tivera contato próximo, havendo trocado apenas rápidos cumprimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela visão causou-lhe grande desconforto, por sentir-se moralmente obrigado a trocar sua confortável posição na janela para sentar-se ao lado do conhecido, cumprindo assim sua função social. O homem percebeu-lhe a presença e fitou os olhos nos seus. Sorriu-lhe este com uma simpatia forçada, retomando imediatamente o agravo com que olhava pela janela, fazendo Anselmo sentir-se livre para sentar-se onde bem quisesse. Deu um passo vigoroso, já procurando com os olhos qual seria o melhor lugar para a viagem, quando notou a cabeça de Paulo voltar-se para ele, como que convidando-o a fazer-lhe companhia. Este movimento não passou de uma impressão, já que não estava Anselmo com olhos voltados para o homem. “É agora ou nunca”, pensou. Caso optasse por sentar-se ali, junto a Paulo, estaria fadado a ouvir-lhe potencias lamúrias, piadas sem graça ou desalinhos de interesse. Não que soubesse serem assim as conversas de Paulo, posto que nunca haviam travado diálogo, mas o risco existia, e isso era um fato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num ônibus como aquele, sempre abarrotado de pessoas além de sua capacidade, divide-se a sociedade em três castas bem distintas, a saber: os que sentam-se à janela, tendo todo o horizonte diante do nariz, os que sentam-se ao corredor, tendo o refrigério do assento, mas suportando também o incômodo dos passageiros de pé que, espremidos, roçam-lhes nos ombros, sendo estes, portanto, a derradeira e mais desprezível categoria. Acostumado a viajar na última, vislumbrava Anselmo a rara oportunidade de ingressar na primeira. Sentado à janela pode-se dormir repousando a cabeça no vidro, e não no ombro do passageiro ao lado, como fazem os da segunda casta; pode-se pigarrear chamando a atenção do vizinho para que este dê mais espaço; pode-se observar com a devida distância o aglomerado de indivíduos que se acotovelam em pé no corredor do veículo. Enfim, todas as regalias que uma casta superior pode obter da inferior. Anselmo era conhecedor deste apartheid velado que regia o transporte das massas suburbanas para os centros de produção e comércio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidiu ignorar sumariamente a presença do conhecido e seguir a passos largos para o meio do veículo, onde sentou-se num confortável banco diante de uma grande e vistosa janela. Abriu o livro que trazia debaixo do braço e pôs-se a lê-lo. Intitulava-se “Aprenda Não-sei-o-quê em 24 horas”. Lia-o na tentativa de obter reconhecimento no trabalho e, quem sabe, uma promoção. “Onde já se viu!? Deixar de estudar pra ficar batendo papo. Quanto mais rápido eu terminar este livro, melhor.”, justificava-se a não sei quem. Seguiu-se a viagem e esqueceu Anselmo do ocorrido, entretendo-se com seu livro e posteriormente dormindo a bom dormir, de boca escancarada e soltando roncos altos e esporádicos, que mais pareciam rosnados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou sobressaltado por um burburinho que percorria todo o coletivo. Alguém parecia discursar com ímpeto, como o fazem os evangelistas nos trens. Estranhou, já que nunca vira coisa semelhante naquele ônibus. Os passageiros cochichavam entre si sobre o que dizia o homem, alguns lhe ameaçavam para que fizesse silêncio. Anselmo apurou os ouvidos para entender o que dizia o discursador. Milagrosamente, a platéia fez silêncio, como que enternecida por suas palavras. Dizia ele em alta voz:&lt;br /&gt;- ... e eis que este mundo me cansou! Como pode a existência ser apenas isso? Não foi o que me prometeu a vida ao me convidar a nascer. Desde jovem, ansiava por algo que nunca encontrei, e agora decido morrer por ter perdido a fé de que o homem é capaz de partilhar um grão de areia que seja com seu próximo. Tudo perdi. Cumpriu-se o texto que diz: “Até o que não tem, ser-lhe-á tirado”. Nada mais me resta, muito menos fé na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reconheceu Anselmo a voz do orador, era Paulo, mas não conseguia vê-lo por causa do grande número de pessoas que os separava. De imediato, sentiu-se bem-aventurado por não haver sentado junto daquele homem transtornado, o que obrigaria-lhe a ouvir seus recém revelados desatinos. Mas escutando aquelas pesarosas palavras, começou a sentir uma queimação que subia-lhe do ventre. Um suor frio começou a escorrer de sua testa, acompanhado de arrepios aflitivos, frutos impertinentes da vergonha que sentia de si mesmo. Entendia que não era sobre ele que falava o orador, mas sentia-se enquadrado em suas acusações generalizadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De súbito, ouvi-se um estampido, seguido de agudos gritos femininos e brados de homens desesperados. Uma onda de terror eletrizou a todos, muitos romperam em prantos. A multidão impedia Anselmo de ver as roupas de vários passageiros banhadas no intenso rubro do sangue que jorrava e da massa encefálica espalhada em todas as direções, inclusive no teto. Paulo puxara uma arma da cintura e dera um tiro na própria têmpora direita, num gesto tão veloz e inesperado que muitos sequer entenderam o que havia acontecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus encostou. Anselmo abriu caminho entre a multidão para chegar ao corpo, mas desistiu no meio do caminho, vendo a poça de sangue que se expandia lentamente pelo chão do veículo. Sentiu sua pusilanimidade pesar-lhe as pernas como uma bola de ferro. Conseguiu ver a arma jogada entre os pés dos passageiros. Pensou em dar cabo da própria vida como fizera Paulo, mas não teve coragem. Perguntou-se no meio da aglomeração se alguém conhecia o morto. Anselmo ignorou o apelo, desceu do ônibus e seguiu em direção ao trabalho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-115604324198822533?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/115604324198822533/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=115604324198822533&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/115604324198822533'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/115604324198822533'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2006/08/janela.html' title='A Janela'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-115345168628087730</id><published>2006-07-21T00:14:00.000-03:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.325-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Do amor e outras coisas que se podem trocar - Epílogo</title><content type='html'>O sábado estava ensolarado, mas a temperatura era amena. Mário e Sandra combinaram de se encontrar bem cedo no mesmo ponto de ônibus em que tomavam o coletivo todos os dias. O destino era o Jardim Botânico, na Zona Sul da cidade. O convite soou exótico aos ouvidos de Sandra, que desde muito nova tinha como único lazer as praias e as boates e, talvez por isso, não conseguia imaginar nada de interessante para se fazer num lugar como aquele. Sem contar a distância que os separava do programa: dois coletivos, algo em torno de duas horas de viagem. Mas desenvolvera uma confiança na inventividade de Mário e sabia em seu íntimo que o passeio seria de alguma forma proveitoso. Ele, por sua vez, escolhera o lugar por dois motivos: queria um ambiente onde pudessem conversar por um longo tempo sem muitas pessoas ao redor para lhes tirar a privacidade; acreditava que todas as mulheres do mundo gostavam de flores. Mas não Sandra, que não tinha nenhuma lembrança terna para associar a elas e, além disso, era um tanto insensível à beleza em suas mais diversas formas. Não se encantava com crianças pequenas, cachorros brincalhões, pássaros graciosos e muito menos com as flores em sua beleza estática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após alguns minutos de caminhada pelas alamedas do jardim, Sandra já dava sinais de fastio, o que foi imediatamente percebido por Mário, atento às mínimas nuances no semblante de sua companheira. Vendo que nem o orquidário, com sua coleção de plantas raras e bem cuidadas, produzira efeito na fisionomia da moça, achou Mário por bem dar início aos diálogos que havia planejado de antemão. Avistou um banco de madeira debaixo de uma grande árvore que pareceu-lhe o lugar ideal. “Coitado! O pobrezinho está se esforçando. Mas isso lá é lugar para trazer uma mulher que se está querendo conquistar? Na certa achou que eu fosse uma dessas que derrete-se diante de um ramalhete de rosas murchas”, pensava Sandra, “Bom, pelo menos ele tem potencial”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cá estamos. Que lugar bonito nós conseguimos. – disse Mário num suspiro – Sabe, é nesses momentos que eu tenho certeza que Deus existe. Olha só pra isso, que céu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra fitou-o de soslaio, franzindo o cenho, como se ouvisse algo completamente fora de ocasião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Conte-me algo sobre você – continuou Mário. – Sua infância por exemplo, como foi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra contou-lhe sobre sua infância aquilo que o leitor já conhece. Começou sua narrativa num tom amargo, seco, como alguém que preenche por obrigação as trinta linhas de uma redação escolar. Porém, pouco a pouco, enquanto vasculhava a memória à procura de detalhes e ia deparando-se com as doces lembranças da vida de criança, sua voz enterneceu-se. Os olhos brilhantes de Mário, que acompanhavam tudo com muito interesse, transmitiram tanto afeto que Sandra sentiu um calor aquecer-lhe o peito. Tinha medo daquele novo sentimento que despontava. “Nada apavora mais o homem do que aquilo que muda seus hábitos”, já dizia Dostoiévski.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora eu já falei de mim. É a sua vez de ser investigado pela lente da verdade – disse Sandra com um franco sorriso de lado a lado do rosto.&lt;br /&gt;- Bom, o que eu tenho a dizer? Joguei bola a infância inteira, matava aula, ouvia as broncas do meu pai...&lt;br /&gt;- E sua mãe?&lt;br /&gt;- Não me recordo muito bem dela, já que faleceu quando eu era bem pequeno.&lt;br /&gt;- Puxa, deve ter sido uma infância difícil.&lt;br /&gt;- Na verdade não. Foi mais fácil pra mim, que não tive contato com ela, do que pro meu pai, que sofre até hoje.&lt;br /&gt;- Nossa! Como meu pai me fez falta. Acho que eu não teria sofrido metade do que sofri se ele estivesse vivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Sandra se pôs a contar suas desilusões amorosas do princípio da adolescência, os rapazes que a ludibriaram, o encrudecimento de sua visão do amor e o desprezo que desde então nutrira pelos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu me pergunto como podem existir pessoas assim! – exclamou Mário indignado. – Veja só o que esses homens desperdiçam. Eles têm momentos com o corpo e jogam toda a imensidão da alma fora. É como comprar uma garrafa de refrigerante, divertir-se com a tampinha e jogar todo o restante na lixeira. Nenhum deles pôde experimentar um momento de descoberta como esse que estamos vivendo. É a total degradação do gênero humano!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra, assustada, fitava Mário em seu transporte de fúria. Não compreendia a razão de tamanho arroubo. “Será que ele é gay?”, pensava, “Não, não. Ele não tem jeito de gay. Mas será que é tão difícil assimilar que os homens devem levar as mulheres para a cama?”. Mário entendia que sua grande missão com Sandra era transmitir-lhe a idéia de que cada pessoa é universalmente única e salvá-la deste ciclo humano de autodestruição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas conta-me sobre tua adolescência. – disse Sandra, tentando mudar de assunto.&lt;br /&gt;- Passei-a toda nos campos de futebol. Diziam que eu tinha talento. Joguei no juvenil do Flamengo e cheguei a fazer peneira para os profissionais.&lt;br /&gt;- E porque você não passou?&lt;br /&gt;- Eu sei muito bem porquê. O roupeiro do clube era um velho conhecido do meu pai e apreciava muito meu futebol. Ele contou-me posteriormente que a peneira já estava combinada com alguns empresários para selecionar certos garotos. Coisa de peixe grande. Aí já viu...&lt;br /&gt;- Por que você não tentou outras peneiras?! São tantos os jogadores dispensados várias vezes mas que viram profissionais depois.&lt;br /&gt;- Eu sei disso, e todos me incentivaram a tentar novamente. Mas eu achei, e ainda acho, que não era pra eu ser jogador de futebol. Sabe lá em quem eu me transformaria vivendo naquele mundo de badalação e vaidade? Talvez nos anos quarenta, a era do futebol romântico, eu tivesse um grande nome. – disse Mário, suspirando. - Mas não me sinto nem um pouco ressentido. Ainda dou meus lençóis e canetas nas peladas de domingo e me sinto satisfeito.&lt;br /&gt;- Se eu estivesse no seu lugar, teria dado a vida para ser um jogador. Só de não ter que pegar aquele ônibus lotado todas as manhãs já valeria a pena.&lt;br /&gt;- Eu não trocaria este momento que estamos vivendo pelas maiores glórias do futebol. Ter uma alma sensível às belezas do mundo é um bem mais valioso que a fama e a fortuna. Você acha que eles dão o mesmo valor que você a um carro de luxo? Eles o dirigem com a mesma sensação de coisa comum com a qual você paga sua passagem no ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra não só discordava, como também achava absurdas as idéias de Mário. Aceitava que uma pessoa rica discursasse sobre a inutilidade do dinheiro, da fama e da fortuna. Mas não admitia isso vindo dum porteiro suburbano órfão de mãe. “Deus colocou-o no mundo, jogou seu endereço fora, mas, ainda sim, aí está ele falando sobre alma, beleza e amor”, pensava Sandra. Apesar de não possuir nenhuma atração por suas idéias, sentia por ele uma admiração crescente. Este era o primeiro homem com quem se relacionava que possuía idéias e se orgulhava delas. Os demais, ou não as tinham, ou não se dignavam a compartilhá-las com ela, mero bibelô de suas fantasias. A ocorrência deste pensamento afligiu-a. Sentiu-se humilhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário, notando os novos contornos entristecidos na face de Sandra, decidiu animar a atmosfera com uma nova caminhada, mas dessa vez ao som do tocador de músicas, pivô inconsciente de tantos engendros do destino. Cada um ficou com um fone e Mário pôs a nona sinfonia de Dvorák para tocar. A proximidade física imposta pelo comprimento limitado dos fones de ouvido obrigou-os a caminhar ombro a ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se importa? – perguntou Mário, enquanto pousava levemente sua mão no ombro de Sandra.&lt;br /&gt;- Não. – respondeu Sandra, pensativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra fitou Mário, enquanto este olhava para o céu suspirando, como que contemplando uma beleza invisível aos olhos dela. “Que sujeito simples, e doce”, ela pensou. Sentiu-se imensamente tranqüila, e começou a contemplar a sua volta. O céu explodia num azul fulgurante, contrastando com o verde vigoroso das copas das árvores. Observou um casal de pequenos pássaros que voavam entre seus galhos, numa brincadeira sem fim. O sol perfurava a folhagem das árvores, desenhando no ar uma chuva dourada, composta por inúmeros raios amarelos resplandecentes. Aquela música colossal, por ela tão adorada, parecia ter sido composta como trilha sonora para o passeio despretensioso daquelas alvas nuvens que desfilavam diante de seu olhar contemplativo. Tudo a sua volta parecia majestoso e envolto numa áurea gloriosa. Na pele de seu ombro, a mão larga de Mário repousada, transmitia carinho e proteção. O sentimento de humilhação deu lugar ao êxtase, seu coração pulsou com ardor e uma grande alegria apossou-se de sua alma. Uma lágrima cristalina escorreu do canto de seu olho esquerdo. Ela apressou-se em secá-la e sorrir abertamente para Mário, que interrogara-lhe com o olhar. “É o sorriso mais lindo que já vi”, pensou ele. E tratava-se deveras de um sorriso novo, que refletia um sentimento igualmente novo. O sorriso arteiro, insolente, deu lugar ao júbilo sincero de um ser inteiramente renovado pela constatação da existência da beleza e do amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando sentaram-se novamente no banco de madeira, Sandra, radiante, com um largo sorriso nos lábios e um brilho intenso no olhar, disparou:&lt;br /&gt;- Acho que não vai ser difícil, custoso e nem um pouco demorado te amar. Esse aparelho está no papo! – e abraçou-lhe carinhosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário não esperava essa manifestação de carinho repentina vinda de Sandra, que até momentos antes daquele mágico sorriso passara o dia com a expressão fechada e manifestando opiniões contrárias às suas, se não com palavras, com a contração reprovadora de sua sobrancelha esquerda. Agora, aquela mulher estonteante lançava-se vivamente em seus braços, como uma criança procurando colo. Diferente do êxito que lograra com outras mulheres, Mário não via em Sandra os sinais de fraqueza da rendição, mas uma espécie de êxtase oriundo de um acontecimento interior, como se ela houvesse descoberto algo por si mesma, independente das táticas por ele aplicadas. “Ela é original até na hora de se apaixonar”, pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentaram-se novamente num banco e permaneceram abraçados. Sandra, que tinha a cabeça pousado no peito de Mário, levantou o rosto de forma lenta porém resoluta, olhou-o nos olhos com um brilho intenso e aproximou lentamente os lábios dos dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ei! Não esqueça que eu prometi não encostar um dedo em você – disse Mário, sem afastar-se um milímetro da adorável cútis dourada da moça.&lt;br /&gt;- Para todos os efeitos, sou eu quem está quebrando o trato. – respondeu Sandra, beijando-o em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra sentia seu coração palpitar como no primeiro beijo. Um forte tremor percorria todo seu corpo. Tentava, mas não conseguia compreender tamanho arroubo, uma vez que seu raciocínio estava entrecortado por irrompimentos de emoção incontroláveis que assemelhavam-se a explosões de fogos de artifício. Tão intenso era seu arrebatamento, que sequer pensava em Mário. Nem mesmo pensava, apenas deixava-se conduzir. Entrementes, Mário era arrastado pelos atributos de Sandra, sem condições de ensaiar resistência. A pele quente, os lábios macios e carnosos, acompanhados do doce som da respiração gemente da moça ateavam fogo a sua volúpia, que atingia níveis até então desconhecidos dele próprio. Não era um primeiro beijo clássico, romântico, gentil. Era carregado de uma espécie de violência velada, a explosão de um desejo reprimido somada ao êxtase inconsequente de uma alma há pouco realizada. Esqueceram-se de que estavam num parque público e ultrapassaram os limites da compostura com seus beijos acalorados. Algum tempo depois, seguiram para um motel, onde se entregaram completamente um ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vários dias e encontros passaram-se, era sábado novamente e Sandra estava radiante. Havia feito uma descoberta surpreendente: estava amando Mário. Contava os segundos para contar-lhe a notícia. “O trato deu certo. Quem podia imaginar uma coisa dessas?”, admirava-se. Assim que Mário chegou ao local marcado para o encontro, Sandra correu até ele e enlaçou-o pelo pescoço.&lt;br /&gt;- Tenho uma nova para te contar! – disse ela efusivamente.&lt;br /&gt;- Nossa! Que animação toda é essa? – perguntou Mário, sorrindo junto com ela.&lt;br /&gt;- Eu descobri que... finalmente... estou amando! – e abraçou-o e beijou-o repetidas vezes.&lt;br /&gt;- Que coisa maravilhosa, minha querida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles continuaram caminhando lado a lado, de mãos dadas, alegres como namorados colegiais. Mário sentia a inebriante paz do dever cumprido. Seu orgulho tentava convencer-lhe de que suas manobras engenhosas eram as responsáveis por aquela visível metamorfose emocional, mas bastava-lhe uma breve reflexão para lembrar do que concluíra dias antes no jardim: Sandra havia deliberadamente despojado os conceitos que levara uma vida para cunhar em nome de outros nos quais nem mesmo cria. “Foi como uma conversão”, ele pensou. Sandra, vendo efervescer em si sentimentos enterrados desde a adolescência, sentia-se segura. Era como se nada mais lhe faltasse no mundo. Agora que finalmente amava, não via razão para envergonhar-se diante das velhas senhoras de sua rua que condenavam-lhe o comportamento. O amor era sua redenção. Entretanto, lembrou-se de que uma coisa ainda lhe faltava: o prêmio da aposta. A gritante necessidade de outrora, que levou-lhe às atitudes mais desprezíveis, desaparecera por completo. Mas se isso era um direito seu, e era assim que ela compreendia, devia reivindicá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mário, meu amor, acho que agora mereço meu prêmio... – disse Sandra alegremente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário deu um salto, como se ouvisse a última coisa do mundo que esperava sair dos lábios de Sandra.&lt;br /&gt;- Como assim?! Então tudo não passou de uma simples aposta!? Quando lhe propus o trato estava certo de que, uma vez me amando de verdade, você esqueceria completamente a recompensa. Afinal de contas, a recompensa sou eu e o amor que sentimos! – disse ele indignado.&lt;br /&gt;- Mas nós fizemos um trato, meu querido. Agora que eu te amo, é meu direito ter o tocador de músicas. – respondeu Sandra num tom conciliador.&lt;br /&gt;- Mas como terei certeza desse amor? A única evidência que eu posso ter para validar seu sentimento é a abdicação do prêmio que lhe era tão importante em nome desse sentimento maior.&lt;br /&gt;- Mário, ouça-me: eu te amo – disse ela pausadamente - . E justamente por isso, o aparelho agora me pertence. Foi o que combinamos. Não existe nada nesse mundo que possa provar a existência do meu amor por você. Amor não se prova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra fazia questão do aparelho por causa de sua natureza reivindicadora. Era do tipo de pessoa que faz questão do último centavo no troco de um sorvete. Mário sentia-se abalado com aquilo que julgava uma demonstração de mesquinharia. Desconfiava que o profundo sentimento demonstrado por Sandra não passava de um ardil para conseguir o aparelho. Tal desconfiança causava-lhe pontadas de intensa dor no peito, uma vez que já havia se afeiçoado imensamente à moça. Atribuir-lhe tal pequeneza d´alma era ver desaparecer para sempre a imagem de mulher única e original que via nela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada neste mundo existe sem evidências, - argumentava Mário professoralmente - nem mesmo as coisas invisíveis! Vemos o ar levantando as folhas que ficam pelo chão. Não podemos enxergar a energia elétrica, mas sentimos a força de seu choque ao tocar algo pelo qual ela percorre. Tudo que existe, ainda que intocável, precisa ser evidenciado por alguma manifestação externa. O amor não é diferente!&lt;br /&gt;- Mas claro que é diferente! – retrucou Sandra vivamente - O amor é um sentimento, ele existe por si próprio e ainda que ninguém creia em sua existência ele continua lá da mesma forma e com a mesma força. Eu poderia abrir mão do seu aparelho por pura polidez e ainda assim não lhe amar. Será que não enxerga isso? Se o sentimento que você carrega no peito exige uma evidência, uma prova, é qualquer coisa menos amor.&lt;br /&gt;- Sandra, eu sinto muito, mas não posso acreditar que me ame somente por suas palavras. Existem pessoas que tiram a própria vida por amor. Seria este sacrifício vão, uma vez que o amor não pode ser provado? Nesse momento, sou vítima de uma dúvida mortal, que não pode ser elucidada sem uma prova concreta de seu sentimento. Mas vou dar-lhe a grande chance de provar seu amor por mim. Escolha o tocador de músicas, ele será seu, mas nunca mais me verá. Escolha-me e eu te amarei para sempre, mas venderei o tocador de músicas para o primeiro que aparecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra estava atônita. Não compreendia como as coisas haviam chegado a esse ponto. Olhava fixamente nos olhos de Mário para ver se estes explodiam numa gargalhada, revelando apenas uma brincadeira de mal gosto. Mas a face de Mário permanecia estática. Sandra estendeu a mão com a palma aberta. Mário hesitou por alguns instantes, mas vendo a atitude resoluta da moça, tirou o aparelho do bolso e depositou-o sobre sua mão. Ela virou-se e foi embora. Houve um silêncio sepulcral. Mário ficou imóvel assistindo aquela encantadora silhueta distanciar-se. Os pequenos detalhes de suas roupas foram desaparecendo pouco a pouco até que ela se tornou apenas uma pequena mancha escura no horizonte. Enfim, ela desapareceu. Depois disso, nunca mais voltou a vê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário pergunta-se até hoje se Sandra realmente o amou; se tudo aquilo não passou de um ardil para alcançar um objetivo; se ele foi um tolo ao dar-lhe o aparelho. Questiona-se também quanto a sua própria atitude: Porque havia quebrado sua palavra, cedendo a seus instintos mais vorazes como nunca antes havia feito, ao levar a moça para a cama aproveitando-se de seu estado emocional fragilizado? Não teria então agido como os demais homens de alma rasa, alvos de suas críticas mais ácidas? Quem então havia quebrado o trato, quem havia dito a verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra nada se pergunta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-115345168628087730?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/115345168628087730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=115345168628087730&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/115345168628087730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/115345168628087730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2006/07/do-amor-e-outras-coisas-que-se-podem.html' title='Do amor e outras coisas que se podem trocar - Epílogo'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-115077111798647114</id><published>2006-06-19T23:37:00.000-03:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.325-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Do amor e outras coisas que se podem trocar - Parte 3</title><content type='html'>Sandra refletiu durante todo o trajeto do apartamento de Fernanda até a loja, mas nenhuma solução apresentava-se satisfatória. Concluiu que somente apelando para seu dom da sedução, do qual possuía absoluta consciência, conseguiria safar-se. Em qualquer outro cenário teria cogitado tal possibilidade como primeira alternativa, mas a vítima em questão não se tratava de um rapazinho bem criado da Zona Sul, carregando as vontades sobre a fronte como se fossem uma coroa. Era um suburbano batalhador como seu pai e, mais do que isso, o único homem de quem tinha lembrança de tê-la tratado com respeito. “Mas que mundo estranho! Passo a vida enganando os homens e por eles sendo enganada, e justamente quando encontro um que merece um pouco mais do que isso, sou obrigada a enganá-lo da mesma forma”, se desesperava. Sentia-se como que presa a este fatídico destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, deu início aos engendros de sua estratégia. Acordou cedo e vestiu-se fitando atentamente o relógio para não se atrasar nem adiantar em relação ao horário do ônibus em que encontrara Mário da última vez. Escolheu a dedo a roupa que vestiria. Substituiu a saia curta e o decote agressivo por um vestido branco singelo, estampado com flores, que atribuía-lhe um ar meigo, mas ao mesmo tempo revelava suas formas curvilíneas. O tecido alvo ressaltava ainda mais o tom forte e reluzente da pele de Sandra, revelada principalmente em suas espáduas nuas e seu busto semi-descoberto. Soltou os cabelos, perfumou-se mais que o de costume e saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando ao ponto de ônibus, pouco esperou. O coletivo chegara exatamente de acordo com o previsto. Embarcou no veículo, entregou o dinheiro ao cobrador e de pescoço esticado procurava atentamente o rosto quadrado e viril de Mário. Lá estava ele, sentado num dos bancos e, com a cabeça reclinada sobre o encosto e com a testa encostada no vidro, olhava perdidamente através da janela. Sandra cumprimentou-o com um vivo sorriso que foi prontamente correspondido. Eis o que havia se passado com ele. Após despedir-se de Sandra há dois dias atrás, Mário ficou incomodado com a confiança gratuita e desmedida que sentiu naquela moça. Sequer a havia visto antes e já lhe confiava o aparelho mais caro que possuía. A propabilidade lógica de que ela desaparecesse por completo era muito grande. O valor do prejuízo financeiro não lhe importava, mas sim a atitude exageradamente ingênua que tomara. O que responderia ao Sr. Sílvio, homem prático e materialista, se este lhe perguntasse pelo aparelho? “Ora, Sr. Sílvio, emprestei-o para uma mulher que conheci no ônibus dia desses e ela surpreendentemente desapareceu. O senhor não acha estranho que ela tenha sumido com meu aparelho? Grande garoto! Muito espero!”, ridicularizava-se. O dia seguinte fora a confirmação de suas previsões mais pessimistas. Ela não estava lá como havia prometido. No momento em que Sandra cumprimentou-o, pensava ele justamente no grande tolo que havia sido, mas aquela aparição repentina, com ares de epifania, foi refrescante como uma ducha fria num cálido dia de verão carioca. Olhou para aquele belo corpo inclinando-se para sentar ao seu lado, a boca de lábios arteiros que sorria-lhe, as mãos delicadas que traziam seu caro aparelho intacto e pensou: “Uau! Eu sou mesmo um grande sortudo”.&lt;br /&gt;- Pensou que eu fosse sumir, né? Desculpe pelo susto que eu lhe dei ontem. Acontece que passei muito mal e não fui trabalhar. – disse Sandra com um traquejo carregado de feminilidade e olhar fugidio, simulando timidez.&lt;br /&gt;- O importante é que você está aqui. – respondeu Mário, que foi instantâneamente arrastado pelos próprios sentidos, todos cativos dos atributos de Sandra. Os olhos deliciavam-se com o decote comportado, porém insinuante; os ouvidos apreciavam a voz suave e melodiosa; as narinas dilatavam-se para captar mais daquele perfume que parecia encher o mundo; a pele do braço rejubilava-se com as frequentes encostadinhas no de Sandra, derivadas dos solavancos do coletivo, que revelavam uma cútis suave e macia; o paladar, este sim, o único dos sentidos a não fazer parte da festa, sedento, pressionava e coagia o resto do corpo para que o convidassem a participar, mergulhando-o no sabor desconhecido daquela boca húmida e quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário estava efetivamente interessado em Sandra, mas era um rapaz diferente do convencional. Enquanto a maioria rendia-se ao deleite dos sentidos, buscando a satisfação imediata de suas vontades, Mário acreditava no amor perfeito, ideal e utópico que conhecera nos livros de Goethé. Era o misto de romantismo alemão e lascívia brasileira, resultando num emblemático amálgama de elevadas expectativas morais e grandes cargas de desejo sexual. Este último, herança congênita da santíssima trindade carioca – samba, futebol e mulatas – na qual jazia alegremente. A alternância de duas influências tão dicotômicas processava-se naturalmente na mente de Mário e era para ele a forma correta de viver e se relacionar. Quando saía para as festas, pagodes e noitadadas acompanhando os amigos, enquanto estes se agarravam com várias moças na mesma noite numa disputa bestial por quem era o mais sedutor, Mário, por sua vez, costumava escolher tranquilamente entre todas as presentes aquela que seria alvo de sua inteira atenção. Às vezes tratava-se da mais atraente da festa, aquela a quem todos julgavam inatingível. Noutras ocasições, porém, escolhia a que fora preterida pelos demais homens, por enxergar beleza oculta nalgum detalhe que os outros não percebiam, como a meiguice de um olhar tímido ou o fulgor de um sorriso espontâneo. Fosse quem fosse, uma vez escolhida, tal moça seria cercada de delicadeza e reverência como nunca antes experimentara. Conversava sem pressa, olhando nos olhos, ouvindo atentamente, como quem gostaria de estender aquele papear noite adentro. E deveras gostaria. Mário encarava, a seu próprio modo, cada pessoa como uma única e original combinação das nuances da natureza humana, como um quadro que teve suas cores escolhidas individualmente por seu pintor e, assim como a unicidade absoluta da impressão digital, sabia ser impossível encontrar duas pessoas com características idênticas e, por isso, dedicava-se integralmente a alguém que acabava de conhecer, principalmente tratando-se de uma bela mulher. Deliciava-se ao descortinar o universo particular alheio e descobrir os detalhes imprevisíveis de uma personalidade desconhecida. Apesar de dar vazão à sua volúpia quando encontrava contrapartida em sua acompanhante, Mário abdicava do prazer ao deparar-se com uma moça fragilizada, recém-saída de um relacionamento fracassado ou sofrendo uma crise de auto-estima, ao contrário de seus amigos, que consideravam tal brecha uma oportunidade de ouro para seus intentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O papo no ônibus prosseguiu animadamente entre os dois, que demonstravam uma empatia mútua tão grande que por diversas vezes esqueceu o rapaz de seu desejo e a moça de seus ardis. Simplesmente conversavam, riam e se descobriam. Sandra achava-se inteiramente à vontade na companhia de Mário; sentia-se cobiçada, mas não por conta de seus trejeitos planejados e sim - coisa estranha! - por alguma aura inebriante que os cercava, tornando as palavras e movimentos de ambos aprazíveis. “Será isso o tal do amor?”, pensava maravilhada. Entrementes, Mário não cessava de pensar no quão sortudo era. Já havia conhecido mulheres tão ou mais belas que Sandra, mas nenhuma delas tão segura de si quanto esta, que gargalhava tão logo achasse graça, inclusive de seus próprios gracejos, e não impedia o rubor de lhe subir à face ao falar do pai. A alma de Sandra parecia revelar-se deliberadamente diante dele, sem que fosse necessário nenhum esforço de sua parte. Até dos mínimos movimentos de Sandra emanavam energia e resolução. “Aí está uma moça admirável. Bela e dona de si.”, pensava Mário. Sentiam-se mais do que atraídos, pareciam titubear entre querer o outro como amigo ou amante. Mas indepentende do que viria a acontecer, sentiam no íntimo que o destino havia entrelaçado suas vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra, ao ver que o ponto de desembarque aproximava-se, caiu em si, como quem desperta de um doce sonho, e sentiu virem à tona, de uma só vez, todas as angústias que lhe corroíam até o momento em que encontrou Mário. Recordou-se de suas dolorosas conclusões: nenhuma mentira seria convincente o bastante para explicar o desaparecimento do tocador de músicas; suas colegas de trabalho a reputariam como uma moça frívola que pede bens alheios emprestados para se promover; dona Fernanda a consideraria uma aproveitadora ardilosa, que não possui nenhum senso moral em sua busca desenfreada por ascenção. A tragéria estava armada. As feições de Sandra transformaram-se e Mário notou imediatamente:&lt;br /&gt;- Está tudo bem? Você está com uma cara estranha.&lt;br /&gt;- Não se preocupe. Nós estávamos aqui conversando e eu esqueci dos meus problemas. Mas eles fizeram questão de me lembrar que existem. Mas está tudo bem. – disse Sandra. O ar lhe faltava, sentia o peito comprimido e algo lhe travava a garganta.&lt;br /&gt;- Então me conte que problema é esse. Talvez eu possa lhe ajudar em alguma coisa. A solução às vezes vem de onde menos se espera. – respondeu Mário. Sandra ouviu aquelas palavras como uma resposta divina. Era como se um poderoso raio de luz penetrasse as densas trevas de seu desespero. Fitou os olhos de Mário, sorriu e, já dona de si, disse:&lt;br /&gt;- Você está certo. Já está na hora de eu descer e se você puder me acompanhar como fez naquele dia eu lhe conto tudo.&lt;br /&gt;- Mas é claro. – concordou prontamente Mário. Ambos levantaram e após driblarem a massa de pessoas que lotava o coletivo, desembarcaram. - Pois então. Me conte o seu problema. – continuou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra contou pormenorizadamente o caso e expôs sinceramente seu desespero. Fez isso sem nenhuma deturpação dos fatos ou vitimização de sua pessoa, tamanha era a confiança que depositava em Mário, que ouvia tudo atentamente, franzindo a testa e olhando para o chão, como se fizesse complicados cálculos matemáticos para elucidar a questão.&lt;br /&gt;- Uau! Em que furada você se meteu. Veja bem, eu lhe daria o aparelho sem pensar duas vezes, independente dele ser caro, moderno, chique ou seja lá o que for, mas ele foi motivo de discórdia entre o síndico e os moradores onde eu trabalho, quando eu o ganhei na festa do condomínio. Eles diziam que um simples porteiro não saberia usar um aparelho sofisticado como esse. Se alguém perceber que eu não o tenho mais comigo, pode dar uma grande confusão, e o próprio Sr. Sílvio me conzinharia vivo. – disse ele gesticulando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de visualizar claramente todos estes conflitos, Mário estava prestes a encará-los para solucionar o drama de Sandra, não por simples altruísmo, mas por achar que aquela situação não se apresentava por coincidência, mas por algum desígnio, dada a sinergia que havia entre eles. Mas não teve tempo de aprofundar seus pensamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra ouviu tudo com olhos arregalados, compreendeu os motivos de Mário e concluiu que suas alternativas haviam se esgotado. Um vento de torpor invadiu sua alma, semelhante à indiferença que um condenado à morte sente pelos detalhes triviais que permeiam a vida daqueles que continuarão a possuí-la. Olhou-o com frieza e disparou:&lt;br /&gt;- Você gostou de mim?&lt;br /&gt;- Eu adorei você. Mas... – Mário foi interrompido.&lt;br /&gt;- Você me quer?&lt;br /&gt;- Como assim? O que você está... – novamente foi cortado pelo tom seco de Sandra.&lt;br /&gt;- Podemos fazer um acordo. Eu durmo com você quantas vezes quiser e, em troca, o aparelho é meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário congelou. Simplesmente não acreditava no que ouvia. Aquela incrível mulher que há poucos instantes parecia-lhe a incrível combinação de tudo que ele mais admirava, rebaixava-se agora à faceta mais vil dos relacionamentos humanos, a prostituição. Estatelado, fitava o resto gélido de Sandra, tentando em vão encontrar o sorriso represado de uma brincadeira de mal gosto. Em vão, tentou argumentar:&lt;br /&gt;- Sandra, o que é isso? Eu não acredito que você esteja falando sério.&lt;br /&gt;- Ora, sem essa! Eu sei muito bem o que você quer. Todos os homens são iguais e, caso não saiba, as mulheres também. Tudo nessa vida gira em torno disso: interesses. Você quer meu corpo, eu quero seu tocador de músicas. O que tem de novo nisso?! É assim desde que o mundo é mundo. Só que temos o polido costume de mascarar as duras verdades com belas palavras. Amor, paixão, amizade... Tudo não passa de hipocrisia! Somos as velhas bestas-feras de sempre, com a mesma sede de sangue, rasgando a dentadas aqueles que baixam a guarda para nós. Mas parece que a chacina não é tão prazerosa se não vestirmos a pele de doce ovelhinha, o olhar supreso da vítima ao ser abocanhada faz parte do deleite. Do contrário, qual o motivo de minha proposta ter sido recebida com tamanho espanto? Eu sei! Você se pergunta: “Como uma simples mulher desbaratou a estratégia que nós homens utilizamos há séculos!”. Eu entendi como tudo funciona e só quero facilitar as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra estava ofegante. Seus busto ondulava ao intenso movimento dos pulmões. Os olhos cintilavam semicerrados num misto de ódio e carência. Mário, num relance, fez um apanhado geral dos fatos e, recuperando-se do abalo inicial, recobrou o domínio sobre si.&lt;br /&gt;- Tudo bem. O acordo está feito, desde que você concorde com o meu único ponto.&lt;br /&gt;- Como assim? – disse Sandra estupefata, que não esperava uma reação tão rápida e segura da parte dele.&lt;br /&gt;- Não quero que você durma comigo, quero que me ame. Se me amar de verdade, o aparelho será seu.&lt;br /&gt;- Hein?! Como você vai saber que eu te amo de verdade, seu louco.&lt;br /&gt;- Nós saberemos. É impossível não saber quando se ama alguém. Você quer ou não o aparelho?&lt;br /&gt;- Tudo bem. – disse Sandra num saboroso sorriso de criança que topa uma travessura – Como vamos fazer?&lt;br /&gt;- Nos encontraremos sempre que possível depois do trabalho, a começar por hoje, e nos fins de semana sairemos juntos por aí. Conversaremos bastante, nos conheceremos e, que fique bem claro, não lhe encostarei um dedo. Você abrirá seu coração e se esforçará para me amar de verdade e, quando isso acontecer, o aparelho será seu.&lt;br /&gt;- Feito. Começa hoje então?&lt;br /&gt;- Sim, eu passo aqui na loja para lhe buscar.&lt;br /&gt;- Não! – redarguiu Sandra num estalo, com vergonha do porteiro vir buscar-lhe à porta da elegante loja onde trabalhava. – A patroa proíbe namorados, maridos, noivos e essas coisas no ambiente da loja. Sabe como é, alguns são muito ciumentos...&lt;br /&gt;- Tudo bem. Eu espero você depois do horário. Conheço um barzinho muito animado perto daquele nosso ponto de ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra, radiante, entrou na loja com o aparelho pendurado na cintura, aliviada como se toneladas fossem retiradas de suas costas. Estava empolgada com o que aquele rapaz imprevisível poderia aprontar dali para frente. De tudo quanto se lembrava ter feito para conseguir alguma coisa, amar era a única que não constava em sua lista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário estava convencido de que poderia fazer Sandra amar do jeito que aprendera nos livros de Goethé. Tinha dentro de si o material combustível necessário para fazer este novo sentimento arder no peito de Sandra, mas tudo dependeria, acreditava ele, do quão aberta ela estaria para amá-lo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-115077111798647114?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/115077111798647114/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=115077111798647114&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/115077111798647114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/115077111798647114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2006/06/do-amor-e-outras-coisas-que-se-podem.html' title='Do amor e outras coisas que se podem trocar - Parte 3'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-114851902030503369</id><published>2006-05-24T22:01:00.000-03:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.325-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Do amor e outras coisas que se podem trocar - Parte 2</title><content type='html'>Sandra bateu à porta da sala de dona Fernanda timidamente, pois nunca fizera tal coisa desde que fora contratada como vendedora da loja. Fez-se ouvir a voz gentil e polida da jovem senhora: - Pode entrar. Sandra abriu a porta, cumprimentou-a e tomou assento, sentindo o mesmo tremor de meses antes, quando sentara naquela cadeira para a entrevista de emprego. Agora, cara-a-cara com aquela figura que lhe inspirava temor e adoração, Sandra deu-se conta do quanto gostaria de ser como ela. Os cabelos lisos e hidratados, os dentes brancos, a pele rósea e brilhante, o rosto suavemente maquiado, o perfume inebriante que enchia o ambiente, as roupas estalando de novas, tudo naquela mulher parecia perfeito. Sandra, que numa eleição popular tinha grandes chances de ser eleita mais atraente que Fernanda, sentia-se encolhida sobre aquela cadeira como um religioso diante de seu deus.&lt;br /&gt;- Mas deixa-me ver este tocador de música. – pediu animadamente Fernanda, recebendo da moça o aparelho nas mãos. – Uau! Que chique. Como é que usa esse negócio?&lt;br /&gt;- É assim, olha... – E Sandra manuseou o aparelho mostrando-lhe como selecionar as músicas.&lt;br /&gt;- Puxa, mas que legal. E eu andando com esse discman horroroso por aí. Coisa antiquada, minha nossa! Mas é que eu não sou muito antenada em tecnologia. Estou sempre a um passo atrás e preciso que alguém chegue, me dê um safanão e diga: Ei, sua atrasada, ninguém mais usa isso! – E riu, como se contasse uma anedota muito engraçada. Sandra acompanhou-a na gargalhada e realmente achou graça, não pelo que foi dito, mas por ver aquela adorada boca abrir-se revelando um mar de dentes brancos perfeitamente alinhados. Sandra pouco falava. Apesar de austera com relação aos horários, Fernanda resolveu relaxar do estafante dia de trabalho que vinha tendo e estendeu o papo em outra direção.&lt;br /&gt;- Ai, como estou cansada. Tem dias que são um inferno! Parece que os fornecedores, cobradores e clientes combinam entre si para me atazanarem todos de uma vez. Quer saber? Estamos quase no fim do expediente, você tem algum compromisso? – Sandra fez que não com a cabeça. A pergunta soou-lhe aos ouvidos como tendo sido feita em polonês. Era simplesmente impossível cogitar que dona Fernanda, a própria, faria-lhe um convite. - Nós poderíamos ir a uma loja de eletrônicos aqui perto que vende esses tocadores de música. Eu vou comprar um como o seu. É isso! Eu mereço me presentear de vez em quando, ora bolas. E eu prefiro ir acompanhada de alguém que entenda do assunto. Depois nós tomamos um chope pra relaxar. Vai ser por minha conta, é o pagamento pela sua consultoria. – E deu boas risadas novamente, como se tivesse contado uma excelente piada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra sentia-se no céu. Estava saindo da loja antes do horário, na companhia da patroa, com o caro tocador de músicas a tiracolo e desfilando sob o olhar invejoso de todas as colegas. No caminho, Fernanda vasculhava as músicas disponíveis no aparelho.&lt;br /&gt;- Dvorák?! Puxa, que gosto refinado, mocinha. É difícil encontrar jovens que gostem de música clássica hoje em dia. &lt;br /&gt;- Meu falecido pai sempre ouvia Dvorák ao chegar do trabalho. Ele colocava o vinil na vitrola, sentava no sofá, me deitava em seu colo e assim ficávamos até a hora em que mamãe aprontava o jantar. Sempre que ouço, me lembro dele. – Sandra sentiu  um pequeno sinal de embargo na voz e procurou se recompor para não pôr tudo a perder com um dramalhão inconveniente. Sacudiu o semblante e recomeçou: – Mas eu não gosto só de música clássica. Acho muito chata essa gente que torce o nariz para as músicas mais animadas. Eu ouço Dvorák com muito gosto, mas também adoro um bom pagode, um forró ou um funk. Se fizer a gente dançar, suar e extravasar, pouco me importa se é um ritmo “sofisticado” ou não. – Sandra surpreendeu-se com a própria franqueza. Ficou hesitante aguardando a reação de Fernanda. Aquele milésimo de segundo pareceu-lhe que teimava em passar. Será que havia ido longe demais? Afinal, pessoas refinadas como ela têm por hábito o acintoso rechaço aos ritmos populares.&lt;br /&gt;- É isso mesmo! Eu também sou assim. Nas minhas festas sempre toca muita música animada. Tem gente que fica no canto fazendo bico, mas eu nem ligo. Eu pulo, danço e brinco muito. Eles querem que eu dance o que, a mazurca? Quando estou em casa lendo um livro, aí sim, coloco um clássico pra relaxar. Ler ao som do samba-enredo da Portela também não dá. – E riu com gosto uma gargalhada convidativa que foi prontamente seguida por Sandra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após Fernanda ter comprado seu tocador de músicas, foram elas a um elegante e bem frequentado bar com mesas espalhadas na calçada, cada uma protegida por um grande guarda-sol, de frente para a praia que ficava do outro lado da avenida. O sol exalava um calor aconchegante, o horizonte exibia a tonalidade avermelhada do início do crepúsculo e o vento passeava tranqüilamente pela orla, compondo assim um perfeito fim de tarde. A beleza de Sandra, explodindo saúde e jovialidade, somada à beleza madura e serena de Fernanda formavam uma combinação arrebatadora para os olhares masculinos ao redor. Até os homens que passeavam pela calçada de mãos dadas a suas mulheres não conseguiam evitar que seus olhos pousassem naquelas beldades e suas distintas perfeições. Fernanda, que já não se enxergava tão jovem e atraente como outrora, sentiu renovado seu coquetismo feminino e creditou intimiamente o sucesso a sua deslumbrante companheira de mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois homens altos, elegantes e aparentando seus trinta e poucos anos apresentaram-se pedindo, com muita polidez e simpatia, permissão para tomarem assento, a qual foi-lhes concedida não sem um falso ar de fastio por parte delas. Ambos pareciam ter saído a pouco do trabalho. Trajavam ternos, estavam desvencilhados de seus paletós e com as gravatas afrouxadas. Deu-se início ao típico diálogo do cortejo, carregado de curiosidade e excitação. Sandra agora estava em terreno sólido. Sabia fazer-se desejada, atiçar o desejo masculino fazendo-se cheia de pudores. Fernanda, por sua vez, parecia ter voltado à adolescência. Sorria gratuitamente e fitava com fixação os olhos de seu par. Sentia-se extasiada, viva. “Nossa! Há quanto tempo não me sinto assim.”, pensava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali seguiram para o espaçoso apartamento de Fernanda, que morava sozinha – divorciada e com a única filha estudando em Londres -, onde fizeram sexo por horas a fio. Findo o ato, após um banho e um breve momento de descanso, os homens despediram-se e foram embora. A habitual promessa da ligação no dia seguinte foi feita, mas recebida com indiferença por elas, que davam-se por satisfeitas e concluíram: “Acabamos de obter o melhor do que um homem pode dar. Quanto ao restante, já o conhecemos muito bem. Agora vocês podem sumir que pouco nos importa”. Este sentimento, que ainda não havia ganho a forma racional de uma idéia, tomou-as concomitantemente por razões bem distintas. Fernanda havia experimentado as frustrações do casamento com um homem indiferente e utilitarista. Sandra sofrera as desilusões da juventude nas mãos de rapazes voluptuosos. Mas longe de sentirem-se vítimas inocentes da guerra dos sexos, julgavam ter dado a volta por cima, eram as vitoriosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitaram-se na mesma cama, a despeito dos outros dois quartos mobiliados do apartamento, com a intimidade de duas irmãs que há muito partilham o mesmo espaço. Dormiram instantaneamente. Eram duas da manhã. Às oito, Sandra abriu os olhos e despertou maquinalmente preocupada com o horário do trabalho. As emoções do dia anterior pareciam-lhe um sonho distante, uma vaga, porém doce, ilusão noturna à deriva entre seus aturdidos pensamentos matutinos. Levantou-se e caminhou trôpega até a sala de estar, onde percebeu estar em trajes íntimos ao ver suas roupas jogadas pelo chão. A visão lhe trouxe um sorriso arteiro ao canto da boca, fazendo-lhe recordar as estripulias vividas na noite anterior.Vestiu-se, voltou para o quarto e sacudiu Fernanda, que relutante como uma criança forçada pela mãe a levantar-se para a escola gemia e recusava abrir os olhos.  Após alguma insistência finalmente despertou, deu de cara com Sandra, perguntou-se porque uma funcionária de sua loja estava acordando-lhe em sua cama e levou alguns segundos até recapitular tudo que acontecera na noite anterior.&lt;br /&gt;- Menina, que horas são?! – perguntou Fernanda, despertando completamente da sonolência num salto.&lt;br /&gt;- São oito da manhã. Você precisa abrir a loja.&lt;br /&gt;- É verdade. – Disse, sentando-se na beirada da cama e passando a mão pelos cabelos desgrenhados. – Mas veja o estado da sua roupa, está completamente amarrotada. Vá tomar um banho enquanto eu separo alguma coisa pra você vestir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia hora depois deixaram o apartamento. Sandra trajava orgulhosamente uma calça jeans cujo valor ultrapassava o preço somado de todas as que já havia comprado. Enquanto caminhava em direção ao carro de Fernanda, pensava na sorte que havia tido ao encontrar aquele rapaz, cujo tocador de música fora responsável por, quem sabe, definir seu futuro. Já imaginava os inúmeros benefícios que aquela proximidade com Fernanda lhe traria. Quem sabe tornar-se a gerente da loja e ganhar um salário que sobrevivesse à avalanche de contas e prestações? Imaginava-se nas melhores boates da cidade na companhia de executivos, empresários, socialaites, artistas... “Eu posso até encontrar um homem rico que se apaixone por mim!”, devaneava com um respirar a plenos pulmões. Mas imediatamente um agudo sentimento de angústia dominou-lhe a alma ao lembrar de que devia devolver o tocador de músicas ao dono. Sentiu sua dignidade ferida ao recobrar que não havia cumprido sua promessa de devolvê-lo no dia seguinte e, coisa muito pior, ter cogitado a possibilidade de não mais entregá-lo ao dono. Esquecera-se até mesmo de que havia um dono. Mário parecia-lhe uma lembrança distante, como se o tivesse conhecido há muitos anos. Pouco lhe importava que as velhas senhoras de sua rua considerassem-na uma vadia, mas ficar com algo que não lhe pertencia era um crime que nunca tivera sobre os ombros. E sua fama, que já não era nada boa, tinha tudo para piorar ainda mais, já que ambos tinham amigos em comum e o abuso da boa-fé do rapaz se espalharia pelo bairro como fogo em palha seca. “Tudo bem. Devolvo o aparelho e digo para as meninas que era emprestado. Mas como, se eu passei o dia todo afirmando que ele era meu? Já sei! Posso dizer que fui roubada no ônibus, na volta pra casa. Sim, é isso. Ninguém vai desconfiar. Ah, mas aquela futriqueira da Carolina com certeza dirá pelas minhas costas que o aparelho não era meu. Sim, ela vai desconfiar dessa estória. Apareci com ele num dia e logo no outro digo que foi roubado. Ela certamente desconfiará. Mas pouco me importa o que aquelas víboras vão pensar a meu respeito, o que me preocupa mesmo é ela. Dona Fernanda pode achar que eu peguei isso emprestado com algum amigo visando aparecer para as outras meninas. Ela é uma pessoa instruída, que lê ouvindo música clássica. Vai me achar uma garotinha fútil. Ai, que horror!”, pensava ela, sentada no banco de couro do luxuoso carro de Fernanda, que cortava a avenida ladeada pela praia em alta velocidade, fazendo os  cabelos de Sandra espalharem-se no ar pela força do vento. Quem visse aquela bela mulher, tão bem vestida e naquele carro importado, não imaginaria o quanto de desespero lhe dilacerava a alma. Não era capaz de imaginar como sairia de tudo aquilo sem passar por uma grande humilhação. Era sua via-crúcis.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-114851902030503369?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/114851902030503369/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=114851902030503369&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/114851902030503369'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/114851902030503369'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2006/05/do-amor-e-outras-coisas-que-se-podem.html' title='Do amor e outras coisas que se podem trocar - Parte 2'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-114512065000972430</id><published>2006-04-15T14:02:00.001-03:00</published><updated>2008-07-18T14:09:45.386-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Do amor e outras coisas que se podem trocar - Parte 1</title><content type='html'>A história que vou contar começou num ônibus que todas as manhãs sai lotado de trabalhadores sonolentos do subúrbio em direção à zona sul da cidade. A pontualidade e a constância dos encontros no veículo costumam fazer dos passageiros grandes amigos. É inevitável tecer comentários com o desconhecido ao lado sobre o calor que fez ontem, o resultado do último jogo da Seleção, a barbaridade do último crime dos traficantes etc. Depois de um tempo o ônibus se torna uma família. Os transeuntes que avistam o ônibus todo enfeitado com bolas fazendo seu itinerário habitual já sabem que se trata do aniversário do motorista. E não faltam refrigerante, salgadinho e bolo. É uma festa completa. As pessoas mais pobres têm essa marcante característica de relacionarem-se com extrema facilidade. Afinal, não existe o medo de que o outro esteja apenas interessado em suas posses ou de querer usufruir do seu prestígio social para galgar posições. Elas se relacionam pelo simples instinto gregário de sociedade. E é nesse cenário que nossa estória se desenrola. Mas primeiro vou apresentar-lhes nossos personagens: Sandra e Mário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Sandra morava com a mãe num apartamento modesto. Teve a sorte de nascer atraente, característica sem a qual ela não poderia viver, como verão a seguir. Quando criança, com seus oito ou nove anos, enquanto sua beleza não havia desaflorado, sempre fora preterida pelos colegas de escola, que davam primazia às meninas de rosto mais delicado e pele clara. Todos tinham seus namoradinhos – aqueles namoricos nominais da infância –, menos ela. Sandra tinha uma cor mais escura, forte, numa tonalidade dourada. Meninos dessa idade não sabem detectar a beleza em todas as suas formas. Esta é uma habilidade que os homens demoram para adquirir. Mas Sandra cresceu e com a idade vieram juntos os seios rotundos e volumosos, o quadril corpulento e a cintura delgada, agora aliados da exuberante cor antes desprezada. Aos treze, era cobiçada por adolescentes, adultos e velhos por onde passava, mas a imagem que fazia de si ainda não computava os novos dotes e demorou algum tempo para se acostumar ao sucesso. Exatamente neste período surgiu um rapaz, que não merece ter seu nome citado nesta narrativa, que aproximou-se dela de forma romanticamente cruel. Quando um homem é sequestrado pelo desejo, afloram seus mais bestiais impulsos biológicos e em sua ótica banhada de volúpia tudo é válido. Com seus vinte e tantos anos, prometeu a ela, que ainda possuía o jeito meigo e doce de uma menina, o céu, o amor e a eternidade. Com lisonjas, fê-la construir um castelo de sonhos, que só os adolescentes, e mais propriamente as moças, têm coragem de se abrigar debaixo. O rapaz alcançou rapidamente seu objetivo, graças à ingenuidade da criança e à curiosidade da adolescente. Em diversas tardes, nas quais a menina saíra e voltara para casa no horário normal da aula trajando uniforme, iam eles a um motel barato praticar o ato natural pelo qual os homens morrem, matam e vendem suas almas, o sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Após um mês de relações intensas, que dissiparam rápida e completamente a pudicícia da moça, o rapaz comunicou-lhe que o relacionamento não podia continuar. Para tal, usou de uma desculpa qualquer, cujo conteúdo é indiferente, já que neste exato momento vários homens espalhados pelo mundo estão empregando alguma mentira, tão vazia quanto as lisonjas conquistadoras, para se desfazerem do que já não é mais necessário. Tais homens são como pragas de gafanhotos, que arrasam plantações e seguem em frente a procura do próximo campo. Sandra, assim como os campos de arroz e os trigais, sentiu-se devastada. Chorando copiosamente, indagava: “Porque ele me abandonou? Eu o amava tanto! Será que ele tem idéia do quanto me faz sofrer? Ontem mesmo, com a cabeça deitada sobre meu peito, dizia que me amava, e agora simplesmente me expulsa de sua vida”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A adulação masculina continuou, mas a experiência traumática lhe fez rejeitar um, dois, três bajuladores, mas no quarto sentiu suas esperanças reacesas. Os então quinze anos ainda lhe faziam acreditar que após o revés viria a sorte. Não veio. A história se repetiu: elogios, carinho, romantismo, sexo, desculpas, chôro, solidão. Houve trauma, mas dessa vez menor que antes. O ciclo se repetiu outras vezes, cada vez com menos chôro, até que aos dezenove já havia perdido a conta de quantos homens possuíra na cama. Passou a encarar as relações humanas como uma balança de interesses, uma forma de extrair o máximo possível do outro com o mínimo custo pessoal. Foi então que Sandra, sem intenção, inverteu o jogo. Relacionava-se de forma tão desprendida que deixava muitos homens interessados num compromisso duradouro. Homens são criaturas risíveis. Ofereça-lhes a prisão e lutarão pela liberdade, dê-lhes liberdade e implorarão pelo cárcere. Ao olhar para trás e ver seus devoradores tombados de paixão, resolveu aproveitar-se deles, como antes haviam feito com ela própria. Passou a escolher os  parceiros de acordo com as posses - coisa comum em nossa sociedade, mas que nunca havia passado pela mente até então idealista de Sandra –, fazer tipo de moça ingênua e retardar o sexo até o momento em que seus objetivos fossem atingidos e, às vezes, nem assim. Ela se tornou cruel para com os homens, uma prostituta casual que usava o sexo como a peça mais importante de seu tabuleiro. Mas oculta em algum recanto de sua alma, jazia a menina doce e sonhadora que fora soterrada aos treze, ainda esperando por um salvador. Sandra tratava de sufocá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário, por sua vez, era um rapaz notável, aquele tipo no qual as vizinhas mandam seus filhos pequenos se inspirarem. Centrado, simpático, trabalhador, responsável e ajuizado, mas não desse tipo de carola distribuidor de sermões. Era o exímio meia-armador do time do bairro. Sua habilidade fazia com que fosse respeitado por todos. Ficara de fora do futebol profissional por um desses infortúnios do destino, muito comum no Brasil, que deixa milhares de craques ao léu. Mas ele não era frustrado, pelo contrário, vivia num estado de graça por cada momento de alegria que recebia dos céus, fosse no pagode de sábado, na pelada de domingo ou no churrasco de fim de ano dos amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era porteiro de um prédio em Copacabana, cargo normalmente ocupado por imigrantes nordestinos de meia idade. Alguns moradores franziram a sombrancelha ao ver o garoto de vinte e três anos responsável por sua segurança. Mas num curto espaço de tempo todos confiavam em sua perspicácia e vitalidade. Tratava respeitosamente os mais velhos, fazia-se de desentendido aos gracejos das senhoras assanhadas e era imensamente querido pelos jovens. Não era ambicioso, estava feliz com o que havia conseguido e não sentiria um pingo de tristeza se envelhecesse recebendo aqueles quinhetos reais mensais. O que importava era distribuir canetas e lençóis na pelada dominical e, durante a semana, ler seus livros de Schiller e Goethé, que ganhara de um morador. É interessante comentar que, apesar de suburbano, pobre e iletrado, Mário era fascinado pelo &lt;em&gt;Sturm und Drang&lt;/em&gt;, movimento literário alemão liderado pelos autores supracitados. Lera &lt;em&gt;O Sofrimento do Jovem Werther &lt;/em&gt;quatro vezes e asseverava temerariamente: “É o maior livro já escrito!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já devem imaginar, o destino dos dois se cruzou no ônibus. Sandra trabalhava há  um mês numa loja de roupas em Copacabana como vendedora - cargo que sua beleza se encarregou de conquistar – e, como ambos moravam no mesmo bairro, tomavam o mesmo ônibus. Isto já acontecia há duas semana sem que tivessem se visto, mas as leis da probabilidade tomaram seu lugar e puseram ambos sentados lado a lado. Mário ouvia seu tocador de MP3, ganho na festa de fim de ano do condomínio num sorteio entre os moradores e funcionários. O rapaz nem sabia que se tratava de um dispositivo eletrônico capaz de armazenar quinze mil músicas de uma só vez, e fora receber o objeto de desejo de todos os jovens presentes com naturalidade, como se fosse um uma lembrancinha de aniversário. Alguns moradores chegaram a argumentar que o sorteio deveria ser refeito, pois o porteiro não saberia usar um equipamento sofisticado como aquele, mas o arguto Sr. Sílvio, engenheiro aposentado e síndico do prédio, redarguiu que todos havim tido iguais chances de serem sorteados, e já que aprouvera à sorte sorrir para Mário, que assim deveria ser. O próprio Sr. Sílvio encarregou-se, na manhã seguinte, de instruir pacientemente o rapaz a manusear o aparelho e encheu a memória do tocador com milhares de músicas que possuía em seu micro. Canções de variados estilos, de gosto um tanto sofisticado para o porteiro, apreciador de ritmos populares. De qualquer forma, apesar das músicas disponíveis não desfrutarem de seu inteiro prestígio, tornara-se agradável passar a desgastante viagem de ida e volta do trabalho ouvindo Nancy Wilson, BB King, Yes, The Smiths e os clássicos Beethoven, Tchaikovsky e Dvorak, este último tocando no momento em que nos situamos na narrativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez estejam se perguntando porque detalhei tanto a história do tocador de músicas de Mário. O fato é que eles eram uma febre entre os mais abastados. Os analistas de tecnologia se perguntavam porque o aparelho vendia tanto, apesar do alto preço. O equipamento, febre tamém nos Estados Unidos, era o queridinho dos jovens de classe média e alta no Brasil. Sandra, convivendo no ambiente pretensamente aristocrático da Zona Sul, estava ciente disso, e ao reparar o aparelho nas mãos de Mário teve sua atenção atraída. Imaginou como seria bom desfilar com um daqueles perante as demais vendedoras da loja, sentir-se igual aos clientes que entravam e saíam dali com seus aparelhos e desfrutar também do sabor da posse. Fitou Mário, feições simples, rosto aquadradado por um queixo anguloso, pele parda, olhos grandes e vivos, cabelo batido. Sandra achou-lhe viril, atraente. Seu jeito desprendido de balançar a cabeça ao som do fone de ouvido denotava descontração e segurança. Os sutis soquinhos ritmados no banco da frente enunciavam suingue e habilidade, a mesma demostrada nos campos de futebol. Seu olhar perdido no trânsito cinzento com piscadas espaçadas era típicos de sonhadores. Sandra, sentada a seu lado, observava tudo isso como uma estrategista militar. Desinibida, disparou:&lt;br /&gt;- Com licença, esse é o que armazena quinze mil músicas? – indagou apontando para o aparelho.&lt;br /&gt;- É sim. – respondeu educadamente Mário, tirando o fone do ouvido direito.&lt;br /&gt;- É muito legal. Eu estou pensando em comprar um. Posso dar uma olhada? – E o rapaz passou o aparelho para as mãos da moça.&lt;br /&gt;- Uau. Ele é lindo! O que você está ouvindo?&lt;br /&gt;- Dvorak. – Pronunciou em bom português, ignorando a pronúncia correta do nome do compositor tcheco.&lt;br /&gt;- Sério?! Não é possível. – Supreendeu-se Sandra assumindo um ar passional. - Eu amo Dvorak. Pensei que ninguém mais no mundo ouvisse isso.&lt;br /&gt;- Para ser sincero, eu nem gosto muito de música clássica. Prefiro um bom pagode. Mas estou começando a ouvir um pouco disso e até que estou gostando.&lt;br /&gt;- Eu também não gosto de qualquer música clássica, só de Dvorak. Me lembra muito meu falecido pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário assumiu um ar solene e ofereceu os fones de ouvido para que Sandra os ouvisse. Ela aceitou-os. Para deixá-la mais a vontade com suas lembranças, virou-se para a janela observando as faixas da pista que sucediam-se lentamente umas as outras e o trânsito engarrafado da hora do rush. Após alguns minutos, fitou-a de soslaio e notou uma lágrima cristalina que escorria das pálpebras fechadas e rolava pela tez dourada da moça, refletindo os raios de sol da manhã. Não ousou interromper aquele momento sagrado. Apesar do ar quase religioso que adotara, não pôde conter seus olhos, que passearam por alguns instantes pelo corpo de Sandra observando sua beleza, coisa que até então não havia percebido em sua totalidade. Interrompeu-se com ímpeto, quase beliscando o próprio braço, considerando-se monstruoso por desejá-la num momento puro como aquele. Alguns minutos mais se passaram e Sandra enxugou discretamente os olhos com a mão, tirou os fones de ouvido e devolveu-os a Mário, que perguntou:&lt;br /&gt;- Você está bem?&lt;br /&gt;- Oh, sim. Não se preocupe. São apenas boas lembranças. Mas me diga seu nome.&lt;br /&gt;- Mário e o seu?&lt;br /&gt;- Sandra. Você trabalha com o que?&lt;br /&gt;- No ramo de segurança privada e você?&lt;br /&gt;- Consultoria de moda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O colóquio prosseguiu animadamente, com a habitual curiosidade e excitação de pessoas que se descobrem a cada frase. Por morarem no mesmo bairro, tinham amigos em comum, haviam estudado na mesma escola e se lembravam de eventos locais, como os carnavais na praça do bairro. Concluíram que ainda não se conheciam por caprichos do acaso. O ponto de desembarque de Sandra se aproximou. Como este ficava apenas um ponto antes do prédio onde Mário trabalhava, este ofereceu-se para descer e acompanhá-la até a entrada da loja, o que Sandra prontamente aceitou, apesar de tentar se mostrar reticente. Eles caminharam lentamente para que o pequeno trajeto se estendesse o máximo possível. Sandra estava admirava de como Mário conversava naturalmente, como se ela fosse uma amiga, e sem aqueles olhos semi-cerrados de maníaco fitando seu decote, como faziam todos os outros. Ele a tratava como uma pessoa, e não como um simples meio de se obter prazer em que as idéias são um luxo dispensável. Mário, por sua vez, notara no ônibus as duas fascinantes esferas douradas de grande volume que saltavam da blusa de Sandra, mas procurava a todo custo fitar os olhos da moça, para não causar-lhe desconforto. Ao chegar nas imediações da loja, Mário começou a se despedir dizendo:&lt;br /&gt;- Eu gostei de você, sabia? Foi uma ótima companhia.&lt;br /&gt;- Ah, que isso? Você é que foi super legal. Nem me conhecia e me deixou ouvir seu tocador de música.&lt;br /&gt;- Eu nem sei usar isso aqui direito. Sabe de uma coisa? – Mário pôs a mão paralela à boca, como quem conta um segredo. - Eu sou apenas porteiro de um prédio. Ganhei isso aqui na festa do condomínio. Dvorak? Nunca nem tinha ouvido falar e pra ser sincero nem gosto muito, mas o patrão encheu o bicho dessas músicas.&lt;br /&gt;- Já que você confessou, eu também preciso desfazer uma mentirinha. Não sou consultora de moda coisa nenhuma. Sou apenas uma vendedora nessa loja. Mas de Dvorak eu gosto mesmo. Me traz uma sensação maravilhosa. É como se eu sentisse meu pai aqui do meu lado. Até me arrepio, olha...&lt;br /&gt;- Uummm. Já que é assim, quer ficar com o aparelho até amanhã? A gente deve pegar o ônibus de novo no mesmo horário e você me devolve. Assim você fica com bastante tempo pra curtir as músicas. Que tal?&lt;br /&gt;- Sério!? Que fofo você é. Eu iria adorar. E pode confiar que amanhã eu te devolvo, tá? Posso ter todos os defeitos do mundo, mas sempre devolvi tudo que peguei emprestado. Isso pra mim é questão de honra.&lt;br /&gt;- Então toma ele. Aqui está o fone de ouvido e a capinha pra prender ele na cintura. Agora deixa eu ir que já estou atrasado. Amanhã a gente se vê.&lt;br /&gt;- Eu também preciso ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijaram-se no rosto e cada um seguiu para seu lado. Sandra estava radiante. Nunca tinha visto um daqueles tão de perto. Parecia uma criança que toca pela primeira vez num caríssimo brinquedo que só viu na vitrine. Como já estava quase na frente da loja, não teve muito tempo para apreciar o belo aparelho, que tinha na parte de trás uma superfície metálica espelhada e na frente um grande visor de cristal líquido colorido. Pendurou-o na cintura, pôs os fones nos ouvidos e entrou triunfante na loja. As demais vendedoras, que estavam acertando os últimos preparativos costumeiros antes da abertura da loja ao público, ao verem o tocador pendurado na cintura de Sandra, formaram uma roda a sua volta.&lt;br /&gt;- Nossa! Que chique! – Disse Marta com sua voz alta e estridente.&lt;br /&gt;- Olha só! Poderosa! Tá cheia da nota, hein? – Disse Carolina, gesticulando como sempre.&lt;br /&gt;- Menina, isso é muito caro. Como você conseguiu? Só quem eu vejo usando isso são as patricinhas que compram aqui. Acho que nem a dona Fernanda tem um desses, quer ver? Dona Fernanda, dá um pulinho aqui por favor...&lt;br /&gt;Após alguns instante apareceu a proprietária da loja, dona Fernanda. Uma bela e jovial mulher na casa dos trinta e poucos, que de “dona” não tinha nada, pois ainda arrancava alguns assobios quando passeava pelas ruas de Copacabana. As moças a puseram a par do assunto. Ela pegou o aparelho entre as mãos, analisou e disse:&lt;br /&gt;- Meus parabéns. Até eu queria um desses e achei muito caro. Depois vai ali na minha sala e me mostra como funciona pra eu ver se vale à pena comprar, tá bom?&lt;br /&gt;- Claro, dona Fernanda. – Disse Sandra desajeitadamente, já que nunca havia trocado uma palavra com dona Fernanda além de ordens recebidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sandra não teve tempo de dizer que o aparelho não era seu e, no fundo, nem queria. Ser o centro das atenções, sentir-se invejada e receber um convite para ir à sala de dona Fernanda eram emoções novas, das quais não se consegue abrir mão num lapso de segundo. Durante aquele momento, nem chegou a se perguntar o que faria no dia seguinte, que explicação daria, quando chegasse sem o aparelho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-114512065000972430?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/114512065000972430/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=114512065000972430&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/114512065000972430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/114512065000972430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2006/04/do-amor-e-outras-coisas-que-se-podem.html' title='Do amor e outras coisas que se podem trocar - Parte 1'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-112110343097644866</id><published>2005-07-11T14:30:00.000-03:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.326-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Quatro Metros Quadrados - Epílogo</title><content type='html'>Behnken já imaginava que não seria fácil convencer Sofia a oferecer um almoço para um vendedor ambulante e seus herdeirinhos de lástimas. Mas sua obstinação o levou a conversar detalhadamente com a esposa, ainda que de forma um tanto embaralhada e confusa, a respeito de suas recentes preocupações. Fazia tempo que os dois não dialogavam tanto tempo sobre um assunto não-trivial. A princípio Sofia gostou de ver a preocupação de Behnken com o filho, mas depois ficou tensa com a idéia de recepcionar um desconhecido dentro de casa. Argumentou que alguém provavelmente semi-analfabeto não poderia acrescentar tanto quanto ela, psicóloga formada. Dizia não haver ninguém melhor para detectar qualquer problema com o filho, caso houvesse. Os dois se exaltaram, as vozes foram se elevando e a discussão ficou um tanto acalorada. Neste ponto Christensen apareceu na sala para ver o porquê dos gritos e ambos voltaram a si e retomaram a cordialidade. Sofia concordou em recepcioná-los "com a condição de que não transforme a casa todo sábado num Sopão da LBV", segundo suas próprias palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sábado chegou e a casa estava pronta para as visitas. Sofia ordenou que a doméstica preparasse pratos simples, porém saborosos, e que comprasse bastante sorvete para as crianças. Behnken estava num estado de excitação exacerbado, como se estivesse pronto a receber um chefe de Estado. Ensaiou diversos assuntos para discutir, perguntas a fazer, fatos para contar etc. Olhava para o relógio de dez em dez minutos, como uma criança afoita pela hora de sair para brincar na praça. Já havia avisado aos guardas do condomínio e ao porteiro do prédio que receberia uma visita não muito comum e que não deviam criar caso com um homem rudemente vestido acompanhado de duas crianças. Então agora era só questão de tempo. A não ser que ele resolvesse não comparecer. Que garantias teria de que o camelô realmente aceitaria um convite tão absurdo? Porque Josivaldo levaria seus filhos, a única coisa que lhe restou na vida, viúvo que é, para a casa de um desconhecido? Não teria ele dito que iria só para se livrar do inconveniente convite? Essas dúvidas lhe atormentavam a todo instante e lhe atrapalharam o sono daquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às onze da manhã o interfone tocou.&lt;br /&gt;- O senhor Josivaldo e os filhos estão aqui embaixo. Posso mandar subir? - Perguntou o porteiro.&lt;br /&gt;- Sim! Sim! Mande-os subir! - Respondeu o eufórico Behnken. - Sofia, eles chegaram! Christensen! Venha cá. - Gritou efusivamente - Lembre-se do que lhe falei, seja educado e cordial. Você vai aprender muito com essa gente, você vai ver. Sofia, meu amor, você é uma mulher fina e educada, receba-os bem. Tenho certeza que teremos um dia muito agradável.&lt;br /&gt;Alguns minutos depois a campanhia tocou e apresentou-se à porta um Josivaldo elegante, trajando um terno azul escuro - que apesar de um pouco surrado estava limpo e bem passado - barba feita, cabelos penteados e exalando um perfume muito agradável. Behnken se surpreendeu ao vê-lo e a partir de dali não soube mais o que esperar daquele homem, já que havia imaginado esta cena de forma completamente diferente, com um mulambo maltrapilho de semblante baixo se apresentando encabulado. Mas o que via era um homem de torso ereto, portando-se distintamente e muito seguro de si. As crianças eram encantadoras. Como o pai já havia prenunciado Joana era a simpatia em pessoa e Mário parecia mais introvertido. Ambos muito educados, cortêses e solícitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma hora depois, as crianças jogavam videogame no quarto de Christensen enquanto os adultos conversavam na grande varanda de frente para o mar. Uma brisa agradável refrescava o calor fustigante provocado pelo sol quente. A vista era inigualável.&lt;br /&gt;- Vocês são privilegiados de acordarem todo dia com esta vista. Agradeçam muito a Deus. - Disse Josivaldo contemplando a imensidão do oceano.&lt;br /&gt;- É uma pena que com o tempo a gente acostume. Passo semanas sem olhar para o mar, você acredita? É uma pena realmente. - Respondeu Sofia.&lt;br /&gt;- Josivaldo, suas crianças são muito educadas. Elas não dão um passo sem antes pedir licença. - Disse o sempre entusiasmado Behnken.&lt;br /&gt;- Obrigado, doutor. Realmente eu prezo muito por isso. Uma pessoa mal educada não chega a lugar nenhum. Quem gosta de conviver com um entrão? Lá em casa, um não dirige a palavra ao outro sem antes pedir licença. - Disse o sempre cortês Josivaldo.&lt;br /&gt;- É realmente uma educação exemplar. Mas imagino que foi preciso ser austero com eles até se acostumarem. - Indagou Sofia.&lt;br /&gt;- Não, não. É uma história engraçada, eu vou contar. Quando eles tinham uns sete anos fiz um acordo: numa semana me comportaria de forma completamente grosseira e na semana seguinte seria gentil e cortês. Depois disso eles poderiam escolher como agir. Na primeira semana, eu chegava em casa como um cavalo. Não cumprimentava e só perguntava o que me interessava. Pedia as coisas dando ordens, não dava atenção quando falavam comigo e de vez em quando levantava e deixava um deles falando sozinho. Hé-Hé. Que crueldade! Mas na semana seguinte eles notaram a diferença. Quando chegava em casa, cumprimentava a cada um e perguntava como estavam. Antes de pedir para pegarem algo, por exemplo, perguntava se estavam ocupados e sempre agradecia pelo favor. Desde então, eles nunca me dirigiram a palavra sem antes dizer "com licença".&lt;br /&gt;- Interessante. Nós aqui também sempre ensinamos o valor da educação para o Chris, só que através do diálogo. - Comentou orgulhosamente Sofia.&lt;br /&gt;No mesmo instante (para acrescentar algum tom cômico à narrativa) irrompeu varanda adentro Christensen:&lt;br /&gt;- Mãe, eu quero tomar um pouco de sorverte, mas a Maria disse que não vai me dar antes do almoço.&lt;br /&gt;- Ô, meu filho. Antes do almoço não. - Disse Sofia completamente embaraçada.&lt;br /&gt;- Ah, mãe. Caramba! Eu quero só um pouco, vai... - Insistiu Christensen sacudindo os braços e batendo o pé esquerdo contra o chão.&lt;br /&gt;- Tá bom! Tá bom! Diz pra Maria que eu deixei. - Aceitou a mãe, tentando se livrar do filho e daquela situação vexatória o mais rápido possível. Ela olhou para Josivaldo, sorriu sem jeito e se levantou dando uma desculpa qualquer.&lt;br /&gt;- Você viu, Josivaldo? É disso que eu falo... - Behnken suspirou, baixou a cabeça, apoiou-a entre as mãos e voltou a murmurar. - Porque esse garoto não atenta pra vida?&lt;br /&gt;- Se me permite, acho que o senhor está exagerando. O menino só precisa de um pouco de correção.&lt;br /&gt;- É muito mais do que isso. Ele não gosta de ler, só ouve música que fala o que não presta, joga videogame o dia inteiro e não se preocupa com nada que não seja de seu interesse.&lt;br /&gt;- Mas é só um garoto! Pode ter alguns defeitos mas o que você esperava?&lt;br /&gt;- Hoje é só um garoto, Josivaldo, mas amanhã será um homem. Vai viver por aí sem rumo na vida querendo conquistar o mundo que o umbigo deseja e, quando conquistar, vai ficar perdido de novo, um morto-vivo. Vai ser um homem tão perdido quanto o garoto que é hoje. - Disse Behnken em tom exaltado. Josivaldo fez silêncio enquanto digeria aquelas palavras. Após alguns instantes disparou:&lt;br /&gt;- Tem certeza que o problema é o seu filho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imediatamente o silêncio instalou-se. Behnken permaneceu inerte, fitando as ondas do mar que quebravam poeticamente sobre a areia banhada pelo sol dourado do meio-dia. Não piscava e não se podia sentir sua respiração. Sentado em sua confortável cadeira de aço e couro branco, com as pernas cruzadas e queixo apoiado sobre as mãos juntas, percorria em redor com olhos dispersos. Uma revoada de gaivotas cruzava o céu. Lá em baixo, uma família atravessava a avenida para chegar a praia. No calçadão, um casal de mãos dadas passeava despretensiosamente, como se o mundo tivesse parado só pra eles. Seu peito encheu-se de um desespero incontrolável. Sentia-se asfixiado, como se algo estivesse apertando sua garganta violentamente. Cogitou dar cabo da vida como a melhor solução para sua síncope existencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois anos se passaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Josivaldo chegou em seu ponto de venda na rua Uruguaiana, como fazia há uma década. Eram nove da manhã. Estendeu seu plástico azul sobre a calçada. Sentou-se em seu velho banquinho de madeira, apoiou o cotovelo sobre o joelho, o queixo sobre as mãos e observou sonolento os transeuntes. Olhou despretensiosamente para os lados, observando os demais camelôs. "Vejam só! Tem um ambulante ali vendendo livros. Estou mesmo precisando ler alguma coisa nova", pensou ao avistar um novo camelô da praça. Foi até lá e, ao aproximar-se, não acreditou no que seus olhos lhe mostraram: Behnken, trajando camiseta de malha, bermuda e chinelo de dedo.&lt;br /&gt;- Behnken, é você? - perguntou atônito – Não é possível!.&lt;br /&gt;- Claro, meu velho amigo. - respondeu Behnken maquinalmente. - Agora sou seu mais novo colega de trabalho.&lt;br /&gt;- Meu Deus! O que aconteceu com você?&lt;br /&gt;- Se acalme, companheiro. Parece até que está vendo um defunto. Imagino que me ver assim deve assustar mesmo, mas muita coisa aconteceu.&lt;br /&gt;- Ande, homem! Conte logo. Não me deixe aqui morrendo de curiosidade!&lt;br /&gt;- Bom... Depois que você foi embora naquele dia, refleti muito sobre minha vida. Tirei férias no trabalho alegando uma doença qualquer, viajei e passei dias à fio refletindo. Voltei com uma conclusão: havia lutado com as armas erradas uma guerra que nem mesmo existia. Empreguei todas as minhas forças para construir um espigão sobre meu umbigo. Eu o construí, mas o peso dele estava me esmagando. Então resolvi fazer alguma coisa pra me livrar daquele peso. Imaginei que ajudar os mais pobres aliviaria minha consciência. Então encabeçei um movimento de responsabilidade social na minha empresa. Como isso está na moda, não tive grandes dificuldades. Sugeri que adotassem uma favela e criamos uma escola por lá, distribuimos cestas básicas no Natal, agasalhos no inverno e coisas assim.&lt;br /&gt;- Sim, eu vi até sua foto no jornal. Parecia que estava indo tudo tão bem. Como foi que você veio parar aqui?&lt;br /&gt;- Pois bem... Eu comecei a me sentir realizado com tudo aquilo e passei a investir meu próprio dinheiro na causa. Fui investindo tudo sem dó. Vendi apartamentos, ações, resgatei reservas no exterior. Só que, a despeito do meu bem estar, minha casa começou a virar um inferno. Sofia me recebia em casa aos gritos. Brigávamos noite após noite. Christensen parou de me dirigir a palavra quando soube que eu “estava destruindo a herança dele por direito”, segundo suas próprias palavras. Não respondia nem mesmo com um gesto minhas tentativas de diálogo. Comecei a brigar por mais investimentos na favela por parte da empresa, quando o presidente me chamou para uma conversa. Disse que a imagem da empresa já havia sido sufientemente valorizada na mídia pelo meu projeto e que já era o bastante. Há! Aqueles pobres eram só um outdoor feito de carne de criança negra. Eu sempre soube disso, mas minha visão estava ofuscada por uma ingenuidade quase anjelical. Um mês depois fui demitido. Quando minha esposa soube disso, saiu de casa e levou Christensen com ela. Entrou com dois processos contra mim: um de divórcio e outro de interdição. Ganhou os dois. Eu perdi tudo, físico e emocionalmente. Meus antigos amigos não me recebem mais. Pensam que enlouqueci. Fiquei sem dinheiro, sem casa, sem esposa e sem filho. Fiquei sabendo que eles se mudaram pra Itália. Acho que nunca mais vou vê-los.&lt;br /&gt;- Meu Deus! Que horror!&lt;br /&gt;- Sabe, Josivaldo? Durante minhas noites de insônia eu te amaldiçoei, chorando de ódio, por ter aparecido em minha vida.&lt;br /&gt;- Mas eu nunca disse pra você fazer nada disso, Behnken.&lt;br /&gt;- Não com palavras. Descobri que as coisas mais importantes na vida são aprendidas sem elas. Eu sempre andei de cabeça erguida, olhando todos de cima do meu nariz. Mas aí você apareceu com toda sua altivez e seu orgulho. Me senti um nada. E como, sendo eu quem era, pude me sentir inferior a você? O topo invejando a base da pirâmide. Acho que desenvolvi alguma espécie de obsessão. Eu tinha que ser superior a você.&lt;br /&gt;- Mas tudo o que você fez foi incrível. Você é um mártir social. Não se sente orgulhoso de todo bem que trouxe àquela gente?&lt;br /&gt;- Você não entende! – a voz de Behnken começou a embargar - Eu fiz tudo aquilo por mim mesmo, pelo meu orgulho. O bem que aquelas pessoas receberam foi fruto da mais sombria cratera da minha alma.&lt;br /&gt;- Mas e o seu filho? Você fez isso por ele, lembra? – disse Josivaldo, tentando elevar o astral do amigo, sem successo. As lágrimas começaram a rolar pelo rosto avermelhado de Behnken.&lt;br /&gt;- Se tem uma coisa de bom nessa história toda é que meu filho, um dia, vai chegar no mesmo ponto que eu cheguei: vazio, desesperado, perdido... Mas ele vai ter um exemplo. Lembrará de mim nesse dia e dirá: Agora entendo porque meu pai fez aquelas coisas. Talvez nem tudo tenha sido inveja nesta minha sandice. No fundo, debaixo de toda a frivolidade, eu pensava nele. Sabe, Josivaldo? Nunca ensinei a ele nada sobre a vida. Era meu papel de pai fazer isso. Foi uma lição que me custou tudo, espero que ele faça bom proveito.&lt;br /&gt;- Vai fazer, Behnken. Vai fazer... Eu fiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois se abraçaram, derramaram lágrimas e caminharam lado a lado pelas ruas já abarrotadas do Centro da Cidade. Antes, peões mecânicos de um jogo vazio chamado sociedade. Agora, um pouco mais seres humanos sobre aqueles pares de chinelos de dedo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-112110343097644866?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/112110343097644866/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=112110343097644866&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/112110343097644866'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/112110343097644866'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2005/07/quatro-metros-quadrados-eplogo.html' title='Quatro Metros Quadrados - Epílogo'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-111780653520083091</id><published>2005-06-03T10:48:00.000-03:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.326-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Quatro Metros Quadrados - Parte 2</title><content type='html'>Na sala, que também era quarto e cozinha, desta casa de dois cômodos, estava instalada uma atmosfera de sono embalador. O breu da madrugada, o silêncio quase absoluto – com exceção do ruído emitido pelos grilos, que executavam uma melodia abstrata de relaxamento – e a respiração pesada de Josivaldo faziam parecer que toda a casa dormia com ele e seus filhos. A paz flutuava pelo ar daquele cômodo como um silencioso pássaro que os abençoava. Às quatro da manhã, um barulhento relógio despedaçou cruelmente a tranquilidade com seus berros digitais. Como fazia todos os dias, tentou parar o relógio antes que o barulho infernal acordasse Joana, inutilmente. Ela se levantou e foi de pronto, ainda que trocando pernas, para a pia preparar o café do pai. Vinte minutos depois, carregando pesados sacos de roupas, partia pela estrada de terra, a caminho do primeiro de três ônibus, um homem franzino de feições rústicas e castigadas pelo tempo, nas quais não se liam erudição ou conhecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exatamente às oito da manhã as cortinas do quarto de Behnken, onde não se podia enxergar uma forma geométrica sequer de tamanha escuridão, começaram a se abrir ativadas por um dispositivo automático, deixando penetrar os fulgentes raios de sol da manhã e revelando a beleza paradisíaca de uma praia da Barra da Tijuca, que desfilava pomposamente pela vista da enorme porta de vidro de seu quarto, que dava para a varanda. Envolto em lençóis e travesseiros, ao lado da esposa Sofia, ele se esforçava para abrir os olhos e depois de alguma relutância levantou-se cambaleando. Os primeiros pensamentos do dia costumavam ser relativos ao IGPM, CDI, IBX e outros indicadores financeiros que estavam aguardando por ele no jornal em cima da mesa. Mas foi diferente dessa vez. Seus pensamentos se voltaram para o ambulante. Nem sabia seu nome mas desde o dia anterior não conseguia tirar da cabeça a nobreza e altivez do pobre vendedor de rua. O motivo da fascinação era desconhecido por ele próprio, mas era inevitável compará-lo com seus amigos mais próximos, que venderiam a alma em troca de uma boa chance de lucro. Mas aquele homem iletrado não quis aceitar suas mixóridas - onde afinal ele havia aprendido essa palavra? - simplesmente para defender a dignidade de suas crianças. Sentou-se numa poltrona junto à parede do quarto e tentou aplicadamente lembrar-se da última vez que havia falado sobre dignidade ou qualquer outro assunto semelhante com Christensen. Depois de alguns minutos olhando para o azul brilhante do céu matinal, lembrou-se que alguns meses antes havia dito que não compraria o tênis que o filho havia pedido, mas que este deveria economizar a mesada para conseguir o tal calçado. Envergonhado, levou a mão à testa quando lembrou-se também que pagou pelo tênis, passados dois meses, como forma de premiação, quando o filho anunciou que havia conseguido juntar a quantia necessária. Uma sensação de impotência invadiu violentamente seu peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como no dia anterior, o sol quente fustigava os transeuntes que se acotovelavam pelas ruas em seu habitual balé babilônico. Perto do meio-dia, quando a temperatura se aproximava do pico, Josivaldo animadamente anunciava sua mercadorias, enquanto seu estômago anunciava os primeiros alardes da fome. Abaixou-se para arrumar algumas camisas que estavam dobradas. Ainda com os olhos baixos, avistou um par de pernas masculinas trajando uma elegante calça social cinza clara. Seu corpo estremeceu, pois imediatamente imaginou que se tratava de seu mais recente desafeto. A expectativa foi confirmada quando Josivaldo levantou-se para cumprimentar o homem que estava parado a sua frente, e se tratava justamente dele: Behnken.&lt;br /&gt;- Boa tarde, senhor. A que devo o prazer de mais esta visita? - perguntou amistosamente Josivaldo.&lt;br /&gt;- Gostaria de pedir desculpas pelo meu comportamento grosseiro de ontem. Às vezes sou muito impulsivo...&lt;br /&gt;- Contanto que o senhor não tenha vindo aqui sacudir seu dinheiro tentando comprar minhas desculpas, está tudo certo, doutor.&lt;br /&gt;- Vejo que a má impressão que causei não se apagará sozinha. O convite para o almoço ainda está de pé e gostaria muito que aceitasse. - Propôs Behnken meio desconcertado com a frase do camelô.&lt;br /&gt;- Claro! Porque não? O senhor trouxe os R$3,50 da quentinha que lhe falei? - Josivaldo aguardava a mesma explosão do dia anterior. Já preparava os ouvidos para os gritos descontrolados do ricaço. Mas este por sua vez, respondeu suavemente.&lt;br /&gt;- Será um prazer almoçar com você. Mas o senhor há de entender que não fica muito bem para um homem da minha posição almoçar no meio da rua. Tenho clientes importantes e posso acabar me prejudicando se algum deles passar por aqui e me ver. Não é nada pessoal, por favor. Só creio que o senhor não perderia nada se pedisse a um de seus colegas de trabalho que vigiasse sua barraca enquanto almoçamos num restaurante.&lt;br /&gt;- O senhor com certeza não entende que da mesma forma que o senhor se sentiria humilhado por almoçar em meio a todos esses ambulantes, eu também me sentiria se sentasse em meio a pessoas elegantes e bem vestidas como o senhor, enquanto trajo essas roupas surradas e exalo o odor de quem transpira desde que o dia raiou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Behnken passou então a imaginar como seria entrar num bom restaurante acompanhado daquela figura mal vestida, suada e calçada com um barato par de chinelos de dedo. Tentava ponderar o que seria pior: sentar-se no meio fio e encarar uma famigerada "quentinha" ou levar o camelô a um restaurante que ele seus amigos de trabalho costumassem frequentar. E se um de seus clientes estivesse por lá, o que seria bastante provável? "Eu só posso estar ficando louco! Como é que eu fui entrar nessa?", pensava. O curioso era que neste ponto o ambulante já representava uma figura respeitável para ele. Não era mais possível simplesmente virar as costas e ir embora. Se o fizesse nunca mais teria coragem de passar por aquela rua e seria corrído pelo sentimento ter agido como uma criança mimada que cismou com um brinquedo na vitrine. Ser desprezado pelo ambulante era uma idéia que revirava-lhe o estômago. Concluindo que todas as alternativas lhe trariam algum constrangimento, decidiu encarar a situação desprendidamente. Meteu a mão no bolso com ar decidido, puxou a carteira, tirou uma nota de dez reais entregando-a ao camelô e pediu: - Traga para mim o mesmo que trouxer para você. Josivaldo ficou estupefato com a atitude inusitada do ricaço, mas tentou agir com naturalidade. Pegou o dinheiro, informou que voltava num minuto e dirigiu-se ao restaurante que vendia as quentinhas. Pouco tempo depois voltou com um saco plástico contendo dois volumes e refrigerante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentados sob o meio fio entre dois táxis estacionados, com os cotovelos apoiados sobre os joelhos, segurando a quentinha numa das mãos e o garfo na outra, estavam lado a lado Josivaldo e Behnken.&lt;br /&gt;- Estou muito surpreso que tenha aceitado um convite tão modesto. - Iniciou burocraticamente Josivaldo. &lt;br /&gt;- É verdade - respondeu Behnken com um sorriso contemplativo -, minha esposa pediria o divórcio na hora se visse esta cena. - Sorriu desajeitado. - Mas eu não me importo.&lt;br /&gt;- Se realmente não se importasse não teria agido daquela forma ontem. Imagino que alguma coisa o esteja impulsionando a agir assim - disse Josivaldo antes de levar mais uma garfada à boca.&lt;br /&gt;- Sim, sim. É o meu filho. Tenho me preocupado demais com ele. Acho que ele está se tornando um garoto muito vazio e, não sei como explicar, mas vejo que ele só se preocupa com o que os outros vão pensar e tenta se impor aos amigos demonstrando mais condições financeiras - falou com ar pesaroso, quase não tocando na comida.&lt;br /&gt;- Imagino que isso não tenha acontecido de uma hora pra outra.&lt;br /&gt;- Pra falar a verdade eu nem sei - Sorriu desolado. - Meu trabalho sempre exigiu muito de mim. Além de me tomar várias noites e fins de semana também é preciso estudar muito. No mês passado concluí mais uma pós-graduação. E com esse ritmo fica difícil acompanhar certas sutilezas na personalidade de um filho. Mas não me arrependo de nada do que fiz. Foi graças a todo esse meu esforço que ele hoje tem tudo o que precisa. Estuda num bom colégio, tem boas roupas, conhece vários países...&lt;br /&gt;- Então porque está tão desesperado? Seu filho tem tudo que precisa e parece valorizar o que tem dado a ele. - disse num tom de voz muito sincero.&lt;br /&gt;- Talvez eu esteja apenas ficando louco. Hé-hé. Mas não consigo tirar da cabeça que meu filho é um jovem vazio. Mas diga-me uma coisa: como são seus filhos?&lt;br /&gt;- São crianças maravilhosas, mas normais. Joana puxou a mãe e é uma espoleta. Se pudesse dormiria fazendo alguma coisa, mas como não pode, essa é a única hora em que ela pára. Já Mário é um garoto tímido, mas muito inteligente. Não do tipo que tira altas notas na escola, mas do tipo que entende tudo sem que se precise explicar. Nós três conversamos muito e somos muito ligados desde a mãe deles morreu&lt;br /&gt;- Acho que se meu filho pintasse o cabelo de azul eu só notaria dois meses depois, isso se a tinta não tivesse saído na eventual ocasião do nosso encontro.&lt;br /&gt;- O senhor é um bom pai. Sua preocupação com ele é um grande sinal disso.&lt;br /&gt;- Então você vai me ajudar? - disse Behnken com os olhos cintilantes numa aberta expressão de esperança que deixou Josivaldo completamente desajeitado.&lt;br /&gt;- Eu sinceramente não sei como ajudá-lo, mas farei o que me pedir.&lt;br /&gt;- Excelente! Vamos marcar um almoço em minha casa neste sábado. Sofia, Christensen, seus filhos, você e eu. Será ótimo!&lt;br /&gt;- Tudo bem. Farei de tudo para que meus flhos aceitem o convite, mas não vou obrigá-los, é bom que saiba.&lt;br /&gt;- Claro que não. Mas diga a eles que lá tem videogames (você sabe como as crianças de hoje em dia amam os videogames!), piscina e uma linda praia em frente. Eles vão se divertir muito! Eu passo na sua casa para lhe pegar de carro.&lt;br /&gt;- Absolutamente! Apenas me diga seu endereço e eu chegarei lá com meus filhos. Não se preocupe.&lt;br /&gt;- Eu insisto!&lt;br /&gt;- Em hipósete alguma. Espero que não insista. Mas acredito que teremos um dia muito agrável. - e sorriu abertamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Josivaldo anotou o endereço de Behken e acertaram um horário. Eles se levantaram, apertaram as mãos e Behnken foi embora em direção ao prédio da empresa. Estava muito pensativo. Não entendia porque estava fazendo aquilo tudo e sentia uma grande ansiedade dentro de si.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-111780653520083091?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/111780653520083091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=111780653520083091&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/111780653520083091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/111780653520083091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2005/06/quatro-metros-quadrados-parte-2.html' title='Quatro Metros Quadrados - Parte 2'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-111453672728630692</id><published>2005-04-26T14:21:00.000-03:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.326-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Quatro Metros Quadrados - Parte 1</title><content type='html'>&lt;p&gt;O grande termômetro digital fincado no meio da Avenida Presidente Vargas marcava 39 graus. O sol escaldante parecia servir de combustível para a multidão de pessoas que se amontoava nas ruas do centro do Rio em seu costumeiro ritmo acelerado de quem tem uma vida a salvar na próxima esquina. Diante desse oceano de cabeças fluindo em todas as direções estava o camelô Josivaldo. Um plástico azul de quatro metros quadrados estendido na calçada bem a sua frente amontoava bermudas, camisas, calças e bonés, imitações de uma famosa marca estrangeira. 45 anos, viúvo, pai de dois filhos, morador de um longínquo município da Baixada Fluminense, levava quase 3 horas para chegar até seu ponto de venda na Rua da Uruguaiana, rotina esta que se repetia há uma década.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Uma das cabeças que boiavam naquele oceano era a de Benkhen - diretor financeiro de uma empresa de grande porte. Enquanto caminhava aceleradamente, lembrou-se do aniversário do filho no dia seguinte e que além do videogame de última geração havia pedido também uma camisa de uma marca muito cara. E bem naquela hora fitou de relance as mercadorias de Josivaldo. As cores gritantes das peças atraíram sua atenção e o símbolo da marca citada pelo filho saltaram-lhe à vista. Benkhen aproximou-se de Josivaldo com ar arragonte, de quem conhecia muito bem a posição de ambos:&lt;br /&gt;- Quanto custa esta camisa aqui, meu caro? - perguntou de forma curta e seca.&lt;br /&gt;- Dez reais a sem manga e quinze reais a com manga, doutor. - respondeu Josivaldo quase sem levantar os olhos.&lt;br /&gt;Benkhen ameaçou virar as costas e seguir seu caminho não dando atenção ao vendedor, quando lhe ocorreu o pensamento: "Meu filho já tem doze anos e precisa aprender o valor do dinheiro. Não vou comprar a camisa que ele pediu na loja. Custa mais de duzentos reais. Ele vai ter que demostrar humildade contentando-se com essa do camelô".&lt;br /&gt;- Eu vou levar a vermelha aqui. - disse, apontando para um modelo junto a seu pé. - Você tem papel de presente?&lt;br /&gt;- Tenho não doutor. O senhor me desculpe a intromissão , mas o presente é para seu filho? - perguntou Josivaldo espantado com o pedido, observando as roupas caríssimas do cliente em contraste com o presente tão barato.&lt;br /&gt;- Sim. - respondeu meio reticente, desconfortável - Eu quero ensinar a meu filho o valor do dinheiro e que nem sempre podemos ter aquilo que queremos. As crianças não podem crescer achando que o mundo vai dar a elas tudo o que querem, não é verdade?&lt;br /&gt;- É verdade, doutor. Mas infelizmente eu luto para mostrar aos meus filhos que o mundo tem alguma coisa pra dar, porque até hoje a vida só tirou deles. Mas me perdoe, - disse, mudando o rumo da conversa - o senhor não tem nada haver com isso. Eu vou tentar conseguir um embrulho para o senhor com um colega que tem uma barraca aqui do lado. Aguarde só um momentinho... &lt;/p&gt;&lt;p&gt;De imediato Benkhen ficou indignado com a postura do camelô. Ele sempre havia considerado os ambulantes uns acomodados que viviam daquela forma por não terem vontade de vencer na vida. "Se Sílvio Santos conseguiu, qualquer um consegue", pensava ele. Mas por outro lado, imaginar os filhos daquele homem causavam-lhe um impacto estranho. Algumas cenas roubaram sua mente, como aquela em que seu eu filho Christensen se recusaou a ir ao passeio da escola sem uma bolsa nova, diferente da que usara em outro passeio poucos meses antes. Imaginar como aquelas crianças pobres sobreviviam com a renda ínfima do pai num bairro enlamaçado no fim do mundo o fazia ver como seu filho era um jovem raso e sem objetivos. De estalo, como fizera muitas vezes nas reuniões de trabalho - que tiraram a empresa do buraco em diversas ocasiões -, teve a insuitada idéia de promover um encontro entre as duas famílias. Porque não mostrar ao rapazinho que existia um mundo injusto lá fora e que ele precisava valorizar as dádivas que recebera por nascer numa família abastada? Mas propor isso a um camelô que acabara de conhecer era algo que ele não tinha noção de como fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Josivaldo reapareceu entre os transeuntes com um colorido papel de presente nas mãos. Benkhen agradeceu com um sorriso amistoso, numa aberta mudança de atitude para com o ambulante.&lt;br /&gt;- Quantos filhos você tem?&lt;br /&gt;- Tenho dois, senhor. O Mário e a Joana. - respondeu Josivaldo.&lt;br /&gt;- E qual é a idade deles?&lt;br /&gt;- Eles são gêmeos e têm 12 anos.&lt;br /&gt;- A mesma idade do meu filho! - anunciou efusivamente.&lt;br /&gt;- Que coincidência, né? - balbuciou Josivaldo, sem entender o porquê de tanta empolgação.&lt;br /&gt;- Sabe... Bem, eu nem sei como propor isso, mas... Eu realmente gostaria de que meu filho conhecesse seus filhos. Acho que poderia ser um encontro muito proveitoso para ambos.&lt;br /&gt;- Hein? Do que o senhor está falando? - perguntou com os olhos arregalados.&lt;br /&gt;- É, eu sei que parece um disparate, mas nossas crianças vivem em mundos diferentes, possuem formações, histórias e experiências distintas. Eu gostaria de mostrar ao meu garoto que existe outra realidade além das grades daquele condomínio e que ele precisa valorizar as coisas certas e não o dinheiro, status, aparência...&lt;br /&gt;- E o senhor quer usar meus filhos como animais de zoológico para que o seu possa ver de perto o que é um pobre, coisa que ele só sabe que existe por causa da TV. Muito obrigado! Mas eles não estão à disposição do primeiro rico metido a besta que aparece querendo fazer deles um circo particular. - explodiu Josivaldo.&lt;br /&gt;- Não! Não é nada disso. Eu gostaria muito de ajudar seus filhos. Imagino que deve ser difícil para você dar uma formação sólida para eles. Sem educação eles não vão chegar a lugar nenhum. Eu poderia pagar uma boa escola para eles. Não seja orgulhoso, homem! Pense neles... Eu não vou usá-los em circo, zoológico, nem coisa nenuma! Só quero ajudá-los. - disse num tom humilde e piedoso.&lt;br /&gt;Josivaldo permaneceu parado fitando aquela homem elegante trajando terno fino, sapatos bem lustrados, óculos de armação leve. Tentava imginar de onde poderia ter saído figura tão inusitada, que inicialmente quereria apenas comprar uma camisa e agora tentava marcar um encontro com seus filhos. Em dez anos de trabalho nunca havia passado por nada sequer parecido.&lt;br /&gt;- Me responda uma coisa com sinceridade: - indagou Josivaldo com voz mansa e olhar penetrante - Se eu, um camelô, lhe fizesse esta mesma proposta, como reagiria?&lt;br /&gt;- Eu... Eu... Não sei. É realmente algo difícil de imaginar. Eu...&lt;br /&gt;- Com certeza o senhor nem me deixaria terminar de falar, diria que sou um lunático e me enxotaria com grossuras. Mas utilizando-se de sua alta posição social, o senhor achou que poderia obter o que quisesse, chegar aqui e alugar minhas crianças a troco de algumas roupas, brinquedos ou qualquer outra mixórida. Agora eu lhe pergunto: com que cara eu olharia para os meus filhos, sabendo que o pai não foi capaz de lhes comprar essas coisas e que precisei entregar a dignidade delas em troca?&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Benkhen ficou pasmo com a dialética do camelô e viu que não se tratava da figura do pobretão clássico - iletrado, selvagem e boçal - que havia alimentado em sua mente por anos. Mas ao invés de sentir-se amedrontado com a veemente recusa do homem, imaginou que ele serviria muito melhor para seus propósitos. Decidiu então marcar um segundo encontro:&lt;br /&gt;- Bem, meu caro. Vejo que é um homem de muito valor. Não intentava de forma alguma lhe ofender. Gostaria encarecidamente que aceitasse meu convite para um almoço. Que tal amanhã? Podemos ir a um execelente rodízio de carnes numa rua aqui próxima. Não se preocupe, eu faço a gentileza...&lt;br /&gt;- Como pode ver, senhor, trabalho aqui sozinho. Não posso deixar minha mercadoria abandonada. E ainda que pudesse, não aceitaria seu convite por motivos que o senhor já deve imaginar. Mas não me incomodaria se o senhor me acompanhasse em meu almoço amanhã. O senhor só vai precisar trazer R$ 3,50 para comprar sua quentinha e, se desejear, R$ 1,00 para o refrigerante.&lt;br /&gt;- Você só pode estar brincando! - explodiu Benkhen. - Olhe para mim! Veja se eu tenho cara de quem come quentinha no meio da rua. Eu acho que fui longe de mais com essa minha loucura. Além de pobre é orgulhoso. Passar bem! - terminou de esbravejar enquanto virava as costas. Foi embora a passos largos, ombros retraídos e nariz empinado. Josivaldo abaixou-se para arrumar algumas camisas que estavam fora de ordem, como se nada daquilo tivesse acontecido. Seu olhar esboçava profundo descontentamento, enquanto seu rosto transmitia serenidade.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-111453672728630692?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/111453672728630692/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=111453672728630692&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/111453672728630692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/111453672728630692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2005/04/quatro-metros-quadrados-parte-1.html' title='Quatro Metros Quadrados - Parte 1'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-12428691.post-111445409518243739</id><published>2005-04-25T15:34:00.000-03:00</published><updated>2007-11-18T23:35:24.326-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Teclas sob tensão</title><content type='html'>O dia começou como tantos outros na quente cidade do Rio de Janeiro. O clima abafado e o asfalto quente transformaram o ônibus que levava Rafael para o trabalho numa sauna móvel de alta velocidade. Algo chique para um suburbano sem um tostão furado no bolso. Pelo menos a carteira era nova - e justamente por comprá-la é que ela estava vazia, ou será que ela poderia ser comprada cheia? Mais de uma hora se passa e desembarca no Centro um jovem com a testa molhada como azulejo de boxe depois de ducha quente, camisa social ensacada, completamente amarrotada e com o tecido das costas escuro de suor, desenhando todos os poros até então pressionados contra o ardente banco do coletivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegara. Finalmente chegara ao trabalho, deixando sua bolsa necessitada de um banho ao lado do micro. Esfregou os olhos tentando espantar o sono. O dia não estava muito movimentado. Pouca coisa pra fazer. Tempo livre. Nada interessante pra pensar. Somente perda de tempo. Coisa chata mesmo. Uh, põe chato nisso. Nada pra fazer. Nada pra pensar. Ai, ai, ai. Dia que não passa. Tempo que agarra o ponteiro e não deixa ele andar. Decidiu criar um blog!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim! Porque não deixar a imaginação voar sobre as asas da criação literária despretensiosa através de personagens de vida curta e sem compromisso com o passado, presente e futuro? Pressionava as teclas furiosamente na expectativa de conseguir compor um texto digno de ser lido. No fundo ele sabia que o único digno de ler aquilo era ele mesmo. Signifique isso o que seja lá. Seja lá, seja cá, seja aqui, seja acolá, sei lá. Ele está escrevendo contos. Danou-se.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/12428691-111445409518243739?l=contodromo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contodromo.blogspot.com/feeds/111445409518243739/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=12428691&amp;postID=111445409518243739&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/111445409518243739'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/12428691/posts/default/111445409518243739'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contodromo.blogspot.com/2005/04/teclas-sob-tenso.html' title='Teclas sob tensão'/><author><name>Rafael Dias</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06996029230380573236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-nmgIa-BieqM/TZIeh_AljCI/AAAAAAAAADQ/y8bdNUVOQHU/s220/avatar3.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry></feed>
